• Nenhum resultado encontrado

Capítulo IV: Limites e Possibilidades para o Desenvolvimento da Tutoria:

1. Possibilidades de Funcionamento do Regime de Tutoria

No que diz respeito às possibilidades de uma proposta de tutoria no desenvolvimento de EC, podemos considerar satisfatório o fato de ela ter, primeiramente, proporcionado aos estagiários maior segurança na realização do EC, uma oportunidade de troca de experiência, uma avaliação mais tranqüila e produtiva e um acompanhamento compartilhado entre todos os envolvidos com o desenvolvimento do EC.

A questão da segurança tem a ver com fato de a tutoria ter proporcionado a possibilidade de os estagiários terem podido contar com alguém (o tutor) no enfrentamento das dificuldades encontradas, sobretudo, em relação ao confronto inicial entre as expectativas sobre a escola pública e a realidade realmente vivenciada. Também tem a ver com fato de terem podido ir para sala de aula um pouco mais preparados em relação aos possíveis problemas com comportamento de alunos, condutas inadequadas deles, isto é, em relação à gestão de classe. E ainda tem a ver com a oportunidade de terem podido se preparar e sanar dúvidas sobre outras atividades da escola que também fazem parte da agenda dos professores em serviço, como preenchimento de diários de classe, participação em conselho de classe, reunião de pais, entrega de boletins, etc.

Em relação à troca de experiência, a tutoria proporcionou aos estagiários a possibilidade de discutir os planejamentos de aula ou replanejá-los sob a orientação de alguém (tutor) com experiência nisso e com conhecimento sobre o contexto escolar. A tutoria também pôde proporcionar um auxílio no que diz respeito aos procedimentos avaliativos utilizados nas escolas. Os estagiários tiveram oportunidade de, junto com seus tutores, tomar conhecimento sobre os instrumentos de avaliação comumente utilizados bem como de discutir sobre eles e sobre os resultados de sua utilização. E ainda puderam trocar atividades e material didático com os tutores.

Isso nos permitiu a corroboração das iniciativas de Piconez (2003b, p.03) ao salientar a importância do desenvolvimento de situações concretas de episódios-aula, preparação e vivência de situações concretas de ensino como forma de traduzir o nível tão-somente retórico da formação de professores em ações de fato didáticas.

No que diz respeito a uma avaliação mais tranqüila e produtiva, podemos afirmar que a tutoria rompeu com um paradigma bastante comum na avaliação de EC, mediante o qual a maioria dos estagiários era avaliada através da presença do orientador no fundo da sala de aula deles. Essa avaliação, por vezes, causava não só um desconforto aos estagiários como contribuía muito pouco na medida em que se resumia à avaliação de aspectos, tais como, utilização do quadro negro, postura em sala de aula, relacionamento com os alunos, etc. Sem mencionar ainda o fato de que avaliava o aluno apenas num determinado momento e não ao longo do desenvolvimento do EC. Através do regime de tutoria, não só os tutores como os orientadores puderam participar da avaliação do desenvolvimento do EC do estagiário, podendo contribuir com esse processo ao longo dele e, tendo um momento oportuno - encontros periódicos – para a discussão das condutas, do desempenho do estagiário bem como para fazer sugestões sobre isso.

Vale ainda acrescentar que o regime de tutoria pôde proporcionar aos estagiários uma inserção menos traumática no campo de EC e ter rompido com algumas tradições, de certa forma, negativas de desenvolvimento de EC, nas quais estagiários precisavam lidar sozinhos com um ambiente conhecido por eles no papel de alunos, mas desconhecido no papel de professores. A tutoria permitiu a interação e a participação do orientador juntamente com o tutor, evitando constrangimentos decorrentes da ausência do orientador durante a realização do EC de seus estagiários bem como a concessão de turmas a estagiários sem nenhum professor em serviço responsável por ela. O regime de tutoria pôde romper com algumas situações em que estagiários tiveram que

assumir turmas, sem professor responsável ou cujo professor responsável estava afastado ou algo parecido. Isto é, tiveram que assumir turmas praticamente na função de professores efetivos, quando, na verdade, estavam realizando sua primeira experiência profissional.

