2.3 As vantagens e desvantagens do Mathematica
3.1.1 Potencial sim´ etrico
Figura 3.1: Gr´afico de ψ(x) obtido a partir da re- solu¸c˜ao num´erica da equa¸c˜ao de Schr¨odinger uti- lizando o potencial 2x2, o valor da energia pr´opria do estado fundamental (obtido utilizando a ex- press˜ao te´orica (3.6)), e, as condi¸c˜oes de fronteira ψ(−5) = 0 e ψ0(−5) = 0.01. O estado n˜ao se en- O caso simples do po¸co infinito pode ser re-
solvido da forma descrita acima, no entanto, na situa¸c˜ao ligeiramente mais complexa do po¸co finito ou oscilador harm´onico quˆantico tal pro- cedimento deixa de ser pratic´avel somente de- vido ao facto que ψ diverge para um x suficien- temente grande. Isto ´e problem´atico pois esse valor de x, na maioria dos casos, encontra-se no interior do dom´ınio em estudo, como pode ser verificado na Figura 3.1. Quando se es- tuda esse sistema analiticamente, pode dizer-se que a constante associada ao termo respons´avel por essa divergˆencia ´e nula, resolvendo assim o problema. Numericamente n˜ao se tem essa op¸c˜ao. Para evitar esse problema, o dom´ınio em estudo (delimitado `a esquerda e `a direita por xmin e xmax); ´e dividido em duas par- tes, e a equa¸c˜ao ´e resolvida para cada uma
ψ(xmedio) `a esquerda e `a direita, e o outro ´e a diferen¸ca entre ψ0(xmedio) `a esquerda e `a direita, onde xmedio= |xmin− xmax|/2. A equa¸c˜ao esquerda ser´a resolvida utilizando as condi¸c˜oes de fron- teira ψ(xmin) = 0, e, ψ0(xmin) = a, onde a ´e um valor arbitr´ario. A equa¸c˜ao direita ser´a resolvida com as condi¸c˜oes de fronteira ψ(xmax) = 0 e ψ0(xmax) = ±a. A presen¸ca do sinal de mais ou menos deve-se ao facto de que o estado pr´oprio ψ(x) pode ser uma fun¸c˜ao par ou ´ımpar. Isto ´e apenas ver- dade se o potencial for sim´etrico em rela¸c˜ao ao eixo definido por x = xmedio, ou seja, se o potencial for uma fun¸c˜ao par dentro do dom´ınio especificado; caso contr´ario ψ0(x
min) 6= ±ψ0(xmax). ´
E poss´ıvel simplificar um pouco mais o esquema. Caso ψ(x) seja par, o valor de ψ(xmedio) ter´a o mesmo valor esquerda e `a direita, assim como, se ψ(x) for ´ımpar, ψ0(xmedio) ter´a o mesmo valor `a esquerda e `a direita, desta forma ´e apenas necess´ario utilizar um dos parˆametros de shooting. Se for assumido que o n´ıvel fundamental ´e sempre par e todos os n´ıveis subsequentes s˜ao alternadamente pares e ´ımpares, ´e sempre conhecida a paridade do pr´oximo estado pr´oprio, e, qual parˆametro de shooting deve ser testado.
Para alternar entre a procura estados pares e ´ımpares, estabelece-se a condi¸c˜ao de fronteira ψ0(xmin) = cψ0(xmax). Inicialmente, procura-se um estado par, ent˜ao c = −1 e,
∆ψl = |ψ0(xmedio)esq− ψ0(xmedio)dir|, (3.3)
´
e o parˆametro de shooting. Ap´os encontrar esse estado, o sinal de c dever´a ser trocado e o parˆametro de shooting ´e agora,
∆ψ = |ψ(xmedio)esq− ψ(xmedio)dir|, (3.4) e assim sucessivamente, onde ψ(xmedio)esq, ψ(xmedio)dir, ψ0(xmedio)esqe ψ0(xmedio)dirs˜ao os valores de ψ e ψ0 `a esquerda e `a direita de xmedio, respetivamente.
´
E necess´ario estabelecer qual ´e o limite a partir do qual se admite que se est´a perto de encontrar um estado. O limite ´e que ∆ψl seja menor ou igual que 0.3 do m´aximo de ψ0, ou, ∆ψ ser menor ou igual que 0.3 do m´aximo de ψ, respetivamente para estados pares e ´ımpares.
Da mesma forma, o limite que determina se o estado obtido ´e estado pr´oprio do sistema ´e como o descrito acima, mas as fun¸c˜oes dever˜ao ser menores ou iguais que 10−4 do m´aximo da fun¸c˜ao `a qual se comparam.
