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PRÁTICA COMPARTILHADA: ESTUDO DE CASO NA EDUCAÇÃO

ANEXO I – Lâmina contendo classificação dos psicoativos conforme seus efeitos

6. PRÁTICA COMPARTILHADA: ESTUDO DE CASO NA EDUCAÇÃO

“Precisamos sofrer de dúvidas”

Paulo Freire (1968)

Nessa etapa do curso Drogalidade, optamos por enfocar a questão da prática, mediante a realização de uma oficina que usou o método de estudo de caso30 - forma de abordar a temática muito característica das ações em saúde, mas que na educação pode ter papel importante, já que traz questões de cunho prático, organiza o processo de ação e principalmente trabalha o posicionamento dos participantes diante de situações concretas.

Os casos foram elaborados com base na minha escuta, durante as aulas de disciplinas do mestrado, de relatos dos colegas docentes, bem como em elementos colhidos em outros momentos da minha prática no espaço comunitário. Porém, todos resguardam elementos da realidade.

Subdividimos os participantes em grupos e propomos a análise dos casos apresentados, todos enfocando a questão das drogas no espaço escolar. Destacamos a importância da atividade para vivenciar situações práticas, visando problematizar a função de educar em situações que envolvessem o tema drogas.

A seguir, apresento a descrição dos casos e, logo abaixo, farei uma análise do material produzido pelos professores durante a oficina. Vejamos:

Caso 1

Na escola W.T. a equipe de professores da Educação Infantil discutiu em reunião o uso de Ritalina 31 por alguns alunos. Uma das professoras diz que esse uso é inevitável, em alguns casos, e sem essa medicação considera impossível trabalhar a escolarização

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Transposição de situações vivenciadas na prática escolar em relação às drogas e que foram descritas por professores mestrandos em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educaçãoda UFSM e transformadas nos casos descritos nessa oficina com intuito de trabalhar as experiências no campo da educação sobre drogas e trazer a tona a possibilidade de problematização dos professores, visando um prática compartilhada entre pares.

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Sua substância ativa é o Cloridato de metilfenidato, que estimula o Sistema Nervoso Central, sua indicação específica é para os Distúrbios do Déficit de Atenção e hiperatividade (DEF, 1994, p. 611).

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do aluno G., de cinco anos, nem manter a atenção dos outros, tamanha a agitação de G e os incômodos que ele provoca. Ela mesma fez a indicação desse aluno ao neurologista e acrescenta que, quando o efeito do remédio começa a passar, fica extremamente preocupada. Outra professora diz ter uma aluna que usa Ritalina e que se sente bastante incomodada com olhar parado da menina, ficando constrangida com essa situação, uma vez que dá idéia de uma calma artificial, produzida pelo medicamento, preferindo a menina em seu estado normal (sem o remédio), mas que, sobre o assunto, não sabe como falar com a família. Por fim, um professor fez um levantamento do número de crianças que usam Ritalina na Escola e que ficou impressionado que existiam cerca de doze crianças fazendo uso do medicamento, só na educação infantil.

Na análise desse caso, percebi um intenso envolvimento dos docentes, partes do subgrupo de trabalho, em particular uma professora extremante ‘tocada’ pela situação, tendo, em conseqüência da sua preocupação, acrescentado inúmeros exemplos práticos das conseqüências do uso de Ritalina por crianças e a posição da escola diante do tema. Citou, inclusive, a sua história pessoal quanto ao uso de Gardenal, medicamento muito prescrito na década de 70 e 80 para crianças com dislexia, epilepsias e demais “distúrbios” de ordem neurológica. Esse foi um caso interessante de ser debatido, por ser rotineiro nas escolas e que, muitas vezes, o coletivo escolar não está a par dos efeitos da medicação nas crianças e da construção social de mais uma patologia que virou moda nos dias de hoje, a hiperatividade.

Vejamos o que o grupo de professores escreveu diante do caso apresentado:

- consideram o uso da Ritalina em crianças algo extremamente perigoso e questionável;

- acreditam que a sociedade e a escola da forma como estão estruturadas, não conseguem entender e trabalhar com essas crianças;

- avaliam que o uso indiscriminado dessa medicação poderá causar efeitos danosos na vida dessas crianças.

