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CAPÍTULO 2. INATIVIDADE, PROCESSO E PROCEDIMENTO

2.1. Os prazos processuais como instituto fundamental para a viabilização da marcha

2.1.1. Possibilidade de suprimento da perda de um prazo?

Assinalamos no capítulo anterior que o prazo é um período de tempo dentro do qual o ato processual deve se realizar. Vimos também que o procedimento é uma concatenação de atos processuais que precisam de certo ritmo para atingir sua finalidade precípua.

todo o processo (inicial) ou uma fase do processo (recurso); daí que, verificada essa última, o processo ou a fase nem surge.

Assim, podemos distinguir dois tipos de prazos processuais: o extrínseco e o

intrínseco.224 O primeiro, já vimos, é tido pela doutrina como aquele espaço de tempo entre

o qual um ato processual deve ser implementado, uma distância entre um ato a quo e um

ato ad quem (prazo para contestar, prazo para recorrer, etc.).225 Sua ratio preponderante é a

de imprimir certeza, ritmo e concentração ao processo.226

O segundo é destinado a garantir a concatenação dos atos procedimentais e é estabelecido, porque a realização de determinado ato processual é incompatível com uma

nova situação processual criada.227 Neste caso, a extensão em que o ato deve ser

implementado, sob pena de preclusão, não é uma medida fixa de tempo, mas sim marcada

por determinada fase processual.228 A função preponderante – diz-se preponderante, pois

pode haver outras funções, como a aceleratória, por exemplo – deste tipo de prazo é

atribuir ao procedimento a certeza e coerência necessárias ao seu desenvolvimento.229

Partindo da premissa de que o princípio da instrumentalidade das formas deve ser entendido de forma ampla, ou seja, deve ser aplicado a todas as previsões que estabelecem formas no sistema processual e não somente àquelas sancionadas pela nulidade, Roberto Poli compreende ser possível a sua aplicação também às normas que estabeleçam a obediência de um determinado prazo sob pena de preclusão, até mesmo quando a lei prevê

expressamente que o prazo é peremptório.230

Embora o autor reconheça a dificuldade de se admitir que para os prazos extrínsecos haja aplicação do princípio da instrumentalidade das formas e,

224 POLI, Roberto. Sulla sanabilità della inosservanza di forme prescritte a pena di preclusione e decadenza. Rivista di diritto processuale. Padova: CEDAM, Apr/Giug 1996. p. 448-9: a maior parte das ideias desenvolvidas neste capítulo devem-se a este estudo; no mesmo sentido: SATTA, Salvatore. Diritto processuale civile...cit. p. 238. Id. Commentario al Codice...v. I, cit. p. 531.

225 COSTA, Sergio. Termini (Dir. Proc. Civ.). Novissimo digesto italiano. Torino: UTET, 1973. p. 118. v. XIX.

226 GROSSI, Dante. Termini (Dir. Proc. Civ.). Enciclopedia del diritto. Milano: Giuffrè, 1972. p. 235. v. XLIV; PICARDI, Nicolà. Dei termini...cit. p. 1543; VERDE, Giovanni. Profili del processo civile...v. I, cit. p. 280.

227 SATTA, Salvatore. Diritto processuale civile...cit. p. 238. Id. Commentario al Codice...v. I, cit. p. 531; VERDE, Giovanni. Profili del processo civile...v. I, cit. p. 272-3.

228 Trata-se da ideia de preclusão mista, tão difundida entre nós, e concebida por Liebman (LIEBMAN, Enrico Tullio. Manuale...v. I, cit. p. 187-8); COSTA, Sergio. Termini...cit. p. 118, que distingue-os em prazos a tempo fixo (em senso próprio) e prazos a determinado espaço de tempo; GROSSI, Dante. Termini...cit. p. 235-6, esp. nota 21; GRASSO, Eduardo. Interpretazione...cit. p. 643.

229 GROSSI, Dante. Termini...cit. p. 235-6; LIEBMAN, Enrico Tullio. Manuale...v. I, cit. p. 187; VERDE, Giovanni. Profili del processo civile...v. I, cit. p. 280.

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POLI, Roberto. Sulla sanabilità...cit. p. 459 e 478; contra, LIEBMAN, Enrico Tullio. Manuale...v. I, 1973, p. 208, para quem a inobservância do prazo, embora seja um caso peculiar de nulidade, não seria possível de ser sanada.

consequentemente, sanabilidade da perda de um prazo,231 ele a compreende possível na medida em que analisamos a função específica de cada prazo no processo. A ideia – e ela se aplica a priori aos prazos intrínsecos – é a de que o ordenamento prevê uma

“rimessione in termini”232

natural ou fisiológica, na medida em que um ato processual não realizado no tempo previsto não será prejudicado pela preclusão se o seu cumprimento

tardio não for incompatível com a situação atual do processo.233

Conhece-se em doutrina a possibilidade de relativizar, por exemplo, a apresentação extemporânea da réplica, até o momento em que o juiz não tome a iniciativa de iniciar a

fase de saneamento do processo.234 A ideia é justamente a sanabilidade da inobservância

do prazo, tendo em vista que o escopo deste ato processual é propiciar elementos fáticos para o estabelecimento dos prontos controvertidos na fase de saneamento. Assim, não iniciada a fase de saneamento, nada impede que a réplica seja apresentada, interpretando-se seu regramento como de preclusão mista.