No que diz respeito às possibilidades de uma proposta de tutoria no desenvolvimento de EC, podemos também considerar satisfatório o fato de ela ter proporcionado aos tutores um espaço que permitiu a discussão conjunta sobre o desenvolvimento do EC do estagiário e ter, de certa forma, despertado a consciência da necessidade do acompanhamento aos estagiários. Somando-se a isso, o regime de tutoria também produziu uma avaliação dos tutores sobre sua própria carreira docente bem como uma oportunidade de reconhecimento da possibilidade de se desenvolver um trabalho satisfatório com estagiários.

Em relação à discussão conjunta sobre o desenvolvimento do EC do estagiário, podemos concluir que o regime de tutoria permitiu que os tutores tivessem não só pleno conhecimento sobre as atividades realizadas pelos seus estagiários como também oportunidade para sugerir modificações/adequações para que ficassem de acordo com a proposta deles e da escola. O regime de tutoria também permitiu que os tutores dividissem com seus estagiários a responsabilidade sob as demais atividades da escola como a participação nos conselhos de classe, reunião com pais, entre outras, uma vez que tiveram a oportunidade de explicar a eles os procedimentos comumente adotados nessas ocasiões. Isto é, o estagiário não representou uma sobrecarga para tutor, uma vez que este teve a oportunidade de dividir com o estagiário algumas de suas tarefas.

O regime de tutoria parece também ter despertado uma certa consciência em relação à importância de um acompanhamento efetivo junto aos estagiários. Os tutores puderam perceber a necessidade de as escolas abrirem um espaço para professores em formação desde que essa abertura seja acompanhada não só para a maior segurança deles em relação ao trabalho dos estagiários nas suas turmas como para a maior tranqüilidade dos próprios estagiários. Nesse sentido,

podemos concluir que o regime de tutoria tranqüilizou os tutores em relação ao receio de conceder turmas aos estagiários e depois recebê-las novamente sem o conhecimento sobre o que havia acontecido durante o trabalho do estagiário.

Também foi satisfatório o fato de a tutoria ter proporcionado uma avaliação e um incentivo à carreira docente dos tutores. A oportunidade de discutir com outras pessoas (estagiários e orientadores), de trocar atividades e/ou material didático, de observar outra pessoa (estagiário) atuando na mesma área disciplinar que a sua permitiu aos tutores que repensassem algumas condutas, algumas modificações para sua área de atuação, a importância de se ter planejamento, há muito esquecido em algumas escolas em função das grades de conteúdos decorrentes da preparação dos alunos para os processos seletivos de ingresso ao ensino superior. E, além disso, acrescentou um pouco de ânimo à carreira, por vezes, desgastada pelo tempo de serviço docente.

Isto é, pudemos perceber aqui as considerações de Marcelo Garcia (1999, p.22) ao referir-se à interformação, à necessidade de os profissionais encontrarem contextos de aprendizagem que favoreçam a procura de metas e aperfeiçoamento pessoal e profissional.

E, por fim, o regime de tutoria propiciou uma oportunidade para o reconhecimento de que é possível se desenvolver um trabalho satisfatório com estagiários nas escolas. O trabalho desenvolvido nos GT permitiu o rompimento com a tradição de que o recebimento de estagiários é prejudicial ao bom funcionamento das aulas e/ou da escola. Os tutores puderam perceber e, inclusive mostrar a seus colegas, que estagiários, se acompanhados, podem desenvolver um ótimo trabalho, podendo até acrescentar aspectos positivos às escolas no que diz respeito à troca de atividades/matérias/informações, etc. E, somando-se a isso, podemos também concluir que a tutoria permitiu novamente um contato dos tutores com as IES (orientador), nas quais fizeram seus cursos de graduação, mas das quais acabam se afastando em função do ingresso no

magistério público e do próprio acúmulo de atividades próprio da profissão docente.

Tendo em vista essas considerações, podemos concluir que a tutoria cumpriu seu papel no que diz respeito à realização de um EC, o qual realmente aproxime o estagiário de sua profissão e o faça pensar sobre ela bem como permitiu um acompanhamento compartilhado. Isto é, um acompanhamento cuja responsabilidade foi dividida entre todos os envolvidos, sobretudo, entre IES e EEB.

Documentos relacionados