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D A PRÁTICA À TEORIA

No documento E NTRE O CORTE DA CERCA E A TEIA DA REDE: (páginas 195-200)

Vivemos em um tempo no qual as redes potencializam a reunião de um grande contingente de agentes sociais por meio da comunicação virtual. O fenômeno denominado de Primavera Árabe, por exemplo, só foi possível em função da existência das mídias virtuais que, não sendo controladas de forma rigorosa nem por Estados, nem por empresas, permitiram a difusão de mensagens e imagens para os mais diversos pontos do planeta. Tal

196 Disponível em http://www.forumsocialmundial.org.br/main.php?id_menu=4&cd_language=1, acessado em

contexto apresenta, segundo estudiosos como Manuel Castells, um potencial muito grande de mudança social, como realmente vimos ocorrer em alguns espaços do globo, apesar do influxo das transformações ocorridas, de forma incisiva, em alguns desses países.

O Brasil também viveu o seu período de realização de mobilizações de massa ancoradas nesse tipo de organização. Recentemente, ao longo do ano de 2013 e início de 2014, milhares de pessoas foram às ruas em centenas de cidades para declarar sua insatisfação com um sem número de pontos – da gestão pública ao modelo econômico, demandando segurança, mobilidade, educação, saúde, reforma agrária. Manuel Castells, em sua obra Redes

de indignação e esperança197, afirma que isso se deu sem líderes, sem partidos nem sindicatos na sua organização. É a isso que estou denominando aqui de mobilização. Um movimento exige a comunhão de ideias, de ideais, de concepções, de objetivos. Demanda um engajamento que por vezes pode conduzir o sujeito que dele participa a abandonar um pouco suas metas pessoais para abraçar as do coletivo.

A mobilização, nos moldes em que a estou tratando aqui, não. Como ocorreu no Brasil, é uma festa da democracia, com hora para começar e, o mais atraente, para terminar! E depois do fim? Aí cada um volta para a sua casa. Uma boa parte postou fotos em alguma rede social, demonstrando, de forma incisiva, o tamanho da sua indignação com a situação vivida. Assistem nos jornais as repercussões dos seus feitos. E quais foram mesmo? Alguns efetivos: evitou-se o aumento das passagens de ônibus, por exemplo, e isso é um ganho real para toda a população que se utiliza do serviço. Mas diziam que não era só pelos centavos. E as outras causas? Quais eram mesmo? Não é fácil lembrar, em função do seu número e da sua diversidade. É difícil, a partir daí, cobrar os resultados de tantas reivindicações, até mesmo saber de quem cobrar, visto que existe uma dificuldade das próprias autoridades de darem resposta a tantas demandas ao mesmo tempo.

Muita coisa boa aconteceu em resposta às mobilizações, não há dúvida. Talvez as lideranças políticas estejam, inclusive, mais atentas àquilo que fazem em função de tais eventos. No entanto, pela falta de grupos instituídos para avaliar os resultados produzidos, a continuidade deles não é garantida. Em função do tipo de procedimento de votação do nosso país, muitos projetos de lei foram iniciados no período, quase nenhum virou lei de fato, talvez a maioria não se efetive.

É assim a mobilização. Uma capacidade de agregação impressionante, exatamente pelo pouco que exige. Chega-se mais cedo, faz-se a festa da democracia, vai-se embora. É preciso sempre assinalar que existia algum nível de risco de encontro com a violência, em um embate com a polícia, por exemplo, mas penso que isso fosse razoavelmente calculado por quem participava. Alguns queriam isso, e conseguiam, e quem não queria, boa parte das vezes, buscava se afastar da tensão quando percebia sua iminência.

O MST não é assim. Como dissemos no primeiro capítulo, em um momento em que se elege o não-lugar como experiência de espacialidade, ele exige o “estar aí”. Em um tempo das mobilizações, capazes de trazer grandes mudanças, sem sombra de dúvida, mas que não exigem engajamento em longo prazo, ele demanda o compromisso prolongado, por vezes, em lugares de penúria, de sofrimento, debaixo da lona, da chuva, do sol quente, para a conquista de alguma mudança social significativa. Exige muito, oferece pouco, para quem vê de fora. Não é fácil compreender a associação desses indivíduos no auge de uma sociedade hiperindividualizada.