O princípio da instrumentalidade das formas (art. 277, do CPC/2015), que deve informar toda a disciplina do exercício do direito de ação, tem como máxima, a ideia de que toda forma dos atos processuais não é prevista pela lei para a consecução de uma finalidade isolada e autônoma, mas é sim um instrumento disponibilizado pelo legislador

para a busca de uma finalidade maior.235 Isto posto, este princípio deve ter uma acepção

231 ORIANI, Renato. Atti processuali. Enciclopedia giuridica. Roma, 2007. p. 6. Embora o autor compreenda que o tempo e o lugar são requisitos de forma em senso estrito do ato processual e que sua ausência acarreta a nulidade do ato, ele reluta em entender aplicável a instrumentalidade das formas (art. 156, 3o comma, CPC italiano) a esse caso (ORIANI, Rentato. Nullità degli atti processuali. Enciclopedia giuridica. Roma, 2007. p. 11. v. XXIII).

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Trata-se do mecanismo previsto no art. 294, do CPC italiano, cuja finalidade é possibilitar ao revel sanar preclusões se a sua ausência ocorreu por motivo a ele não imputável. A ideia é semelhante àquela prevista em nosso art. 223, que estabelece a extinção do direito de praticar o ato processual fora do prazo, mas abre a possibilidade de o juiz relevá-la desde que comprovada a justa causa para o não cumprimento.

233 POLI, Roberto. Sulla sanabilità...cit. p. 470. 234

O prazo de dez dias não é dotado de preclusividade imediata. Trata-se de preclusão mista. Assim, não iniciadas as atividades de saneamento pelo juiz, nada impede que se recebam as alegações da réplica (DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições...v. III, cit. p. 579).

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POLI, Roberto. Sulla sanabilità...cit. p. 450-1; daqui decorrem três colorários básicos: a) que as normas atinentes à forma dos atos processuais devem ser vistas mais sob o seu caráter funcional que sancionatório (ORIANI, Renato. Nullità...cit. p. 21), b) a observância da forma é indispensável somente na medida em que seja necessária para assegurar o atingimento do próprio escopo do ato (MANDRIOLI, Crisanto. Corso...v. I, cit. p. 257 e LIEBMAN, Enrico Tullio. Manuale...v. I, 1973, cit. p. 206-7), c) a inobservância da prescrição formal é irrelevante se, apesar dela, o ato conseguiu atingir seu escopo (ORIANI, Renato. Nullità...cit. p. 8 e POLI, Roberto. Sulla sanabilità dei vizi...cit. p. 480-1).

geral, deve ser aplicável a todas as previsões de forma no processo civil,236 inclusive àquelas destinadas à implementacão do requisito tempo.

Assim, qual o escopo da previsão do prazo para apresentação de resposta? Primeiramente, o de concentrar as alegações dos fatos e chegar-se o mais brevemente possível à fixação dos pontos controvertidos (art. 357, do CPC/2015) ou ao julgamento conforme o estado do processo (arts. 354, 355 e 356, do CPC/2015). Depois, obviamente, se o réu alegar qualquer das matérias elencadas no art. 337 e 350, do CPC/2015, permitir o contraditório, mediante a apresentação de réplica pelo autor (arts. 350 e 351, do CPC/2015), bem como a sanação de vícios por este (art. 352, do CPC/2015). Desta forma, se a resposta, ainda que intempestiva, for juntada aos autos antes mesmo que eles sejam conclusos ao juiz para as providências preliminares, ou julgamento conforme o estado dos autos, ou para o saneamento do processo, a não observância do prazo para contestar, não prejudicou o escopo de concentração almejado pelo legislador para a fixação dos pontos controvertidos ou encerramento antecipado da controvérsia. Nem mesmo o contraditório seria desrespeitado. A conclusão é a de que, ainda que a lei preveja um prazo peremptório para resposta, ele pode ser compatibilizado com a atividade processual realizada no bojo em que está inserida (preclusão mista) e se sua apresentação intempestiva não for incompatível com a situação processual em que o ato foi realizado, aplica-se o princípio da instrumentalidade das formas para sanar-se a inobservância do prazo (art. 277, do CPC/2015).

