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Fonte: SEPLAN, 2008 Org. Konrad, C. G. e Sieben, 11/2011

As UHE’s de Estreito e de Lajeado, as principais, já estão em funcionamento, localizadas respectivamente nos municípios de Aguiarnópolis na divisa com o estado Maranhão na porção

norte do estado e a segunda próxima a capital, Palmas na parte central do estado (Mapa 4). A UHE Lajeado foi concluída no início do novo milênio e a UHE Estreito foi terminada no final do ano de 2010.

No rio Tocantins, no estado homônimo, ainda estão previstas de montante a jusante as: UHE de São Salvador (em construção), UHE de Peixe (em fase de implantação) e UHE de Ipueiras (em fase de viabilização) ambas localizadas na porção sul, a UHE de Tupiratins (viabilidade) na parte central, e a UHE Serra Quebrada (em fase de projeto) na porção norte do estado fazendo divisa com o estado do Maranhão. Nas condições atuais as duas primeiras estão em operação. A sequência de montante a jusante seria: São Salvador, Peixe, Ipueiras, Lajeado, Tupiratins, Estreito e Serra Quebrada (Mapa 4).

O mapa 4 mostra que várias outras hidroelétricas menores estão planejadas ou já existem, principalmente em canais afluentes do rio Tocantins, localizados a sudoeste do estado. No rio Araguaia, o destaque é para a UHE de Santa Isabel localizada na divisa com o estado do Pará na porção norte. Ressalta ainda que o complexo de lagos no rio Tocantins servirá de várias maneiras, sobretudo como hidrovia e ainda como regulador de vazão a fim de utilizar a capacidade máxima na expansão da construção da 2° fase da UHE de Tucuruí.

Até o ano de 2008, estavam em operação catorze UHE’s no estado, contabilizando uma potência de 1.403Mw, atingindo uma área de aproximadamente 940Km². As usinas projetadas eram treze e gerariam 6.422Mw, atingindo área em torno de 4 mil Km². As usinas em construção contabilizaram oito e gerariam em torno de 1.212Mw, atingindo área estimada de 690Km² (Mapa 4). Acrescenta que a UHE Estreito encontrava-se nesta situação no ano de 2008, e recentemente mais usinas estão previstas para o rio Araguaia.

Com o governo popular e o crescimento econômico que demanda maior necessidade energética e o interesse de complexo de empreiteiras a solução proposta e aceita foi continuar a construção de barragens nos rios já barrados e, principalmente, nos canais fluviais da região Norte. Nesta região a indenização por terras e feitorias é mais barata, a população em menor quantidade e menos informada traria menos problemas de custos e de opinião pública.

Assim foram construídas as hidrelétricas do rio Tocantins, inclusive a Usina Hidrelétrica de Estreito, causando uma série de impactos e efeitos sociais e ambientais, porém sustentando a ideia de conciliação de interesses econômicos, ecológicos e sociais, pautados no desenvolvimento sustentável.

Percebendo a deterioração dos seus modos de vida foi necessário às categorias de camponeses e de povos tradicionais reivindicar o que lhes é devido. A fim de ganhar legitimidade política, muitas categorias minoritárias se organizaram em associações e movimentos para lutarem por seus direitos e ganharem visibilidade dentro do contexto nacional e internacional.

A própria categoria “populações tradicionais” tem conhecido deslocamentos no seu significado desde 1988, sendo afastada mais e mais do quadro natural e do domínio dos “sujeitos biologizados” e acionada para designar agentes sociais, que assim se autodefinem, isto é, que manifestam consciência de sua própria condição. Ela designa, deste modo, sujeitos sociais com existência coletiva, incorporando pelo critério político organizativo uma diversidade de situações correspondentes aos denominados seringueiros, quebradeiras de coco babaçu, quilombolas, ribeirinhos, castanheiros e pescadores que têm se estruturado igualmente em movimentos sociais. A despeito destas mobilizações e de suas repercussões na vida social, não tem diminuído, contudo, os entraves políticos e os impasses burocrático-administrativos que procrastinam a efetivação do reconhecimento jurídico-formal das “terras tradicionalmente ocupadas.” (ALMEIDA, 2004, p. 11).