Falando especificamente do Brasil, Manuel Castells trata com otimismo as mobilizações, suas potencialidades, o que elas podem oferecer em termos de ganhos coletivos. Em suas próprias palavras:

De forma confusa, raivosa e otimista, foi surgindo por sua vez essa consciência de milhares de pessoas que eram ao mesmo tempo indivíduos e um coletivo, pois estavam – e estão – sempre conectadas, conectadas em rede e enredadas na rua, mão na mão, tuítes a tuítes, post a post, imagem a imagem. Um mundo de virtualidade real e realidade multimodal, um mundo novo que já não é novo, mas que as gerações mais jovens veem como seu. Um mundo que a gerontocracia dominante não entende, não conhece e não lhe interessa, por ela encarado com suspeita quando seus próprios filhos e netos se comunicam pela internet, entre si e com o mundo, e ela sente que está perdendo o controle.198

Como eu disse, não há dúvida de que o potencial de mudança das mobilizações é grande. Receio, no entanto, que a ausência de continuidade presente nesse tipo de organização compromete, e muito, os efeitos produzidos, fazendo com que os participantes vejam possibilidades excessivas de alteração da realidade. No fundo, as coisas não são tão mutáveis assim a partir de encontros esporádicos. A ideia do sem-classe e sem-partido é outra questão

198 Idem, ibidem, p. 179-180.

interessante. Buscar mudanças significativas no tecido social sem a noção de revolução e/ou a inserção dos membros dos partidos políticos – os responsáveis pela realização do processo legislativo – parece sobremaneira utópico. E ainda fico em dúvida sobre se em nosso tempo podemos abrir mão da concepção de classe para compreender a nossa sociedade.

O MST usa a rede. Tem uma página, como dissemos, desde 1996, que é constantemente alimentada. Encontraremos lá os parceiros do movimento, ONGs, a Via Campesina, entre outros. Uma biblioteca rica sobre os temas vinculados ao movimento, tais como a questão agrária, com teses e dissertações, livros, vídeos, artigos, ensaios, cartazes, páginas de internet. Possibilita a assinatura de suas publicações e tem uma loja virtual, na qual vende produtos de propaganda do movimento e livros, obviamente para arrecadar fundos para as suas atividades. Encontra-se no Facebook e no Twitter. O movimento não ficou alheio às transformações ocorridas nas últimas décadas, das quais falamos no primeiro capítulo. Mas ele não se virtualizou. Não quer, e nem pode querer, se encaixar no molde das mobilizações. As romarias sempre existiram, e elas expõem a “mística” do movimento, a busca por algo maior, mas são um dos elementos constituintes desse todo.

Existe um sistema educacional pensado, uma pedagogia que é implementada nos assentamentos, na ENFF, nas parcerias com as universidades públicas, que visa à inserção dos membros no ensino superior. Também há um novo jeito de ver as coisas, que talvez seja velho, mas que se torna novo quando colocado como contraponto ao que aí está. É exatamente essa forma de ver, que não admite o modelo de organização econômica vigente, que torna o MST um movimento, para alguns, tão radical, podendo ser inserido em um campo amplo daqueles grupos que defendem o altermundialismo, ou seja, que acreditam que “um outro mundo é possível”. Reginaldo Carvalho Correa de Moraes e Claudinei Coletti, no artigo MST,

o radicalismo agrário em busca de um outro mundo... possível?199, afirmam que era uma trajetória quase natural essa tendência mais internacional do movimento. Vejamos um trecho:

Portanto, é quase impensável que as lutas do MST não se expandam para o choque com o padrão internacional. O radicalismo agrário, para continuar radical, precisa transcender o agrário. Em outras palavras, o movimento percebe cada vez mais a necessidade de ampliar suas bandeiras, radicalizá-

199 MORAES, Reginaldo Carmello Correa de & COLETTI, Claudinei. MST, o radicalismo agrário em busca de

um outro mundo... possível? In: MORAES: Reginaldo Carmello Correa de (org.). Globalização e radicalismo

las, torná-las mais complexas e mais globalizantes, incorporando interesses e valores de outros grupos sociais, distintos de sua base original.200

Como visto no capítulo 2, entre as décadas de 1980 e 90 o MST se entendeu como uma articulação dentro do movimento sindical. Com o passar do tempo, ele parece ter se tornado bem independente nas suas demandas e formas de luta. O que os autores afirmam acima é que os interesses do movimento, que luta por causas suas, específicas, só podem ser defendidos se ele extrapolar suas próprias demandas iniciais, que versam de forma mais pontual sobre a reforma agrária, porque a sociabilidade agrária que quer o MST exige novas relações econômicas globais. É assim que ele se torna, por necessidade, e não por luxo, um movimento cada vez mais altermundialista, antiglobalização, que luta por outra forma de realidade.

