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POTEIRO E SUA OBRA

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1 POTEIRO E A ARTE NAÏF

1.4 POTEIRO E SUA OBRA

A produção artística de Antônio Poteiro nasceu de seu trabalho com o barro. Descendente de família de artesãos, desde que se instalou em Goiânia montou seu ateliê de fábrica de potes, que em seguida serviria de estrutura para as obras propriamente artísticas, cujos temas em geral são figuras, esculturas de deuses, figuras bíblicas, etc. Foi na sua profissão de poteiro que o artista começou a internalizar os princípios básicos da construção dos objetos artísticos que passa a produzir em seguida. Nesse processo, conquistou, pela prática diária, o domínio sobre os materiais bem como sobre os mecanismos de suas transformações.

Uma vez dominadas essas técnicas, Antônio Poteiro passou a construir um trabalho estético onde as significações e visões de mundo expressam-se de um modo particular, através da fabricação de objetos não mais com valores de uso, mas com dinâmica simbólica. A partir de então, é todo seu mundo humano, seu mundo de arte e de vivência dinâmica que passa a ser representado em seu trabalho.

O início do trabalho de Poteiro com a pintura foi determinado por seu contato com os artistas Cleber Gouvêa e, sobretudo, Siron Franco.

Caracterizadas com temas que recobrem um rico imaginário popular, com figuras dispostas simetricamente, as pinturas de Antônio Poteiro são ausentes de qualquer perspectiva. Fazendo uso contínuo da ornamentação, o artista trabalha detalhadamente os desenhos e temas apresentados, decorando as roupas dos cavaleiros, ornamentando santos, reproduzindo demônios, estilizando vestimentas, etc. Poteiro faz sempre o uso de cores primárias, fortes, e através do brilho da cor intervém na maneira clássica de tratamento desta, que se dá quase sempre pelo contraste do claro e do escuro. Com isso, suas obras estão repletas de nuance e carregadas de espantosa emotividade.

No que concerne à temática do artista, tanto nas cerâmicas como nas pinturas, essa é bastante rica e muito conectada a temas populares, tais como festas religiosas, como exemplo as Cavalhadas de Pirenópolis e a Festa do Divino, expressões lúdicas de fatos bíblicos, como o dilúvio, o mito de Adão e Eva, os três reis magos, anjos; deuses diversos, Deus tartaruga, Deus balança, Deus único, demônios, animais de todas as espécies, lagartixas, cavalos, cães, onças, pássaros, tartarugas, homens e mulheres representados de diversos modos; evocações de construções arquitetônicas que lembram palácios orientais; temas circenses; representações de lutas, mandalas, cirandas de toda ordem, representações de futebol, representações de questionamentos teológicos e filosóficos, tais como a humanidade, a inocência criativa da criança, a contraposição reiterada do bem e do mal entre outros.

Observa-se que Antônio Poteiro reiteradamente volta às temáticas pertencentes ao imaginário popular, conectado-as sempre à historiografia cristã. Alguns motivos folclóricos são de origem cristã, outros pagãos, mas postos geralmente de forma a confrontar o bem e o mal, o que é representado na oposição entre planos estruturais nas obras pictóricas. Cabe notar ainda que a temática do bem o do mal aparece na convergência de sua própria percepção de mundo, traduzindo visões místicas, representações da ordem e das estruturas sociais, etc.

De maneira geral, Antônio Poteiro parece ter em vista evocar nos espectadores de suas obras, sejam feitas do barro sejam nas pinturas em tela, a admiração e o envolvimento por um mundo longínquo, ricamente simbolizado no que tange ao discurso em debate, deixando sempre muito clara uma visão de mundo religiosa e prenha de significações éticas.

De outro lado, ele também diversas vezes recupera temas representativos dos fenômenos corriqueiros da vida, mas sempre expressados com enorme riqueza de formas e luz. Algo que reiteradamente aparece nesse processo é a idéia de jogo, de luta, expressando de certo modo o rompimento e os limites do indivíduo humano. Daí temas como o das Cavalhadas e de jogos diversos aparecerem com frequência em seus trabalhos.

Além, portanto, de uma representação bem particular do drama da existência, em grande parte vivenciada nos vários períodos de sua vida difícil de imigrante, vê-se no trabalho do artista a presença de um idéia de conquista constante da liberdade, desvelando uma identidade própria e rica em seus elementos.

Sem preocupar-se com os cânones da arte clássica e discorrendo suas questões para além das valorações costumeiras do fazer artístico moderno, o trabalho de Antônio Poteiro apresenta uma unidade poética sem igual nas artes plástica feitas em Goiás.

Aline Figueiredo afirma categoricamente que mesmo estando o panorama das artes plásticas em Goiás de certo modo mais amadurecido e realmente aberto a todo o tipo de

experimentação, há um artista em especial que merece ser visto com toda a atenção e interesse: Poteiro.

De 1975 para cá vem aparecendo muitos artistas e tem havido muita produção e andanças pelas galerias. Porém, o mais duradouro e vigoroso artista que apareceu de lá para cá foi sem dúvida alguma o ceramista e pintor primitivo Antônio Poteiro, cujo trabalho, de vivo realismo caricatural, tem merecido estudo da critica brasileira (FIGUEIREDO, 1979, p. 99).

Se hoje é unânime entre os críticos e artistas do país que Antônio Poteiro é um dos mais representativos artistas primitivistas do Brasil, parece ser necessário e fundamental compreender-se como Poteiro se encaixa no desenvolvimento das artes plásticas goianas, buscando confirmar seu posto de grande artista plástico do Centro-Oeste.

É curioso notar que nos livros e textos sobre a história das artes plásticas em Goiás são praticamente inexistentes as referências à pessoa e à obra de Antônio Poteiro. É provável que essa omissão deva-se ao fato de que essa historiografia ainda não foi devidamente explorada pelos pesquisadores, de maneira rigorosa e completa. Outra possibilidade é de que os poucos textos existentes estejam apenas apontados para os conceitos clássicos sobre a arte, sob o prisma acadêmico, o que excluiria a forma, o estilo e as características do trabalho de Antônio Poteiro.

Dentre os textos utilizados para a reconstrução da história das artes plásticas em Goiás a afirmação de Aline Figueiredo é a única referência mais expressiva encontrada sobre Antônio Poteiro e sobre sua obra, o que, apesar do reconhecimento, não deixa de ser incipiente, indicando que apesar de parecer ser bem divulgado regional, nacional e internacionalmente, o artista parece não ter encontrado, ainda, seu lugar nas raras historiografias das artes de Goiás.

No caso, por exemplo, da obra de Amaury Menezes, na introdução ao texto de retomada da história das artes plásticas em Goiás, o nome de Antônio Poteiro, rigorosamente, aparece uma única vez, e apenas para confirmar rapidamente seu argumento de que alguns artistas vêm colocando Goiás no mesmo nível dos centros mais desenvolvidos do Brasil. No dicionário que segue à introdução, encontra-se o verbete “Antônio Poteiro” (MENEZES, 2002, p. 76-78).

A ausência de Antônio Poteiro e de sua Obra parece indicar que estes encontram-se deslocados do tempo da história das artes de Goiás. Como se Antônio Poteiro, literalmente, vivesse fora de seu tempo na historiografia local. O que não deixa de ser algo até curioso, visto que hoje, ao lado talvez apenas de Siron Franco e Ana Maria Pacheco, a obra de Antônio Poteiro é aquela aqui produzida com maior reconhecimento nacional e internacional.

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