Existem os dispositivos das constituições estaduais e municipais que asseguram, por exemplo, o direito ao Babaçu Livre nos estado do Maranhão e do Tocantins. Estes direitos são assegurados pela organização política de algumas classes que lutam a fim de manterem seus territórios, sobretudo na região da luta pelo Babaçu Livre do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).

A região norte do estado do Tocantins, Bico do Papagaio, é conhecidamente área de grande atuação política dos movimentos sociais como o Movimento Sem Terra (MST), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e com a intensificação da implantação das hidrelétricas nos últimos anos, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Ademais é uma área de conflitos por terra, sendo assassinados muitos representantes destes movimentos como é o caso do Padre Josimo.

Alguns movimentos sociais organizados como o MST e o MAB surgiram com a união de pessoas que perceberam a deterioração da qualidade ambiental e social de atingidos por barragens. Alguns dos principais movimentos sociais atualmente no Brasil surgiram de manifestações inerentes às hidrelétricas. Em Germani (2003) muitos movimentos ganharam força diante da experiência da UHE de Itaipu, servindo de exemplo na construção de outras barragens para que os casos da UHE de Sobradinho não se repetissem conforme Sigaud (1992). Os movimentos sociais têm grande influência sobre as populações atingidas, se tornando na maioria das vezes única fonte confiável nas negociações.

Alguns dos encontros face a face entre os atores no interior das arenas são as Audiências Públicas, promovidas pelo Ministério Público Federal e aquelas promovidas pelo Ministério Público Estadual como, por exemplo, para oficializar os Termos de Ajuste de Conduta (TAC), onde se encontram os técnicos representantes do empreendedor, os representantes dos reassentados e o Movimento dos Atingidos por Barragens. (ZITZKE, 2007, p. 55).

Segundo Zitzke (2007), os atingidos por UHE Lajeado se deram conta da magnitude do empreendimento quando chegou na cidade de Porto Nacional, representante do MAB a fim de

organizar medidas de resistência, esclarecimento a fim de obterem indenizações mais justas. O representante do MAB possibilitou uma reafirmação de territorialidade aos atingidos marginalizados pelo capital.

No caso da UHE Estreito e no lugar de estudo, o MAB foi desacreditado por algumas pessoas segundo informações dos atingidos e assim não conseguiu penetração no povoado de Palmatuba e dar orientação no processo de indenização. O movimento era desconhecido por grande parte de camponeses, povos tradicionais e população urbana atingidas, gerando desconfianças promovidas por algumas pessoas, sobretudo, ligadas à política que até então eram tidas de confiança pela comunidade.

O MAB, primeiramente, foi visto com desconfiança pelos atingidos da UHE de Lajeado. Isto deve-se pelo desconhecimento local sobre este movimento. As primeiras atuações foram no sentido de elaborar reuniões e estratégias como levar alguns líderes locais para reassentamentos no sul do país, atingidos por barragens a fim de propiciar ideias e exemplos aplicados no caso tocantinense (ZITZKE, 2007). “O MAB iniciou, então, o debate sobre a construção de uma organização regional sem se preocupar com as associações existentes na região, que tinham como principais objetivos as questões ligadas a políticos locais” (ZITZKE, 2007, p. 176).

Em 2010 foram registrados diversos atos em favor da Reforma Agrária e outros protestos contra a violência, ou pedindo a desapropriação, ou regularização de terras, renegociação de dívidas, incentivo à pequena produção, em defesa da soberania alimentar, contra a privatização da água e a construção de barragens e em defesa do meio ambiente. Estes atos culminaram em ocupações de prédios públicos, acampamentos, caminhadas, passeatas e bloqueios de ferrovia, balsa e rodovias. Também foram registrados diversos atos pelo país contra a impunidade, a injustiça e a violência no campo. (CLEPS JUNIOR, 2011, p. 139).

A UHE de Lajeado promoveu conflitos socioambientais onde os atingidos fizeram manifestações de ocupação e acampamento no escritório do empreendedor. Tais manifestações foram decorrentes do tratamento indiferente dado aos atingidos pelos técnicos do empreendimento e do governo, bem como serem reconhecidos em suas reivindicações. O MAB representou uma ameaça ao Consórcio INVESTCO, diante de sua influência nos atingidos e poder de mobilização e organização para as reivindicações (ZITZKE, 2007).