Questionamentos feitos pelo subgrupo: - O que os professores podem fazer?

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- Qual o interesse social em manter as crianças “dopadas”? - Como lidar com casos extremos?

Na análise que fizeram do caso, os docentes apontaram o perigo de marcarmos o diferente dentro de um referencial de melhor ou pior; a diferença como efeito negativo, e o fato de não se perceberem como cooperadores nesse processo, já que as normas constituídas no espaço escolar, conforme já mencionei em passagens anteriores, são para adestrar e exercer poder de domínio, e não para tratar o singular e se potencializar de diferentes formas, para com ele saberem lidar.

Nesse aspecto, a Escola faz uma estreita parceria com a saúde, conforme Birman (2005), por intermédio da psicopatologia contemporânea, que encontra suas origens e mitos fundados na identidade médica, passando a questionar as perturbações do espírito, com bases inteiramente biológicas. Unindo-se à psicofarmacologia, acaba por tornar-se o único modelo de intervenção, nesse caso percebemos que se retira o papel de outros atores importantes, os quais poderiam e deveriam intervir, de forma diferenciada nesse processo, como o educador, a família, as psicoterapias. Estes, por inércia, acabam agindo da mesma maneira que a saúde ou se tornam periféricos, ocorrendo então uma perversão no campo epistemológico, inclusive (des) potencializando o saber que cada um pode constituir de si e do outro.

Podemos observar esse aspecto cotidianamente, nos encaminhamentos feitos para tratamento psicológico, os quais muitas vezes são solicitações do espaço escolar, valendo assinalar que, boa parte dos casos, poderia ser abordada na escola. Um exemplo bastante comum do aspecto assinalado são as dificuldades de inter-relações entre as crianças, que poderiam ser trabalhadas dentro da escola com bastante sucesso, mas como tradicionalmente temos as ações educacionais centradas no repasse de conteúdos, acaba não havendo possibilidade, para os professores tratarem questões como: respeito mútuo, o efeito dos rótulos na vida das pessoas, os potenciais diferenciados de cada aluno, entre outros aspectos, que perpassam as crianças e adolescentes estudantes. Ao contrário disso, frequentemente o professor vira um promotor desse processo, quando compara, rotula e estigmatiza seus alunos.

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Nessa oficina, o viés da saúde ficou claro quando alguns professores declararam a necessidade de terem em sua formação elementos que pudessem favorecer um melhor entendimento da dimensão psicológica e biológica. Eles próprios sugeriram que as palestras com especialistas são essenciais para a obtenção de informação sobre os temas - sugestão que considero ineficaz já que não é suficiente, pois o que me parece faltar ao professor é um melhor entendimento a respeito de si próprio e sobre seus desejos, para poder favorecer esse processo no outro, nesse caso, na sua relação enquanto educador. Durante o curso, fui convidada a responder o tempo todo, no lugar de especialista, mas fui “escapando” e devolvendo a eles essa possibilidade de encontrar respostas para essas dificuldades em si mesmos e no contexto escolar onde estão envolvidos.

Caso 2

Numa Escola de Ensino Médio do curso noturno foi proibido, há cerca de cinco meses, o uso de tabaco no espaço escolar, o que era permitido, anteriormente, na área aberta da Escola. Nesses cinco meses, os professores perceberam que muitos alunos se retiraram, por certo tempo das aulas, para fumar fora da Escola e que os mesmos nunca saiam sós, mas sempre em duplas ou trios. Os professores observaram que antes da proibição os alunos praticamente não saiam da sala para fumar, mesmo nos períodos mais longos de aula. Durante o café, os professores se questionaram se a proibição não acabou por aguçar o uso, comentando ainda que os alunos queixaram-se muito quando a proibição foi estabelecida. Uma professora disse: - “Na minha aula ninguém sai para

fumar, pois se saírem eu não permito que retornem para aula”. Outro professor

interferindo, disse: - “Acho que os seus alunos saem e dizem que vão ao banheiro para

que você não proíba seu retorno. Ouvi alguns boatos a esse respeito, na semana passada”.

