11 ANALISANDO AS PEÇAS
11.1 Postais
11.1.2 Postais Tipo 2: Formas simplificadas a partir de contraste de luz em
sombra de fotografias
No acervo de postais, também encontramos três exemplares de uma técnica de fotocomposição a partir do contraste de luzes e sombras, todas de 1982, sendo duas delas variações do mesmo desenho, distintas pela adição de cor. A simplificação objetivou deixar as imagens monocromáticas, de forma que pudessem ser replicadas por meio de serigrafia, possibilitando também o preenchimento dos espaços vazios com cor. Para conseguir o efeito, eram feitas várias cópias em fotocópias para tirar os meios-tons até ficar em alto contraste, tal como explicado pelo informante.
80 De autoria de Lauro Nascimento e produzidos em 1982, os postais da figura 10 fazem referência à famosa esquina do centro da capital paulista, cantada por Caetano Veloso na música “Sampa”. A fotografia de um homem encostado na placa que sinaliza o encontro das avenidas Ipiranga e São João, foi aplicada a simplificação de luzes e sombras, tendo sido as asas e a coroa acrescentadas manualmente sobre a composição.
Plasticamente a peça tem o poste como elemento que divide o espaço em dois hemisférios longitudinais. As placas em perspectiva preenchem o hemisfério superior da peça dando equilíbrio entre os hemisférios latitudinais, ainda apresentando traços de algum elemento colocados acima delas. No hemisfério inferior, apesar das asas estarem distribuídas igualmente entre os lados, a figura do homem posicionada pouco mais ao lado direito, também composta pela coroa, traz mais peso para este lado. Pelo posicionamento da asa esquerda temos a impressão que elas se encontram em um plano atrás do poste, e o homem com a coroa, em um plano à frente. Na peça a qual foi implementado preenchimento aos espaços vazios dos elementos não originais à foto (coroa e asa), a coroa tem destaque por apresentar maior contraste entre o amarelo do preenchimento e o preto da forma, diferente do azul mais escuro, que tem um baixo contraste com a cor predominante. Além disso, no canto inferior esquerdo do postal, encontra-se, de forma manuscrita, dados de autoria e copyright da peça.
Na mensagem linguística, além dos nomes das avenidas nas placas, chamamos atenção para o fato de apenas a peça colorida possuir dados de copyright no canto esquerdo. Nele é atribuída a autoria a Lauro Nascimento, e os direitos autorais à editora Marca de Fantasia12. Quanto à referência às avenidas, como já dito, apresenta-se clara relação com a música de Caetano Veloso, que além do sentimento boêmio traduzido na letra, invoca o movimento de resistência do qual o cantor fez parte no início da ditadura militar, transformando o local em um marco tangível e ideológico do movimento contra a ditadura à época.
Iconicamente, podemos dividir a mensagem em duas partes, que juntas criam o sintagma. O primeiro ícone é a placa, instrumento para informar e direcionar, que
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A editora Marca de Fantasia só foi criada oficialmente pelo Professor Henrique Magalhães em 1995 e está em funcionamento até hoje. Todas as indicações de direitos autorais encontradas nas peças da época são de caráter meramente ilustrativo.
81 indica o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, imortalizadas na canção; em segundo lugar, a figura humana encostada no poste da placa, de braços cruzados, aparentemente reflexivo, tendo em sua cabeça uma coroa e em suas costas asas angelicais. Como mencionado na análise plástica, o plano em que as asas está posto não deixa claro se ela está no homem, ou se apenas usa do ícone para sugerir que o homem é um anjo. A coroa, porém, está claramente ligada à cabeça do homem e evoca realeza, poder e riqueza. Seguimos pelo caminho da sugestão, visto que estes elementos foram adicionados à composição posteriormente.
A figura angelical posta diante de um marco da boemia e da resistência cria este sintagma, que através da oposição dos sentidos mostra a realidade da luta do movimento LGBT à época. O poder do povo representado pela coroa, na luta pelo amor, indicado pelas asas angelicais, em um marco simbólico da luta e das artes como arma, compõem a complexidade icônica da peça.
82 A figura 11, também de 1982, é de autoria de Henrique Magalhães. Intitulada de “Asas”, trata-se de uma fotocomposição monocromática reproduzida em serigrafia.
A peça apresenta em sua plasticidade formas orgânicas que compõem a representação de contraste entre luz e sombra da parte inferior do corpo de um homem nu, com as pernas abertas, flexionadas de modo agachado, sustentada na ponta dos pés, com o pênis ao centro em primeiro plano. Em um plano posterior linhas horizontais e verticais fazem um padrão quadriculado que ocupa todo o hemisfério inferior da peça. E mesmo com a projeção da sombra da figura humana, a relação com o plano de fundo não apresenta relação de gravidade (associação de noção de peso entre a figura e a margem inferior) entre os planos. A peça é monocromática em tom escuro de vermelho.
A única mensagem linguística na peça é a indicação de data e autoria, acima da coxa esquerda do homem.
Iconicamente a peça traz na imagem do homem nu a semelhança aos seres alados. A nudez como tabu encontra sua liberdade tal qual estes seres tem para voar. As pernas postas em formas semelhantes a asas e o pênis como corpo desse ser hipotético carregam o protesto sobre os pudores da sociedade intolerante, bem como a liberdade dos corpos como pertinentes unicamente ao indivíduo. Esses princípios se coadunam perfeitamente com os valores expressos nos manifestos e outros exemplares do discurso verbal do grupo, reportado pelo informante da pesquisa.
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