• Nenhum resultado encontrado

3 O DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE À CONVIVÊNCIA

3.4 A possibilidade da família substituta

A colocação em família substituta, como degrau seguinte na escala de valores estabelecidos pela nova sistemática legal, deverá ser perseguida quando não for possível a manutenção da convivência da criança e do adolescente com sua família natural. Isso pode ser decorrente da sua falta ou da violação severa dos deveres do poder familiar, não sendo recomendável outra medida protetiva a fim de restaurar/recuperar o núcleo familiar, lembrando a preferência por aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários (art. 100 do ECA).

O Código Mello Mattos, de 1927, em seu art. 49, já fazia referência à “entrega de menores a pessoas particulares que não fossem pais ou tutores como uma espécie de antecipação do exercício do Pátrio Poder”. No Código de Menores de 1979 a guarda aparecia como forma de colocação em “lar substituto”, estava prevista nos arts. 24/25 e se apresentava como mecanismo jurídico de utilização imediata, o qual obrigava a pessoa responsável “à prestação de assistência material, moral e educacional ao menor”. Naquela época o destinatário da guarda era apenas o “menor em situação irregular”.

Com a revogação do ECA, entretanto, estabeleceu-se micro-escala valorativa, priorizando a família biológica ampliada/extensiva, decorrente de vínculos sanguíneos maternos ou paternos, como a formada pelos parentes da criança/adolescente (avós, irmãos, tios, etc.), como forma de manter os vínculos hereditários, afetivos e sociais que a criança já tem, objetivando reduzir os traumas de afastamento de seus genitores.

A colocação da família substituta não se faz de forma aleatória ou arbitrária, pois a lei determina que o pedido de colocação na família substituta leve em conta o grau de parentesco e a relação de afinidade ou afetividade, a fim de evitar ou amenizar as consequências decorrentes da medida (art. 28 § 3º, ECA). Primeiramente, deve-se tentar a aproximação da criança/adolescente com a família natural e depois a sua colocação na família extensiva.

Chaves (apud FONSECA, 2011, p. 107) adverte: “existem pessoas que sob o mando da benemerência outra coisa não pretendem senão conseguir um simples serviçal sem estipêndio, quando não cultivam hábitos muito piores”. Aí o motivo pelo qual a lei determina o art. 29: “Não se defira colocação em família substituta à pessoa que revele por qualquer

modo, incompatibilidade com a natureza da medida ou não ofereça um ambiente familiar adequado”, o que deve ser completado pelo art. 28 § 5º, ECA (Lei n. 12.010/09):

a colocação da criança e do adolescente na família substituta será precedida de sua preparação gradativa e acompanhamento posterior, realizados pela equipe interprossional a serviço da justiça, da infância e da juventude, principalmente com apoio técnico responsável pela execução da política municipal de garantia de direito à convivência familiar.

Caso não houver possibilidade de inserir a criança/adolescente na família extensa, existe ainda a família substituta não consanguínea, aquela que não mantém com a criança/ adolescente qualquer grau de parentesco, vínculo afetivo ou de afinidade, ostentando maior grau de excepcionalidade em relação à família biológica extensiva pelo fato de romper, definitivamente, com a história de vida da criança, havendo maior potencialidade de traumas em face do afastamento do convívio com os pais naturais.

Desse modo é que fica explícita a importância dos relatórios sociais e psicológicos, elaborados adequadamente a fim de analisar as condições da família substituta, suas verdadeiras intenções, de modo a evitar frustrações ou traumas nas crianças/adolescentes, uma vez que já passaram por uma ruptura dos laços consanguíneos.

O grau de maior excepcionalidade está na colocação do menor em família substituta estrangeira, em face da ruptura definitiva que se opera tanto nos vínculos familiares, de afinidade e afetividade, como nos relacionados com o meio social, cultural e linguístico, dentre outros, impondo à criança e ao adolescente a privação em caráter permanente e definitivo de qualquer contato com sua família biológica.

A mudança exige, além da estrita observância das disposições legais (art. 227, § 5°, da CF/88 e arts. 31 e 46, § 2°, do ECA), acurada análise das reais vantagens para a criança/adolescente (art. 43 do ECA) quanto às consequências que poderão advir. Estas não se resumem a questões econômicas e sociais – em regra as que mais despertam a atenção e fascinação, mas sim quanto à possibilidade de enfrentamento dos traumas decorrentes das rupturas que se verificarão de imediato na vida do adotando e se prolongarão por longo período.

De acordo com o art. 33 do Estatuto da Criança e do Adolescente, “a guarda obriga à prestação de assistência material, moral e educacional à criança e ao adolescente, configurando ao seu detentor o direito a opor-se a terceiros, inclusive aos pais”. Desse modo,

a guarda é concedida em situações em que os requerentes aguardam a decisão judicial sobre a concessão de tutela ou adoção, bem como em caso de suspensão do Poder Familiar, enquanto se procede o atendimento aos pais biológicos com intenção de restaurar os vínculos com os filhos. Caso seja impossível, a melhor decisão é de fato a Perda do Poder Familiar.

O ECA refere também que há situações em que a criança e o adolescente já estão separados de seus pais definitivamente, mas acaba não se aplicando a adoção porque é praticamente inviável à criança/adolescente. Trata-se de situações em que crianças mais velhas, adolescentes ou grupos de irmãos já se encontram em companhia de algum parente ou vizinho.

Becker (2011, p. 68) defende a ideia de que vale a pena investir em programas de colocação em família substituta, na forma de guarda, tanto permanente como transitória, sempre que for medida indicada. Certamente, uma família substituta e afetuosa é capaz de oferecer a adequada convivência familiar e comunitária e, na imensa maioria dos casos, é melhor do que as entidades de acolhimento.