Nesse caso, surge um elemento bastante interessante de se pensar pela via educacional, isto é, os efeitos da proibição. Esses efeitos já foram bastante discutidos no que se refere às questões legislativas e políticas no âmbito das drogas legais. Em relação ao tabaco, normas vêm sendo construídas, visto que, nos últimos 16 anos ocorreu ampla

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e intensa discussão sobre os danos à saúde causados pelo uso do produto, inclusive no que se refere aos consumidores passivos32, ou seja, aqueles que estão suscetíveis à inalação em ambiente onde há consumo de tabaco.

Algumas pesquisas apontam para a diminuição no número33 de tabagistas, principalmente entre jovens. Vale, nesse sentido, assinalar que nos últimos anos houve uma mudança significativa nas representações sociais sobre o tabaco, perdeu-se o glamour da década de 70 e 80, pois se revelou a composição das substâncias presentes nos cigarros e os danos à saúde por elas provocados.

Conforme análise de Martins (2003), fazendo-se um intercâmbio com as concepções de Gilberto Velho e Georges Camguilhem, as regras delimitam os domínios de ação, buscando um “comportamento adequado” segundo os critérios de um grupo social, que é reforçado por limites, surgindo assim a noção de dentro e fora que produz um contraste. Alguns tabagistas falam do sentimento produzido quando a norma estabelece uma série de diferenciações, geridas por mecanismos discriminatórios. Podemos reconhecer que as medidas que regulamentam o consumo são necessárias, já que podem acarretar prejuízo a terceiros, como é o caso do tabagismo passivo. O que me parece brutal e discriminatório nesse processo, é a completa ausência de espaços que visem discutir a construção dessa legislação. Simplesmente proibir, como foi o caso da escola acima, narrado e discutido pelos docentes, não seria a melhor forma de tratar o caso.

Quando falamos de regulamentações no espaço escolar, precisamos nos questionar: de que forma esse processo se constitui? Ocorre um franco debate sobre as questões que envolvem o tema? Há lugar para construção de decisões democráticas? Há algum trabalho educacional na implementação das novas normas, já que esse é um trabalho essencial de construção? Devemos buscar efeitos “funcionais” para os diferentes grupos, nesse caso tabagistas e não tabagistas.

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Define-se tabagismo passivo como a inalação da fumaça de derivados do tabaco (cigarro, charuto, cigarrilhas, cachimbo e outros produtores de fumaça) por indivíduos não-fumantes, que convivem com fumantes em ambientes fechados.

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No Brasil, não há um levantamento sobre o impacto das imagens nos maços de cigarro, mas pesquisas mostram que o número de fumantes está em queda. Em 1989, 32% da população com mais de 15 anos era fumante. Em 2003, a porcentagem caiu para 19%. Fonte: O Estado de São Paulo.

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As campanhas atuais, que imprimem imagens no verso dos maços de cigarro, constituem um efeito de “terror” que efetivamente amedronta o tabagista, mas que esclarece muito pouco. Por outro lado, os comerciais antes divulgados na mídia tinham efeito enaltecedor, fantasioso e construtor de representações imaginárias de poder, de modernidade, de intelectualidade, de aventura e, podemos dizer até, de boa saúde. Ambas são desfavoráveis, pois não auxiliam a edificação de uma ética que oriente uma conduta autônoma, onde haja uma consciência de si, interessada na universalidade dos direitos. Essas campanhas amedrontadoras constituem um uso culpado ou uma atitude de descaso com a saúde por parte do tabagista, negando, inclusive, algumas informações que poderiam ser válidas, caso fossem veiculadas (no sentido de propagar, difundir) de outra forma.

As regras por si só não constituem efeitos valorativos. Como foi expresso no relato do caso acima mencionado, tendo como conseqüência, um efeito inverso, conforme observação feita por alguns professores, quando citam o fato dos alunos que praticamente não saiam da sala para fumar antes da proibição, mesmo nos períodos mais longos de aula e que, após a proibição, passaram a ter esse tipo de atitude.