O princípio da instrumentalidade das formas, ainda, deve ser observado não só com a finalidade de se assegurar o escopo primeiro, direto e específico de um ato processual, mas sim de toda a cadeia dele dependente e, principalmente, daquele último, indireto, ou

seja, a necessidade de atingir-se uma sentença de mérito hígida,237 indispensável para a

plenitude da tutela jurisdicional. Daqui decorrem três corolários de suma importância:238 a)

deve-se impedir, o quanto for possível, que a necessidade de se utilizar do processo

236 POLI, Roberto. Sulla sanabilità dei vizi degli atti processuali. Rivista di diritto processuale. Padova: CEDAM, 1995. p. 480-1; sobre essa aplicação mais ampla da instrumentalidade das formas, principalmente aos atos de produção probatória e aos vícios não formais: ORIANI, Renato. Nullità degli atti...cit. p. 8-9. O mesmo autor atribui ao art. 156, 3o comma, do CPC italiano (similar ao nosso art. 277, do CPC/2015), valor de norma símbolo, capaz de exprimir um verdadeiro princípio geral em termos de processo (ORIANI, Renato. Atti processuali...cit. p. 4); cfr. ainda, MANDRIOLI, Corso...v. I, cit. p. 256-8.

237 POLI, Roberto. Sulla sanabilità...cit. p. 451-2; LIEBMAN, Enrico Tullio. Manuale...v. I, cit. p. 205-6. 238 POLI, Roberto. Sulla sanabilità...cit. p. 452.

prejudique a parte que precisa agir ou defender-se em juízo para sustentar suas razões,239 b) o processo deve dar, sempre que possível, àquele que tem um direito, tudo aquilo e

exatamente aquilo que tem direito de receber,240 c) as hipóteses em que a inobservância de

determinada forma acarreta uma sentença de extinção sem resolução de mérito devem ser

tidas como excepcionais.241

Esses três corolários reforçam a ideia de que os principais atos postulatórios das partes (especialmente, mas não só, a contestação e a réplica), quando intempestivos, desde que não prejudiquem o escopo de concentração e certeza relativo aos prazos que lhes regulam – é dizer, desde que não se tenha ultrapassado a fase processual exigida pelo legislador como ideal de concentração, ou seja, aquela até o momento em que se pode alterar o pedido ou a causa de pedir (art. 329, do CPC/2015) –, desde que se tenha observado a oportunidade de manifestação dos demais sujeitos processuais, devem ser conhecidos, porque auxiliam o juiz na prolação de uma sentença de mérito mais condizente com a realidade fática e dão-lhe maior quantidade de elementos fáticos e jurídicos para decidir.242

No mais, averiguada a inatividade parcial na contestação, referente à não impugnação específica dos fatos alegados pelo autor, mesmo nos casos não enquadrados nas exceções previstas no art. 341, do CPC/2015, poderia o juiz determinar a emenda da peça defensiva? Acreditamos que sim, não só pela possibilidade de dispensar ao réu tratamento análogo ao do autor (art. 321, do CPC/2015), como pelas novas previsões que

privilegiam a sanação do vício dos atos processuais (arts. 9o, 10 e 317, do CPC/2015). Isso

porque a falta de impugnação dos fatos alegados pelo autor não deixa de ser um requisito – de validade ou não – exigido pelo legislador no art. 341, que, apesar de ter expressa

239 CHIOVENDA, Giuseppe. Sulla ‘perpetuatio iurisdictionis’. In Saggi di diritto processuale civile. Roma, 1930. p. 271 e ss., esp. 273. v. I.

240 CHIOVENDA, Giuseppe. Dell’azione nascente dal contrato preliminare. In Saggi di diritto processuale civile. Roma: Foro italiano, 1930. p. 110. v. I.

241 ANDRIOLI, Virgilio. Diritto processuale civile. Napoli: E. Jovene, 1979. p. 28.

242 Note o leitor que o que se defende é o suprimento da perda de um prazo para os atos postulatórios, devido à sua importância para a prolação de uma sentença mais robusta, dotada de maiores elementos fáticos. A aplicação do suprimento de um prazo em outras searas, como a recursal, por exemplo (lembrando-se que após o escoamento do prazo extrínseco recursal há trânsito em julgado, com formação de coisa julgada, cfr. BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código...v. V, cit. p. 266, o que dificultaria sobremaneira a aplicação da contagem dos prazos em fases sem uma previsão legal expressa), não é defendida no presente trabalho, pois dependeria de um estudo mais minucioso, que refoge ao escopo por nós pretendido.

cominação legal, pode ser objeto de correção.243 Obviamente, nem sempre essa emenda será possível de ser realizada. Entretanto, em situações em que fica claro o pedido de rejeição e a falta de contestação específica faz faltar uma causa de pedir, ou da narração

dos fatos não se decorrer logicamente a conclusão (art. 330, § 1o, inc. I e III, do

CPC/2015), nada impede que o juiz determine seja suprida a sua falta.