Além das possibilidades descritas até o presente momento, há outras formas de aumentar o período de contribuição sem necessidade do recolhimento em atraso, sendo que a partir de agora, será pontuada algumas dessas hipóteses.
Uma das possibilidades é quando o segurado possui período trabalhado em condições especiais, previsto no art. 57, § 5º, da Lei nº 8.213/91, que assim dispõe:
§ 5º O tempo de trabalho exercido sob condições especiais que sejam ou venham a ser consideradas prejudiciais à saúde ou à integridade física será somado, após a
respectiva conversão ao tempo de trabalho exercido em atividade comum, segundo critérios estabelecidos pelo Ministério da Previdência e Assistência Social, para efeito de concessão de qualquer benefício (BRASIL, Lei nº 8.213, 2019).
O TRF-4 já deferiu esse possibilidade, conforme demonstra a seguinte decisão do processo nº 5049957-13.2017.4.04.9999:
PREVIDENCIÁRIO. ATIVIDADE URBANA. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL. RECOLHIMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS EM ATRASO. CÔMPUTO COMO TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO. ATIVIDADE ESPECIAL. AGENTES NOCIVOS. PERICULOSIDADE POR UTILIZAÇÃO DE ARMA DE FOGO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL. CONCESSÃO DE APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO/CONTRIBUIÇÃO. OPÇÃO PELA RMI MAIS VANTAJOSA.TUTELA ESPECÍFICA. 1. Comprovado o recolhimento das respectivas contribuições previdenciárias pelo segurado contribuinte individual, impõe-se a averbação do período requerido junto ao RGPS. 2. Não há que se impedir o reconhecimento, como tempo de contribuição, dos períodos de contribuições previdenciárias recolhidos em atraso pelo contribuinte individual, uma vez que a Lei nº 8.213/91 veda, em seu art. 27, II, unicamente o cômputo desses períodos recolhidos em atraso para fins de carência. 3. Apresentada a prova necessária a demonstrar o exercício de atividade sujeita a condições especiais, conforme a legislação vigente na data da prestação do trabalho, o respectivo tempo de serviço especial deve ser reconhecido. [..] 9. Determina-se o cumprimento imediato do acórdão naquilo que se refere à obrigação de implementar o benefício em favor da parte autora, por se tratar de decisão de eficácia mandamental que deverá ser efetivada mediante as atividades de cumprimento da sentença stricto sensu previstas no art. 497 do CPC/15, sem a necessidade de um processo executivo autônomo (sine intervallo). (BRASIL, TRF4, 2019)
Outra possibilidade ocorre quando o segurado possui período laborado no meio rural, anterior à Lei nº 8.213/91, de acordo com o artigo 55, § 2º, esse período “será computado independentemente do recolhimento das contribuições a ele correspondentes, exceto para efeito de carência, conforme dispuser o Regulamento” (BRASIL, Lei nº 8.213, 2019).
Essa situação é bem comum nos casos de aposentadoria por tempo de contribuição, quando o segurado possui a carência necessária, mas não possui o tempo de contribuição, nesse caso, ele pode averbar o período rural anterior à lei 8.213/91, para completar o tempo que precisa.
Entretanto, se o segurado trabalhou no meio rural após à lei 8.213/91, e não realizou as devidas contribuições para o INSS, assim como o contribuinte individual, também precisará pagar em atraso, pois o art. 25 da Lei 8.212/91, estabeleceu a seguinte contribuição obrigatória:
Art. 25. A contribuição do empregador rural pessoa física, em substituição à contribuição de que tratam os incisos I e II do art. 22, e a do segurado especial, referidos, respectivamente, na alínea a do inciso V e no inciso VII do art. 12 desta Lei, destinada à Seguridade Social, é de:
I - 1,2% (um inteiro e dois décimos por cento) da receita bruta proveniente da comercialização da sua produção;
II - 0,1% da receita bruta proveniente da comercialização da sua produção para financiamento das prestações por acidente do trabalho (BRASIL, Lei nº 8.212, 2019).
Assim, caso o segurado pretenda utilizar o período rural para completar o período necessário para sua aposentadoria, que pode ser por idade, no caso da aposentadoria híbrida, ou por tempo de contribuição, precisará observar em qual período laborou no meio rural, pois só poderá contar como tempo sem recolher em atraso, o período anterior à Lei nº 8.213/91.