O grupo que analisou o caso fez as seguintes observações:

1. Determinar ‘tempo’ e ‘espaço’ para o uso do tabaco (consumo), visando a preservar o ‘não’ fumante.

2. Trabalho preventivo (contínuo e permanente) visando à conscientização da comunidade escolar sobre o uso do cigarro e de seus malefícios.

A análise do grupo parece bastante proveitosa, porém utilizam expressões como:

conscientização da comunidade escolar, uso do cigarro e os seus malefícios, o que

coloca um determinado grupo na posição de saber o que é melhor, colocando a saúde em primeiro plano e esquecendo os outros elementos que envolvem o uso de drogas. O tal

dentro e fora, mencionado anteriormente, que inviabiliza o debate e estabelece a

diferença, não enquanto escolha ou opção, mas enquanto condição de superioridade, ou seja, onde um sabe o que é bom e outro não sabe, excluindo uma relação ética, necessária na constituição das relações interpessoais.

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Caso 3

Um aluno de 14 anos do Ensino Básico vem conversar com a professora de Matemática, com quem se dá muito bem, ele relata o fato de ter experimentado maconha com os amigos e que estava preocupado em se viciar. Ele diz que não gostou do efeito da droga e que só usou uma única vez. Essa preocupação do aluno com o vício vem da experiência vivenciada com seu pai que é “alcoólatra”, mas que apesar disso costuma ser um excelente pai, cuidadoso e preocupado com o filho, mas ele reconhece que quando o pai exagera nesse uso, se torna chato. A professora fica sem saber o que falar a respeito, porém avalia que o assunto é pertinente e que merece algum retorno. Resolve conversar com a direção para pensar em alguma forma que possa auxiliá-lo.

O grupo de professores enfocou o caso em dois momentos, no primeiro fizeram considerações a respeito do aluno e no segundo citam ações possíveis a serem realizadas pela professora.

Conclusões a respeito do aluno:

Influenciável (pode ser);

O fato de o pai ser um alcoólatra pode predispor ao vício ou criar aversão; A conversa com a professora pode significar um “pedido de socorro”.

Ação

Uma conversa franca e amigável.

Buscar as razões que levaram o aluno a experimentar a droga. Sentir como estão as relações do aluno com a família.

Fazer perguntas que induzam à reflexão sobre até que ponto o uso da droga vale a pena e é prazeroso.

Na análise sobre o aluno surge a questão da influência dos amigos, valendo citar, para a compreensão desse aspecto, o estudo realizado por Eduard MacRae e Julio Assis Simões (2000) - Roda de Fumo, no qual descrevem o uso da maconha entre camadas médias urbanas, como algo construído na relação com um grupo, já que as práticas do consumo seguem alguns rituais de preparação que, isoladamente, são pouco comuns, pois a prática do consumo é social. Avalio que essa experiência não está apenas no grupo, está também no sujeito que deseja experimentar.

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Um estudo realizado por Velho (1975), que possui características semelhantes ao de MacRae e Simões, porém na cidade do Rio de Janeiro, aponta que o sentimento de amizade e confiança das situações de iniciação do uso da maconha, contrasta com a ausência de qualquer citação ao fato de ter sido algo forçado ou influenciado, rompendo com a idéia de submissão do indivíduo às normas dos grupos sociais. Há um comportamento diversificado nesse campo, o que faz com que alguns usuários experimentem e descartem o uso, outros usem ocasionalmente, outros frequentemente e ainda outros que usem (des)organizadamente. Não estou negando que o sentimento de pertencimento não possa ter relevância no consumo, porém não é o que definirá sempre as motivações para o uso e sua forma.

A predisposição ao vício é outro elemento usualmente utilizado no senso comum, referindo-se a algo biológico, herdado geneticamente. No entanto, essa percepção se constitui muito mais de elementos morais do que de achados científicos, que possam ser observados e comprovados.