Cleps Júnior (2011) manifestou que os conflitos pela água aumentaram no contexto da Amazônia. A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte ganhou destaque na discussão das águas e da construção de barragens, atingindo ribeirinhos. O estado do Tocantins também teve manifestações inerentes ao conflito da água na construção de hidrelétricas.

No caso de Estreito o MAB, o MST com o apoio da CPT tiveram ação efetiva por ocasião das manifestações em frente ao pátio de entrada da hidrelétrica. Vários outros momentos

foram importantes a fim de organizar os movimentos de reivindicação dos direitos podados dos atingidos e sensibilizar a comunidade como um todo.

Na fotografia 3 observa-se a manifestação dos atingidos em Estreito, próximo à entrada da construção da UHE. A marcha dos manifestantes foi interrompida pela ação da polícia militar do estado do Maranhão, em agosto de 2010. Na manifestação houve o trabalho da polícia Federal a fim de organizar o tráfego interrompido na BR 010 próximo à cidade de Estreito e o batalhão de choque a fim de evitar a entrada dos manifestantes no pátio de obras de construção da represa, localizada próximo da cidade.

Fotografia 3 – Manifestação na BR-010 em Estreito (MA): entrada da construção da UHEE

Autor: Sieben, 23/08/2010

Observa-se a presença dos manifestantes na fotografia 3. A polícia militar formada pelo batalhão de choque e cavalarianos à sua frente, impedindo a passagem dos manifestantes. O que se observou foi um embate entre duas classes desfavorecidas. De um lado pescadores, camponeses, povos tradicionais, quebradeiras de coco, índios e, do outro lado, soldados. Muito provavelmente e considerando Germani (2003) os soldados sejam filhos ou parentes próximos dos manifestantes, da mesma forma como ocorreu nos conflitos de Itaipu.

No dia da manifestação (Fotografia 3) e no horário de meio dia o sol no local era escaldante e as duas categorias (policiais e manifestantes) permaneceram muito tempo a espera neste ambiente até que se sinalizasse uma atitude por parte do CESTE em termos de conversação com os atingidos. É perceptível na paisagem a quase ausência de vegetação que pudesse servir de abrigo para ambas as categorias. No mês de agosto o clima regional é bastante quente e seco e há quase total ausência de nuvens por ocasião da dinâmica climática.

Os manifestantes, por sua vez, já estavam bastante cansados, mas não desanimados. Eles tinham feito caminhada de dez dias pela BR 226 (trecho Belém-Brasília) de 150 quilômetros entre as cidades de Araguaína (TO) e Estreito (MA) e agora estavam a poucos metros da entrada da construção da barragem. A marcha iniciou no dia 13/08/2010 em Araguaína, na mediada em que avançavam, mais atingidos e pessoas se juntaram na mobilização. A caminhada iniciou com aproximadamente 200 pessoas, culminando em torno de 1 mil no dia da manifestação em Estreito.

Os camponeses e soldados irremediavelmente são vítimas do enredo feito por capital e Estado. E assim, conforme Germani (2003) e, sobretudo, Shanin (2005) sempre é possível extrair algo mais dos camponeses ou das classes desfavorecidas como um todo, inclusive o embate entre elas, sendo considerado um trunfo do Estado conforme Raffestin (1993).

Eles servem ao desenvolvimento capitalista em um sentido menos direto, um tipo de “acumulação primitiva” permanente, oferecendo mão-de-obra barata, alimentação barata e mercados para bens que geram lucros. Eles produzem, ainda, saudáveis e tolos soldados, policiais, criadas, cozinheiras e prostitutas; o sistema pode sempre fazer algo mais de cada um deles. E, obviamente, eles, isto é, os camponeses, dão trabalho e problemas para os estudiosos e funcionários, que quebram a cabeça em torno “da questão do seu não-desaparecimento”. (SHANIN, 2005, p. 9).

Aos policiais havia a possibilidade de se refugiarem no prédio do Batalhão da Policia Militar do Maranhão (BPMM), localizado próximo. O prédio fora construído em frente ao pátio de entrada do CESTE. O BPMM não se localizou nesta área por acaso. Provavelmente, por questões logísticas, prevendo possíveis manifestações, resguardando e protegendo a área de construção da UHE de Estreito o prédio foi construído alí.

