CAPÍTULO 2. UM ÓRGÃO PARA “PROTEGER E EDUCAR”: O
2.1. SPI: criação e trajetória no Brasil
2.1.2. Postos Indígenas: especificidades e funcionalidades
Os Postos Indígenas constituíram as unidades básicas para a implementação das políticas indigenistas brasileiras.313 Eles podem ser entendidos, do mesmo modo, enquanto receptáculos empíricos das experiências no campo das práticas de proteção e controle das
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Um novo regimento foi elaborado para o SPI em 1942, através do Decreto nº 10.652 de 16 de outubro de 1942. Contudo, este novo regulamento não auferiu grandes alterações nas prerrogativas principais de assistência e nacionalização dos indígenas presentes no regulamento de 1936. Há maior destaque para a criação da Seção de Estudos (SE); da Seção de Orientação e Assistência (SOA) e da Seção de Administração (SA), organizadas em função das novas prerrogativas do SPI, que retornara desde 1939 ao Ministério da Agricultura.
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À época da promulgação do Decreto nº 736, o SPI fazia parte do Ministério da Guerra. Cabe lembrar que o SPI ficou subordinado a vários Ministérios ao longo de sua trajetória. Organizado em 1910, iniciou suas atividades vinculado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (Decreto nº 8.072 de 20/06/1910), em 1930, passa a fazer parte do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (Decreto nº 19.433 de 26/11/1930) e, em 1934, é vinculado ao Ministério da Guerra (Decreto nº 24.700 de 12/07/1934). Após uma reorganização dos Ministérios em 1939 o SPI volta a estar enquadrado no Ministério da Agricultura (Decreto nº 1.736 de 03/11/1939), onde permaneceu até sua extinção em 1967.
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BRASIL, 1947, Op. cit., p. 152.
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populações indígenas, onde se desempenharam normativas de caráter assistencial, orientações educacionais, de saúde e promoção da economia indígena.314 Esta última, que deveria pautar-se pela vocação econômica da região em que estavam estabelecidos os Postos, em muitos casos, possibilitou a exploração sob vários aspectos dos bens do patrimônio indígena, os quais, em tese, deveriam ser revertidos para a manutenção das comunidades indígenas envolvidas nas iniciativas.
Com uma maior amplitude suscitada pelo Decreto nº 736 e, tendo em vista sua vinculação à Inspetoria Especial de Fronteiras315, houve um esforço por parte dos dirigentes do SPI no sentido de instalar Postos Indígenas em zonas de fronteira, conforme estabelecido no Artigo 5º do referido decreto, que determina, entre outras disposições, que:
Nas zonas habitadas por índios serão instalados Postos que além do amparo e mais funções consignadas neste e no seguinte capítulo, procurarão especialmente, por meios brandos, atrair os índios que viverem em estado nômade, pacificar os que se mantiverem hostis, reeducar os habituados ao nomadismo pelas cidades e povoados, e nacionalizar os índios em geral, especialmente os das regiões de fronteira.316
Havia ainda por esta época, diversos povos indígenas resistentes a um contato sistemático com as frentes de expansão. Por esse motivo, as
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Ibid.
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Entre as funções da Inspetoria Especial de Fronteiras, presentes no Artigo 3º do Decreto nº 613 de 30 de janeiro de 1936, que regulamenta as atividades desta Inspetoria, estavam as seguintes,: c) promover a colonização militar da zona fronteiriça, obedecendo a planos econômicos que conciliem os interesses nacionais e regionais, tendo em vista, especialmente, a defesa da integridade territorial do País, a segurança das fronteiras, o progresso das regiões fronteiriças e a evolução social e econômica da suas populações, no sentido de sua integração na Nacionalidade Brasileira; d) prestar proteção e assistência aos índios, amparando-lhes a vida, a liberdade e a propriedade, resguardando-se da opressão e da espoliação, erguendo-lhes o nível social e econômico, com o fim de incorporá-los à sociedade. In: BRASIL. Decreto nº 613 de 30 de janeiro de
1936. Artigo 3º. s/p. Disponível em:
http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=10678&norm a=24655. Acesso em 07/06/2013.
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estratégias do SPI eram elaboradas de acordo com o grau de contato e envolvimento dos indígenas com a sociedade regional. Necessitou-se, portanto, da organização de Postos Indígenas com diferentes funcionalidades. Assim sendo, foram organizados inicialmente Postos de Atração, Vigilância e Pacificação e Postos de Assistência, Nacionalização e Educação.317
Os Postos de Atração, Vigilância e Pacificação foram sendo instalados pelas áreas mais remotas do território brasileiro, onde o contato dos colonizadores com as populações indígenas apresentava índices elevados de confrontos e perseguições. Sua proposta era atrair os povos arredios, estabelecendo relações amistosas e prestando amparo aos mesmos contra as violências impostas pelos “civilizados”. Além disso, através de ações convergentes à sua pacificação e assimilação, os funcionários do SPI não poderiam estabelecer aos indígenas nenhum tipo de trabalho, prática religiosa ou prática educativa que os mesmos não aceitassem.318 Estas atividades deveriam ser estabelecidas aos poucos, medindo o grau de corroboração dos nativos e estudando as suas preferências.