No que tange à aversão ao uso em decorrência a convivência do aluno com o pai, podemos imaginar que esteja presente um fator de cunho psicológico ou de mera construção consciente. Esses fatores cabem enquanto possibilidade, porém nesse caso o menino experimenta uma vivência antagônica ao dito comum, de que os pais alcoólatras são ruins para seus filhos. O menino tem uma representação de pai ‘legal’, mesmo que esse seja um ‘pai alcoólatra’, que, diante do olhar social, representa uma figura disfuncional. Mostra-se, assim, a quebra de um paradigma, qual seja, que todo alcoólatra deve ser igual, degradado e mal sucedido na sua função paterna.

De acordo com o pensamento do grupo, a conversa do aluno com a professora pode significar um “pedido de socorro”. Esse termo vem carregado da idéia de que a droga pode ser considerada um perigo iminente, uma resposta à crise, própria das representações estruturadas na idéia de doença, impregnadas pela cultura higienista. Essa formação ideativa foi fortemente trabalhada nas oficinas anteriores, mas reaparece nos significantes dos professores impregnados pelo discurso hegemônico.

Interessante é que as ações propostas nesse caso foram extremamente significativas, o que mostra que fazer é algo bastante estruturado, porém as sustentações

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desse fazer podem ainda estar arraigadas à uma análise supersticiosa , o que pode comprometer a prática.

Caso 4

Uma matéria do Jornal FT noticiou, que um bar da cidade, que fica muito próximo da escola X e é freqüentado por seus estudantes, é ponto de venda e consumo de drogas. A matéria teve um tom escandalizador. Em um dos trechos da notícia o comentarista da notícia dizia: “Onde vamos parar... Os jovens de hoje em dia só pensam em baderna e

droga e ainda se envolvem na ilegalidade, pouco se importam com a Lei”. Durante os

dias seguintes a publicação, comentários foram feitos pelos estudantes da escola nas conversas de corredor e os professores perceberam, em muitos momentos, os incômodos, risos e chistes relacionados ao conteúdo tratado pelo jornal. Diante dos fatos, a direção dessa escola, juntamente com os professores, debateu o fato e concluiu que o estigma que a escola recebeu era algo que não poderia ficar silenciado. Ficou então resolvido que professores e direção iriam trabalhar o problema, surgindo a dúvida de como fazê-lo.

A análise desse grupo não tem registro escrito, porém tentarei recuperar a percepção do grupo, cabendo destacar que, entre os subgrupos constituídos, esse foi o único composto pelas acadêmicas que participavam do curso como equipe de apoio.

O principal elemento suscitado foi o efeito do estigma estabelecido pelo jornal sobre os alunos não usuários de drogas. Porém a questão era muito maior já que o processo recaiu sobre todo o coletivo escolar, além de ligar o uso de drogas à concepções moralistas, inclusive relacionando consumo de drogas à baderna.

Partindo dessa percepção, a sugestão do grupo foi de atuar na situação por meio de ações que visassem diferenciar usuários de não usuários, fato que, mais uma vez, marginaliza e não resolve as implicações que a matéria suscitou à coletividade escolar. Adotar como meio de ação a distinção entre os dois grupos é, simplesmente, acatar as acusações da matéria e discriminar um grupo para salvar o outro.

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Talvez uma boa alternativa fosse desmascarar os ditos da publicação, trabalhando questões como, por exemplo:

Quem são os jovens de hoje em dia? No que eles se distinguem dos jovens de outras gerações?

Quais os efeitos da ilegalidade?

Como se deu a construção histórica do narcotráfico?

Como foi elaborada a lei de entorpecentes do nosso país e quais suas implicações para sociedade?

Quais os interesses da mídia sensacionalista e moralista, que imprime valores em nossa sociedade?

Após o debate poderia ser sugerida a construção de uma moção de repúdio da escola à matéria publicada.

Vejam que as sugestões acima mencionadas implicariam em um debate profundo e bastante proveitoso para todos os integrantes do espaço escolar, fosse essa uma prática que integrasse a educação sobre drogas no dia-a-dia da escola, um excelente exemplo de uma educação orientada para as relações solidárias, não discriminatórias, entre os diferentes representantes do coletivo escolar, justamente inversa à relação pedagógica tradicional.

A prevenção, enquanto forma de lidar com a questão das drogas no espaço escolar,