3. UM BRINDE A SAÚDE! QUANDO A CELEBRAÇÃO VIRA TRAGÉDIA:
3.3 A saúde dos professores de Educação Física do Município de Belém
3.3.1 Possibilidades coletivas no cuidado com a saúde
Existiu também uma preocupação em saber quais eram as mobilizações coletivas na esfera da escola entre os professores para se discutir saúde. As duas professoras entrevistadas responderam que inexistiam espaços para discussão sobre saúde no ambiente escolar.
A professora Andressa responde sobre a necessidade de tais espaços de integração e diálogo:
(...) seria muito produtivo e até esclarecedor porque tem pessoas que não tem algum esclarecimento assim a cerca do que faz, e o que pode trazer como problema de saúde, como é o caso de algumas merendeiras, mas assim uma coisa mais técnica, olha se você pegar esse objeto com força de forma incorreta vai te acarretar esses problemas, que a maioria tem, é muito comum e é notório, principalmente nas mulheres porque já engravidaram, já pariram, e você sabe que faz força os paravertebrais, força uma lordose, então a maioria das mulheres que eu vi nas escolas eu observo essa questão, seria interessante organizar um representante ou vários representantes de cada turno para ter essa conversa, ai verificaria um dia, mas isso tem que passar por todo um sistema maior, passar pela secretaria, a secretaria enviaria para os diretores, fazendo com cada representante de cada turno, ai tem que ser uma coisa maior, conversada, organizada, e colocada no papel e que funcione (...).
O depoimento traz consigo uma ampla possibilidade reflexiva sobre as buscas por uma vida mais saudável no trabalho vivido pelos docentes em geral e especificamente os de Educação Física. O esclarecimento, a informação e o levantamento dos casos de fragilidades em coletividade num primeiro momento podem ser a condição primária para ações mais eficazes do ponto de vista das reivindicações que os próprios professores fazem sobre seu trabalho e sua saúde.
A organização coletiva para a criação de uma roda de conversa para discutir saúde no âmbito escolar e o movimento de institucionalizar esse espaço será um ponto de apoio e de legitimação das reivindicações dos professores.
A professora Rosa comenta que além da necessidade de haver momentos para discussão dos problemas relacionados a saúde seria interessante mecanismos que fizessem os professores se movimentarem no sentido do exercício ser um instrumento de aproximação e de sociabilidade para se conceber a própria saúde.
(...) deveria existir um momento para os professores discutirem essa questão não é? Eu já tive assim uma idéia. Então eu falei com ela (diretora), que eu ia fazer esse projeto tipo como tem a ginástica laboral nas empresas, na escola, eu tava pensando assim, ou os professores chegassem antes, ou alunos chegassem um pouco depois, do horário, no caso 7:30 no caso eles chegarem 7 horas, ficaria assim tipo uma meia hora, pra gente está reunindo, pra fazer uma ginástica, um alongamento, um relaxamento (.... ).
Percebe-se que o processo de aproximação entre os trabalhadores da educação na escola quer sejam professores ou técnicos administrativos são muito debilitados, pois cada sujeito se fixa no cumprimento de suas atividades. É verdade que as relações sociais são presentes entre aqueles que trabalham no mesmo setor, por exemplo, os funcionários que trabalham na limpeza, ou na copa, ou na secretaria, ou entre os próprios professores.
Quando se realizou a pesquisa de campo com os professores foi possível observar que uma parte dos professores não possuía vínculos mais fortes com outros funcionários da escola, dando a impressão que suas relações eram apenas técnico- profissional.
Assim, as formas de ações necessárias e forjadas para se criar mecanismos de percepção da saúde pelos professores surgem em meio a uma contradição latente nos dias atuais e que se expressa nos fracos vínculos construídos na sociedade contemporânea, pode-se citar os estudos de Bauman (2004) sobre as fragilidades dos laços humanos onde o mesmo as caracteriza e as localiza na chamada modernidade líquida.
É preciso salientar que a denomina de modernidade líquida de Baumam (2004) nada mais é do que as modificações essenciais da lógica sócio-metabólica do capital em tempos de crise. As mudanças nas relações de produção e reprodução da vida no modo de produção hodierno, marcadamente alteram as formas de sociabilidade da própria sociedade. Com isso, modifica a estrutura psicogenética da consciência coletiva.
Simmel (2005) analisando a vida nas cidades ainda no início do século XX na Europa, mais precisamente na Alemanha já atestava os prejuízos das formas de
sociabilidade na então modernidade, pois a técnica da vida já alcançara as estruturas individuais dos homens da cidade. O autor chega a comentar que os fundamentos psicológicos que se constituem as personalidades dos sujeitos da cidade é a intensificação da vida nervosa.
As formas de ver a si e ao outro têm dificultado as possibilidades de adesão ou criações de propostas que venham na direção de uma emancipação dos sujeitos em relação ao trabalho e a saúde.
Sabe-se que mesmo com alguns processos de reestruturações do capital como a captura da subjetividade do trabalhador, Alves (2007), pondo em risco formas de mobilização e ações coletivas, torna-se necessário pensar maneiras de participação e engajamento político e social no ambiente de trabalho, de maneira que haja participação ativa dos sujeitos nos espaços de trabalho.
É necessária a identificação dos problemas que afligem uma parcela significativa da sociedade, por exemplo, os professores de forma geral. As constatações revelam que a precariedade do trabalho destes profissionais traz consigo graves consequências para sua saúde.
Por isso, além das reivindicações necessárias por políticas públicas como é naturalmente e demasiadamente descritos em vários trabalhos neste campo, deve-se atentar para a construção de ações coletivas que surjam da base das relações sociais entre os sujeitos históricos e que sejam organizadas por instrumentos de luta construídos na defesa da classe trabalhadora como, por exemplo, os sindicatos e partidos políticos que tenham essa questão como importante nas suas bandeiras de luta, assim como no programa.
Não há ação mais eficaz por parte dos organismos de luta do que o próprio trabalhador tomar consciência da necessidade de lutar pela sua própria saúde. Para isso são condições primárias todas as formas de intervenção ou iniciativas individuais e coletivas que se possa ter em um país marcado pelas contradições sociais e pelo descaso com a educação pública.
A luta pela saúde no quotidiano dos professores requer também sua construção e formação militante permanente para que com isso as formas de enfrentamento no trabalho e as ações coletivas possam ser reais na vida sujeitos.