Na etapa subsequente, isto é, entre as populações com as quais já houvesse relações pacíficas e frequentes com a sociedade envolvente e com os funcionários da agência indigenista, seriam montados os Postos Indígenas de Assistência, Nacionalização e Educação. Através destes, organizar-se-iam as atividades ligadas à agricultura, pecuária, extrativismo e outras atividades educativas e industriais que possibilitassem a sustentabilidade dos indígenas dentro dos estabelecimentos. Nestes locais, todas as atividades deveriam ser também aplicadas de acordo com as preferências dos indígenas, ensinando-os a trabalhar sem constrangimentos, sendo levados a isto por conselhos, prêmios e outros meios suasórios.319 No que se refere à tarefa de Nacionalização e Educação, seriam elaboradas atividades destinadas a incentivar o civismo brasileiro entre os indígenas, enfocando o culto à
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Na década de 1940, já com a orientação dos estudiosos do CNPI (criado através do Decreto nº 1794, de 22 de novembro de 1939) as funcionalidades dos Postos Indígenas foram ainda mais compartimentalizadas, sendo somados aos Postos Indígenas de Atração (PIA) e Postos Indígenas de Assistência Nacionalização e Educação (PIN), os Postos Indígenas de Fronteira e Vigilância (PIF), Postos Indígenas de Criação (PIC) e Postos Indígenas de Alfabetização e Tratamento (PIT).
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ROCHA, 2003, Op. cit., p. 159.
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bandeira, o ensino de história da pátria e seus heróis nacionais (entre os quais Rondon e Getúlio Vargas) e explicação das principais datas nacionais.320
Analisando os objetivos implícitos destes pressupostos assistenciais, é possível depreender que o SPI, ao atuar nas duas frentes, o faz enquanto detentor de poderes normatizantes e simbólicos para o “trato” com os índios, geralmente legitimados pelo governo federal. Penso dessa forma, porque os representantes do SPI utilizaram-se deste poder simbólico para impor instrumentos de conhecimento e expressões que são caras ao representativismo patriótico, mas totalmente alheios à realidade sociocultural indígena. Ao se analisar as ações educativas promovidas através dos Postos Indígenas pelo prisma dos sistemas simbólicos, é possível inferir que estas estratégias são planejadas para legitimar sua dominação por meio de uma produção simbólica própria, deixando claros os princípios de hierarquia e hierarquização, os quais podem ser definidos por “sistemas ideológicos que os especialistas produzem para a luta pelo monopólio da produção ideológica legítima.”
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Esta relação, inserida no contexto dos Postos Indígenas, pode ser entendida ainda enquanto uma estratégia normatizadora, cujos pressupostos fundamentais girariam em torno de uma homogeneização das diversidades étnicas existentes através de normativas operacionais e comportamentais, pensadas enquanto facilitadoras de um controle das especificidades sociais e culturais dos indígenas. Compreendidas como exercício de um poder tutelar por Antonio Carlos de Souza Lima, as estratégias do SPI para educar e nacionalizar as populações indígenas também implicariam no emprego de processos fundamentalmente de exibição e teatralização, cuja finalidade principal seria “obter o monopólio dos atos de definir e controlar o que seja da população sobre a qual incidirá.”322
Criar Postos com a funcionalidade de promover ensinamentos úteis, capazes de despertar no indígena sentimentos nobres de pertencimento à nação brasileira, fixando-o em áreas específicas para que fosse atraído pela cultura sistemática da terra e das demais indústrias rurais, das quais obteriam rendimentos para a emancipação econômica dos mesmos, fez parte da tônica dos discursos oficiais das
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Ibid. p. 160.
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BOURDIEU, 2012, Op. cit., p. 12.
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autoridades e demais funcionários do SPI em todo o território nacional. Na região Sul do Brasil, onde se proliferou a ação mais efetiva do SPI a partir de 1941, estes discursos eram ainda mais enfáticos, tendo em vista a característica rural dos três estados, considerados à época o “celeiro do Brasil”.
Nesta região, as áreas reservadas aos indígenas pelos estados eram alvos de intrusões por colonos, posseiros e empresários madeireiros, abusos de todas as espécies pela sociedade envolvente, marginalização dos índios causada pelo abuso do álcool, entre outras formas de exclusão. Os governos mostravam-se despreparados (ou desinteressados) em definir ações para controlar os problemas recorrentes nas áreas destinadas aos índios. Dessa maneira, o SPI, que antes de 1941 atuava em poucas áreas no Sul, expande sua ação para todas as áreas indígenas desta região através da criação de Postos Indígenas de Assistência, Nacionalização e Educação. Destaco, na sequência, as principais características acerca da instalação destes estabelecimentos e a forma como se iniciou a ação tutelar federal nas áreas indígenas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com destaque para os Postos Indígenas Nonoai e Xapecó.
2.2. O SPI no Rio Grande do Sul: as bases da assistência