Outro pensador que oferece tal status ao movimento é Perry Anderson. Em seu artigo

A batalha das ideias na construção de alterativas, presente no livro Nova hegemonia

mundial201, ele avalia que na América Latina existe um espaço propício para a construção de mudanças, pois combinam-se a organização dos movimentos sociais e a ação de governos que não tendem à subserviência à ordem hegemônica do capital. O autor, ao falar disso, apresenta o MST como um movimento de grande potencial de mudança. De acordo com ele:

Na América Latina, em contraste, vê-se uma série de governos que, em graus e campos diversos, tratam de resistir à vontade da potência hegemônica, e um conjunto de movimentos sociais tipicamente mais radicais que lutam por um mundo diferente, sem inibições diplomáticas ou ideológicas; aí se encontram os zapatistas no México e os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra no Brasil (MST), os cocaleros e mineiros na Bolívia, os piqueteros na Argentina, os grevistas do Peru, o bloco indígena do Equador, e tantos outros.202

Seja como for, por obrigação histórica ou por escolha, o MST tende a se manter com bandeiras nitidamente anticapitalistas, que hasteou, pelo menos de forma oficial, quando se nacionalizou em 1985. E se entendemos que nosso mundo continua sob essa ordem, mais flexível ou não, eles seguem contra ela, quase 30 anos depois. Apesar da rede, e usando as

200 Idem, ibidem, p. 94.

201 BORON, Atilio A. (org.). Nova hegemonia mundial: alternativas de mudança e movimentos sociais. San

Pablo: CLACSO, 2004.

redes, ainda parece ser um movimento clássico, que entende que sem a superação das contradições econômicas não é possível, de fato, modificar de forma significativa alguma coisa. Usando termos correntes no marxismo, que muitos dão como morto e sepultado, ainda conseguem, provavelmente, ser um dos movimentos mais bem articulados dos nossos tempos. O Fórum Social Mundial é uma rede de organizações e, como já definimos, é apresentado muito mais como um espaço do que como um movimento. Nele existem diversas redes, dentre as quais a Via Campesina, voltada mais diretamente para as questões agrárias dentro desse todo. Um dos componentes da Via é justamente o MST, juntamente com movimentos de mais de 70 países. No início da minha pesquisa, eu tinha cristalizado a tese de que, em uma sociedade de relações cada vez mais fluidas, de indivíduos hiperindividualizados, os movimentos sociais necessariamente estariam enfraquecendo. Isso valeria, também, para o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. No entanto, ao final deste trabalho, é possível concluir que tal percepção era um pouco simplista.

A sociedade é resultado das suas tensões, das lutas, dos movimentos que nela ocorrem. Nada é simples, muito menos unidirecional. O movimento, muito provavelmente, sofreu modificações ao longo da história da sua existência, nada mais natural. No entanto, não entendo que devamos concluir, com isso, que tenha havido um arrefecimento. As estratégias, isso sim, tiveram que ser mudadas, já que o capitalismo também sofreu tantas alterações e novos meios técnicos permitem a organização dos agentes coletivos em escala também cada vez mais global.

Desse modo, mobilizações que parecem pouco racionais para boa parte das pessoas, como o comprometimento de pesquisas de uma multinacional203– o Movimento das Mulheres Camponesas, vinculado à Via Campesina, destruiu mudas e laboratórios da Aracruz Celulose em março de 2006, em protesto contra o avanço do “deserto verde”; o MST derrubou milhares de pés de laranja da fazenda da Cutrale – que não teriam “nada a ver com a reforma agrária”, aqui podem ser compreendidas como parte da luta maior contra a política neoliberal e o controle do campo pelo grande capital.

O MST não é mesmo caracterizado apenas pela mobilização. Ele se utilizou, como já dito, de diversas formas de agrupamento no espaço para se manifestar, sem dúvida, mas isso

203 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0903200614.htm;

http://g1.globo.com/jornaldaglobo/0,,MUL1330615-16021,00-

MST+DESTROI+LAVOURA+COM+MIL+PES+DE+LARANJA+PARA+FORCAR+DESAPROPRIACAO.ht ml. Consultados em 15/11/2014.

No documento E NTRE O CORTE DA CERCA E A TEIA DA REDE: (páginas 195-200)