Al´em disso, ´e necess´ario ter em aten¸c˜ao que a maioria das vezes, a norma dos estados calculados n˜ao ser´a unit´aria. ´E necess´ario calcular a sua norma usando a express˜ao,
|ψ| = Z xmax
xmin
ψ(x)ψ∗(x)dx, (3.5)
onde ψ∗(x) ´e o complexo conjugado de ψ(x); e, dividir o estado pela sua norma ψnormalizado = ψ/|ψ|.
O algoritmo ´e ent˜ao:
1. Estabelecer c = −1 e ∆ψl como o parˆametro de shooting. Escolher uma energia inicial arbitr´aria com a qual se dar´a inicio `as computa¸c˜oes.
2. Resolver a equa¸c˜ao de Schr¨odinger utilizando condi¸c˜oes de fronteira designadas acima.
3. Se o estado encontrado for estado pr´oprio (o parˆametro de shooting for suficientemente pequeno), ent˜ao:
(a) Guardar o valor da energia numa lista designada para o efeito.
(b) Normalizar a fun¸c˜ao de onda e guard´a-la numa vari´avel designada para o efeito. (c) Trocar o sinal de c e estabelecer qual das fun¸c˜oes ∆ψl ou ∆ψ ser´a o novo parˆametro
de shooting.
(d) Se j´a tiverem sido obtidos tantos estados pr´oprios quanto se pretendia, parar as com- puta¸c˜oes.
(e) Se ainda n˜ao se tiver obtido tantos estados pr´oprios quanto se pretende, dar um passo de 30% da diferen¸ca entre as duas energias anteriores (ou 30% da energia anterior, caso ainda se tenha obtido apenas uma) e regressar ao passo 2.
4. Se n˜ao se estiver perto de encontrar um estado pr´oprio incrementar por um passo proporci- onal a√E e voltar ao passo 2.
5. Se se estiver perto de encontrar um estado pr´oprio, utilizar a express˜ao (3.2) para determinar a energia a usar na itera¸c˜ao seguinte e regressar ao passo 2.
Ser˜ao de seguida analisados alguns exemplos de forma a testar a efic´acia deste algoritmo.
Po¸co infinito
Utilizando este algoritmo para calcular as energias pr´oprias de uma part´ıcula num po¸co onde o potencial ´e nulo entre −5 < x < 5, com ~ = 1 e a massa m = 1, obtiveram-se as energias 0.04934801, 0.19739213, 0.44413229, e, 0.7895685 para os quatro n´ıveis de energia mais baixa.
A express˜ao obtida analiticamente para estas energias ´e E = 1 2m
nπ~ a
2
[4], onde a ´e a largura do po¸co, e, n pertence ao conjunto dos n´umeros naturais. De acordo com esta express˜ao os primeiros quatro n´ıveis s˜ao 0.04934802, 0.19739208, 0.44413219, e, 0.78956835. Verifica-se que o erro absoluto ´e da ordem de 10−8 para os primeiros trˆes, mas da ordem de 10−7 para o quarto. Conclui-se que, apesar do baixo erro relativo ( 1) este tem tendˆencia a subir com o aumento da energia. Ao calcular os n´ıveis de energias mais elevadas verificou-se que o quinquag´esimo n´ıvel apresenta um erro relativo de 10−5. Apesar do erro continuar muito menor que a unidade, aumentou em trˆes ordens de grandeza.
Oscilador harm´onico quˆantico
O oscilador harm´onico quˆantico coloca o problema de ter um dom´ınio infinito, o que n˜ao pode ser simulado com um m´etodo num´erico simples. A forma mais simples de lidar com o problema ´
e considerar o dom´ınio entre dois valores fixos de x. Desta forma a situa¸c˜ao f´ısica com que se est´a a trabalhar ´e um po¸co infinito, no fundo do qual, o potencial varia como o de um oscilador harm´onico. A aproxima¸c˜ao ´e suficientemente boa desde que a fun¸c˜ao de onda tenha valores muito pr´oximos de zero ( 1) nas imedia¸c˜oes das paredes do po¸co, ou seja, desde que ψ0 1 nas extremidades do dom´ınio em estudo. Caso contr´ario, a part´ıcula come¸ca a comportar-se como uma part´ıcula num po¸co infinito, e n˜ao como uma num oscilador harm´onico quˆantico. Nesse caso, ter-se-ia que alargar o dom´ınio em estudo.