6 CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como finalidade analisar a(s) possibilidade(s) de recolhimento de contribuição em atraso para fins de concessão de alguns benefícios previdenciários no âmbito do Regime Geral da Previdência Social - RGPS.
Para isso, foram abordados incialmente, alguns aspectos gerais da previdência social e do RGPS, previstos na Constituição Federal, bem como alguns princípios constitucionais de direito previdenciário aplicáveis a essa matéria e que possuem grande relevância para o tema.
Após a análise dos princípios, fora observado as contribuições previdenciárias efetuadas pelos segurados obrigatórios (empregado e empregado doméstico, pelo contribuinte individual, pelo trabalhador avulso) pelo segurado facultativo, pela empresa, bem como aquelas derivadas de decisões na justiça do trabalho, ambas para o custeio da seguridade social.
Posteriormente, foi tratado sobre algumas espécies de benefícios previdenciários que servem para dar cobertura previdenciária aos segurados. Dentre todos os benefícios previstos no artigo 18 da Lei nº 8.213/91, fora analisado apenas os benefícios de aposentadoria por tempo de contribuição, aposentadoria por idade e pensão por morte bem como os principais fundamentos e regras.
Ainda, no mesmo capítulo, após a análise dos benefícios previdenciários, foi visto que existe a possibilidade de revisão de benefícios previdenciários ligados a aposentadoria, procedimento que pode ser realizado por meio de processo administrativo, diretamente em uma agência da previdência social ou através de ação judicial.
Por fim, passo à analisar o tema principal deste trabalho.
Foi averiguado primeiramente, a diferença entre tempo de contribuição e período de carência, tendo em vista que ambos são requisitos para concessão de benefício e podem ser confundidos quando tratar sobre contribuição em atraso.
Para tanto, fora analisado o período de carência que cada benefício possui como requisito bem como um rol de provas que o contribuinte individual precisa comprovar.
Posteriormente, foi visto que há a possibilidade de concessão de benefício previdenciário após o pagamento das contribuições em atraso, porém, não ocorre de maneira simples, é necessário observar algumas questões e o tipo de segurado.
Foi estudado que o segurado que é contribuinte individual e exerce atividade remunerada mas não efetua os recolhimentos, vindo a filiar-se depois, nesse caso, ele poderá
contribuir em atraso, a) desde que consiga comprovar o exercício da atividade, b) entretanto, não servirá como período de carência, além disso, c) é necessário possuir qualidade de segurado para poder efetuar o recolhimento.
Foi visto, que não há apenas uma possibilidade de concessão de benefício previdenciário após o recolhimento das contribuições em atraso, mas sim, várias, sendo que cada uma possui suas particularidades.
É o caso dos empregados e empregados domésticos que tiveram sua Carteira de Trabalho e Previdência Social registradas, porém o empregador deixou de efetuar o recolhimento, cabe a estes segurados, procurar seus direitos trabalhistas para poder reconhecer esse período e consequentemente, ter as contribuições recolhidas.
Ainda, fora verificado que também a possibilidade de concessão de benefício previdenciário sem precisar recolher em atraso, é o que acontece quando o segurado trabalhou sobre condições especiais de trabalho, esse período pode ser computado, bem como o período trabalhado na atividade rural anterior à Lei nº 8.213/9.
Diante da pesquisa realizada para o presente trabalho, observa-se a importância do tema nos dias atuais, tendo em vista a recente reforma da previdência social que altera grande parte dos requisitos necessários para concessão de benefícios previdenciários bem como a falta de conhecimento da população acerca do tema.
Oportunamente, destaco que a discussão do presente trabalho não só ampliou os conhecimentos da autora, como também despertou curiosidade daqueles que acompanharam o desenvolvimento deste.
Conclui-se, portanto, que o Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, nas regras vigentes até a reforma, possibilita o recolhimento das contribuições em atraso para fins de concessão de benefício previdenciário, entretanto, é necessário verificar a espécie de segurado e as possibilidades existentes, pois não são todos que possuem esse direito.
REFERÊNCIAS
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