Muito provavelmente as questões técnicas relacionadas à engenharia tenham servido de justificativa para a construção da infraestrutura neste local. Contudo, o prédio junto com o seu aparato tenha sido construído neste local a fim de servir a outros interesses do que meramente atender às necessidades de proteção da população do município de Estreito. Desta forma, o que deveria ser público na verdade é apropriado pelo privado, no caso pelo CESTE.

O prédio do 12° Batalhão da Polícia Militar (BPM) fora recém-construído e doado como medida de compensação ambiental por parte do CESTE. Poder-se-ia afirmar que fora “inaugurado” naquela data. No dia da manifestação, no fundo no pátio do prédio visualizou-se a presença de um helicóptero, provavelmente de uso da polícia, caso a manifestação tivesse ocasionado algum embate mais significativo ou exaltação por parte dos manifestantes.

Em outros casos, como nos trabalhos de Germani (2003) e Zitzke (2007) foram propostos por parte dos manifestantes a possibilidade de ocupar o pátio de obras, paralisando a construção das barragens de Itaipu e Lajeado, respectivamente, a fim de chamar a atenção sobre os problemas, os impactos e os efeitos sociais e ambientais ocasionados e enfrentado pelos atingidos.

A polícia é um aparelho do Estado, financiada pelo capital da empresa a fim de conter a manifestação do povo. Tudo está regimentado pela Lei (manifestação, doação do destacamento policial como medida compensatória, ordem policial e possível esvaziamento da manifestação com o uso de bombas de efeito moral por parte da polícia para manter a “ordem”). Pois bem, o teatro está pronto e os atores estão presentes, só falta a plateia.

A plateia seriam os milhões de brasileiros que receberiam pelos meios de comunicação uma reportagem, caso tivesse ocorrido um embate entre manifestantes e polícia. A mídia compareceu timidamente, apenas dando destaque local e alguns comentários em nível nacional, pois manifestações sem embates como se diria de forma mais simplista, não dão IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística).

Os grupos minoritários necessitam conforme Serpa (2011, p. 27): “... ocupar as brechas abertas pela produção cultural dos agentes e grupos hegemônicos que controlam os meios de comunicação de massa.” As classes minoritárias em termos socioeconômicos não têm locais próprios para veicular as suas aspirações e necessidades. A internet ainda continua sob vários aspectos algo distante da cultura destas pessoas. E um destes aspectos é justamente quem controla os instrumentos de comunicação que Serpa (2011) mostrou.

No dia 12 de junho do ano de 2010, no povoado de Palmatuba, foi realizada uma reportagem por uma emissora local de televisão da cidade de Araguaína. A referida matéria foi sobre a falta das indenizações de alguns bens e construções que as famílias de Palmatuba construíram ao longo do tempo no povoado. A matéria foi exibida às 13h30min do dia 14 de junho do mesmo ano. Assim sendo, a imprensa pode ser uma ferramenta de pedir apoio a estas populações, desde que os objetivos sejam realmente auxiliar, o que muitas vezes não ocorre e servindo-se destas situações com interesse políticos eleitoreiros de grupos rivais.

Os meios de comunicação são ferramentas poderosas, mas os interesses das matérias são em muitos casos antagônicos com o que realmente necessita o entrevistado ou neste caso de estudo dos atingido pela UHE Estreito. Questões socioeconômicas de natureza críticas e reflexivas ainda são podadas no contexto geral dos meios de comunicação.

Remonta de alguns anos que os movimentos sociais de trabalhadores sem terra, de camponeses, de movimentos de sem teto e das populações tradicionais terem seus direitos podados ou camuflados pela mídia. As camadas minoritárias economicamente estão cada vez mais exigindo o seu espaço frente às intervenções do Estado, a fim de terem legitimados os seus direitos assim como as camadas sociais mais abastadas que de muitos séculos tiveram o privilégio de ter o Estado governando em seu proveito, ou pelo menos não contra os seus interesses.

De acordo com Zitzke (2007) a atuação do MAB em prol dos reassentamentos legitimou a ação do empreendedor na UHE Lajeado, que tinha o mesmo objetivo. Para Palmatuba a

ausência do movimento pode ter sido decisivo pelo não reassentamento dos camponeses tradicionais de lá.