Considere-se um potencial V = 0.5k2x2, com k = 2. Se este for colocado num po¸co entre −5 < x < 5, os quatro valores de energia mais baixa que foram obtidos pelo algoritmo s˜ao 0.99999939, 2.99999998, 5.00000096, e, 7.00000002 (novamente com a constante de Planck tra¸cada e a massa unit´arias).
De acordo com a mecˆanica quˆantica, tal potencial origina n´ıveis com energias dadas pela express˜ao [4]
E = ~k(n + 0.5), (3.6)
com n ∈ N0. A quatro menores energias s˜ao 1.0, 3.0, 5.0, e, 7.0. Verifica-se assim que o erro absoluto mant´em-se entre 10−7 e 10−8 para estes primeiros n´ıveis. No entanto, ao calcular os n´ıveis de mais elevadas energias, verificou-se que o erro rapidamente sobe, atingindo a ordem 1 no d´ecimo sexto n´ıvel (n = 16). Desta forma para calcular os n´ıveis de energia mais elevada com boa precis˜ao ter-se-ia de exigir que os parˆametros de shooting atingissem um valor mais baixo
Figura 3.2: Os primeiros quatro estados pr´oprios do oscilador harm´onico sob o qual age a per- turba¸c˜ao U = 0.1x4, obtidos pelo algoritmo.
Oscilador harm´onico quˆantico perturbado
Utilizando o algoritmo com o potencial V = 0.5k2x2+ 0.1x4 com k = 2 para −5 < x < 5, encontraram-se as energias 1.018000, 3.088101, 5.223598, e 7.419422.
Segundo a teoria das perturba¸c˜oes em segunda ordem a energia do n´ıvel perturbado n ´e [4]
En= En0+ hφn| ˆU |φni + X p6=n X i | hφi p| ˆU |φni |2 E0 n− Ep0 , (3.7)
onde ˆU ´e a perturba¸c˜ao, |φni ´e o estado pr´oprio do n´ıvel n n˜ao perturbado, e, En0 ´e a energia pr´opria do n´ıvel n n˜ao perturbado.
De seguida ´e necess´ario escrever a perturba¸c˜ao em fun¸c˜ao dos operadores de cria¸c˜ao e ani- quila¸c˜ao, usando a rela¸c˜ao [4]
ˆ x = r ~ 2mk(ˆa + ˆa †), (3.8)
onde ˆa ´e o operador de aniquila¸c˜ao e ˆa† o de cria¸c˜ao. Utilizando ~ = 1 e m = 1, obt´em-se a perturba¸c˜ao:
ˆ U = 1
160(ˆa
4+ ˆa†4+ ˆa2ˆa†2+ ˆa3ˆa†+ ˆa2ˆa†ˆa + ˆa†2ˆa2+ ˆa†2aˆˆa†+ ˆaˆa†ˆa2+ ˆaˆa†3+ ˆaˆa†ˆaˆa†+ ˆaˆa†2a + ˆˆ a†3ˆa+
+ ˆa†ˆa3+ ˆa†ˆaˆa†2+ ˆa†ˆa2ˆa†+ ˆa†ˆaˆa†ˆa) (3.9) As energias dos n´ıveis perturbados s˜ao 1.087305, 3.219961, 5.454688, e, 7.642522. Verifica-se que a diferen¸ca entre o resultado do algoritmo e o resultado da teoria de perturba¸c˜oes ´e da ordem de 10−2 para o n´ıvel fundamental, no entanto, rapidamente cresce para a ordem de 0.1. Para testar quais s˜ao os resultados mais apropriados, a equa¸c˜ao de Schr¨odinger foi resolvida com ambos os conjuntos de valores de energia encontrados.
A equa¸c˜ao foi resolvida em dois blocos (para x maior e menor que zero) de forma a que ψ(x) n˜ao divirja para um x menor que 5. Desta forma, caso a energia utilizada para a resolu¸c˜ao da equa¸c˜ao de Schr¨odinger n˜ao seja a energia pr´opria do sistema, ser´a discern´ıvel uma descontinuidade em x = 0 (quer de ψ(x) como de ψ0(x)).
Figura 3.3: Os primeiros quatro estados pr´oprios do oscilador harm´onico calculados utilizando as energias obtidas com a teoria das perturba¸c˜oes. S˜ao not´aveis as descontinuidades tanto de ψ(x) (nos n´ıveis 2 e 4) como de ψ0(x) (nos n´ıveis 1 e 3) em x = 0.
Ao analisar as Figuras 3.2 e 3.3 verifica-se que o resultado obtido pelo algoritmo fornece resultados mais precisos que a teoria de perturba¸c˜oes em segunda ordem.