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O S POTES DE A LTINHO – S ÍTIOS M OCÓ , E SPINHO B RANCO E G AMELEIRO

Figura 3.127: Dona Lêo e dando acabamento em seu pote. (2009).

Altinho situa-se no Planalto da Borborema, na bacia hidrográfica do dos Rio Una e Rio Ipojuca, a uma altitude de 454 m. Possui clima semiárido quente e vegetação de caatinga hiperxerófila. Pertence a região de desenvolvimento do Agreste Central Pernambucano, microrregião do Brejo Pernambucano. Com área de 454,486 km², limita-se ao norte com Caruaru e São Caitano, ao sul com Ibirajuba, Panelas e Cupira, à leste com Agrestina e à oeste com Cachoeirinha e dista 163,1 km da capital, Recife. Da população de 22.896 pessoas (segundo senso de 2017), 9.577 residem na área rural, nos sítios (segundo Censo de 2010) (CONDEPE FIDEM, Acesso em: 01 nov. 2018).

Em Altinho a produção da loiça de barro se concentra nos sítios Mocó, Espinho Branco e Gameleira. No mestrado (AMARAL, 2012) apresentei toda a cadeia operatória envolvidas manufatura da loiça de barro nestas comunidades no geral, registrando especificamente a produção da loiceira Dona Maria das Panelas, da qual acompanhei desde os locais de extração dos barros e de matérias-primas para confecção de instrumentos de trabalho, pisar o barro, formar, abrir, dar acabamento (rapá, alisar, colocar a asinha, rapá o pé) e queimar. As demais (Dona Fofa, Dona Zizi, Dona Zefa de Paulo, Dona Zefa de Bernardino, Dona Guida, Dona Josefa, Dona Marlene de Neco do Doce, Dona Severina) apresentei apenas como contraponto à produção de Dona Maria, devido a padronização dos processos produtivos nesta comunidade. Com

relação à produção de potes, na época de minha primeira etapa de campo (em 2009) apenas três loiceiras faziam: Dona Maria das Panelas, Dona Fofa e Dona Leonice (Dona Lêo). Acompanhei a produção de potes de Dona Lêo ainda nesta etapa de campo e, posteriormente, na etapa de 2015 registrei em detalhes novamente. Nesta ocasião Dona Maria não produzia mais nenhum tipo de loiça de barro, pois tinha se aposentado e apresentava um problema médico e Dona Fofa estava reduzindo a produção.

Figura 3.128: Croqui da comunidade pesquisada nos sítio Mocó, Espinho Branco e Gameleira,

com localização das casas das loiceiras e dos barreiros. Desenho: Sérgio Silveira.

Assim como em Belo Jardim, a produção em Altinho é inteiramente manual, sendo boa parte dos potes construída através da técnica de modelagem com a inserção de pseudoroletes, denominados de arrudias, a partir da metade do processo. E pela natureza da organização do trabalho, doméstico, em tempo parcial e predominantemente feminino, podemos caracterizá-la como household industry (ARNOLD III, 1991, p. 92-95).

Para a produção dos potes Dona Lêo utiliza o barro de massapé, coletado em barreiros próximos aos rios. Muitas vezes ela mistura o barro de massapé com o barro de panela (mistura dos barros preto e vermelho), “pra poder dar liga,

porque o massapê é muito solto e também porque sozinho ele pipoca quando queima” (Dona Lêo).

A produção pode ser dividida entre as seguintes etapas: formar, abrir, botar a boca ou gogó, dar acabamento (rapá, alisar, acertar o beicinho e rapá o pé) e, depois da queima, pintar com tinta látex branca (na ausência do toá, barro branco proveniente de Alagoas).

Diferente da produção em Belo Jardim, não há suportes como as fôrmas (pratos) por sobre as quais a loiceira irá armar seus potes. O processo se inicia com o movimento de perfurar e beliscar discos de barro sobrepostos e dispostos sobre um suporte plano de madeira no qual a loiceira irá formar (o equivalente a armar) suas vasilhas. Para formar o pote a loiceira perfura e levanta estes discos de barro e, na sequência coloca as arrudias (equivalente as tiras) até a fôrma atingir a altura do corpo do pote. Assim como em Belo Jardim, ao final deste processo o pote já adquire praticamente sua forma final. Posteriormente a loiceira inicia o processo de abrir (equivalente ao processo de espalhar) com a paieta de caco de cuia, assim como de bota a boca ou o gogó fazendo uma grande arrudia, que é levantada com os mesmos procedimentos do corpo do pote e acerta o beicinho com um pano (couro de luvas). Só depois dá acabamento em toda a peça, rapando com ferro e alisando com a paieta de caco de cuia por dentro e com o pau de alisar por fora e, finalmente, dando continuidade ao acabamento, rapa o pé (que permanece com a base plana). Os potes recebem decoração pintada após a queima e a pintura é realizada com tinta látex branca sobre os ombros do pote em espirais e nos beiços em semicírculos ou traços perpendiculares, utilizando um cotonete ou palito de fósforo envolto em palha de aço. Não há qualquer tipo de polimento ou brunidura nos mesmos.