Nos estudos de Zitzke (2007) o reassentamento se mostrou uma prática inviável para estas populações de camponeses e povos tradicionais, pois sua relação orgânica com o rio é muito grande e uma vez em reassentamento esta relação se desfaz. Esta relação não se reproduz, pois geralmente as terras de reassentamento são inférteis e a ausência do rio muda radicalmente o modo de vida das populações que tem no canal fluvial sua forma de vivência.

Contudo, nos reassentamento os atingidos têm maior poder de mobilização. No caso de Palmatuba isto não ocorreu devido ao distanciamento das famílias que por não serem reassentadas espalharam-se dificultando a comunicação. As distâncias foram um condicionante importante que dificultou a articulação em reivindicações e manifestações.

Uma alternativa seria o reassentamento das famílias à margem do lago artificial como deveria ter ocorrido na UHE Sobradinho, conforme destacou Sigaud (1992) e Martins (1993). Contudo, as margens do lago viram especulação imobiliária e não é de interesse dos consórcios que podem utilizar estas áreas como fonte de renda. Os reservatórios adquirem outras funções capitalistas, além da produção de energia elétrica.

No Brasil há uma legislação ambiental avançada de nível superior a de países ricos, contudo os movimentos ambientalistas não obtiveram êxito no combate às desigualdades sociais e degradação ambiental (ZITZKE, 2007). Observa-se que os governos de “esquerda” no Brasil do início do novo milênio não sinalizam radicais mudanças neste contexto.

2.6 - O Estado, o empreendedor, a política e os atingidos: o caso da UHE Estreito

Germani (2003) classificou como débeis as manifestações de prefeitos a fim de pedir somente alguma compensação pelo prejuízo, ao invés de questionar a hidrelétrica de Itaipu. Todo estado do Paraná perdeu em terras férteis e riquezas naturais, sem a sua devida consulta. Acrescenta-se que no caso da UHE de Estreito tal situação se repetiu.

A drástica redução da autonomia dos estados e municípios nos últimos anos resultou de uma política centralizadora, onde o poder Federal é quem determina a execução de grandes projetos que interessam ao processo de acumulação de capital e cabe aos poderes estadual e municipal aceitar as determinações superiores, legitimá-las de alguma forma e “encaixá-las” em seus planos. (GERMANI, 2003, p. 42).

As medidas e decisões tomadas desta maneira, conforme ressaltado por Germani (2003), acabam irremediavelmente causando conflitos ou no mínimo levam a situações de contestação por

parte de uma camada da sociedade descontente. Assim, os que se encontram em situação desfavorável reivindicam os seus direitos.

Contudo, de uma certa forma, a luta é transferida para o interior do Estado e este passa, igualmente, a aparecer como um mecanismo de mediação das classes e não de dominação por uma delas. Mas este é, apenas, o lado ideológico do jogo porque, em última instância, as decisões privilegiam claramente a burguesia. No entanto, para que estas decisões do Estado possam ser efetivadas e, portanto, realizar seu objetivo maior de manutenção do sistema, é necessário que ele se proteja sob a capa da neutralidade, de mediador dos interesses conflitantes, com uma posição “acima” das classes. (GONÇALVES NETO, 1997, p. 119).

No caso em estudo surgiu uma pergunta no decorrer da pesquisa. Como o Estado manteve esta “neutralidade” no caso de Palmatuba? Observa-se que as próprias disputas políticas entre grupos e partidos servem de certa forma de alento a estas comunidades carentes atingidas. Se por um lado certos políticos exploraram a situação de forma econômica e política em proveito próprio, outros, no entanto, se aproveitaram do desconforto destas populações também.

Alguns dos atingidos comentaram que no decorrer das eleições de 2010 candidatos a governador do estado, deputados federais e estaduais e senadores prometeram apoio na luta das indenizações dos atingidos. Alguns comentaram que certo candidato a governador do estado do Tocantins andou na região a cavalo em tempos pretéritos no ainda estado de Goiás, pedindo votos e que muitas vezes votaram neste. Na atual circunstância alguns apoiaram outro candidato, pois que seu vice prometera apoio a fim de obterem as indenizações.

Com relação à política é interessante salientar a proximidade dos políticos da região e do estado do Tocantins como um todo com o seu eleitorado, até mesmo dos mais carentes. Presume-

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