Os fornos e os procedimentos de queima são os mesmo que os registrados em Belo Jardim, incluindo as nomenclaturas das etapas de queima: esquentar e cardear. Há algumas diferenças na seleção das lenhas, porque as loiceiras dão preferência à algumas espécies, como o mulungu.

Quanto às formas, são considerados potes os contentores de líquido com capacidade volumétrica mediana, entre meia à duas e meia latas d’água, ao passo que as jarras possuem capacidade volumétrica maior do que duas e meia latas d’água.

Ao contrário do que ocorre em Belo Jardim, em Altinho a participação masculina (de maridos e filhos das loiceiras) foi registrada em algumas etapas específicas do processo de manufatura, sobretudo na coleta e pisa do barro, na coleta da lenha para queima, na queima e na confecção de alguns instrumentos, como o pau de alisar. O marido de Dona Lêo participa também auxiliando no transporte das peças até a feira e na comercialização das mesmas.

Quanto a comercialização, é realizada pelas próprias loiceiras, na maioria dos casos1, nas feiras de Agrestina e Altinho e por algumas loiceiras a

comerciantes da Feira de Caruaru.

Figura 3.129: Dona Lêo perfurando os

discos de barro para a fôrma. (2009)

Figura 3.130: Pressionando as paredes da

forma em movimentos de belisco. (2009).

Figura 3.131: Levantando as paredes da

fôrma. (2009).

Figura 3.132: Arrudia afixada na face interna

da fôrma. (2009).

1 Algumas vendem para a loiceira Dona Lêo, que revende nas feiras de Agrestina e Altinho e

Figura 3.133: Alisamento da face interna da

fôrma. (2009).

Figura 3.134: Fechamento da boca da

fôrma.(2009).

Figura 3.135: Cortando o beicinho da fôrma.

(2009).

Figura 3.136: Alisando a face interna da

fôrma. (2009).

Figura 3.137: Dona Lêo com a fôrma do

pote. (2015).

Figura 3.138: Rapando a face externa da

fôrma do pote. (2009).

Figura 3.139: Concluindo o alisamento da

face externa da fôrmado pote. (2009).

Figura 3.140: Colocando a arrudia na fôrma

Figura 3.141: Levantando o gogó do pote.

(2009).

Figura 3.142: Levantando o gogó com

beliscos. (2009)

Figura 3.143: Alisando a face interna do

gogó. (2009).

Figura 3.144: Cortando o beicinho do gogó.

(2009).

Figura 3.145: Infletindo a boca e formando o

beicinho. (2009).

Figura 3.146: Alisando a face externa do

gogó com o pau de alisar. (2009).

Figura 3.147: Alisando todo o pote com o

pau de alisar. (2009).

Figura 3.148: Regularizando a superfície do

Figura 3.149: Dona Lêo rapando o pé do

pote. (2009).

Figura 3.150: Sr. Tonho, marido de Lêo,

desenfornando as peças. (2015).

Apresento abaixo síntese das cadeias operatórias da produção de potes em Altinho, assim como fiz no mestrado (AMARAL, 2012) para a produção da loiça de barro no geral:

Fase Operação Instrumento Suporte

Matéria-prima

Seleção e Aquisição dos Barro de Massapê

e eventualmente dos Barro Preto e Barro

Vermelho

Enxada, carro de mão e balaio

Balaio, plástico e sacos de ráfia

Preparo da Matéria-

prima Pisar o barro Pés Chão

Técnicas de Manufatura

Modelagem com

inserção de arrudias Mãos Tábua

Etapas de Manufatura

Formar Abrir

Botar a boca ou gogó Dar acabamento: rapá,

alisar, acertar o beicinho, rapá o pé, Pintar com látex branco

após a queima (ou toá)

Mãos, paieta de caco de cuia, ferro, pau de alisar, palha de aço enrolada em palito de fósforo ou cotonete Tábua Queima Colocação da loiça no forno

Tapar o forno com cacos Esquentar e Cardear

Forno, cacos e lenhas grossa e fina

Forno redondo de aicos com topo aberto

Comercialização e Distribuição

Venda nas feiras livres com as próprias loiceiras (direta)

Carro de mão Chão e banco

(barraca)

Tabela 3.3 – Fases da cadeia operatória da produção loiceira em Altinho (inspirado em