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No presente capítulo, conforme anuncio no título, lanço um olhar sobre a encenação cotidiana de Santana da Caatinga, levando-se em consideração que é na ambiência cotidiana que afloram as representações.

Chartier aponta os estudos das representações sociais, como um caminho que leva ao entendimento, e conseqüentemente a elaboração de sentidos que ajudam a construir a realidade, criando “práticas” que dão legitimidade às identidades sociais, pela institucionalização de algumas delas. Neste sentido também escreveu Pesavento:

As representações construídas sobre o mundo não só se colocam no lugar deste mundo, como fazem com que os homens percebam a realidade e pautem a sua existência. São matrizes geradoras de condutas e práticas sociais, dotada de força integradora e coesiva, bem como explicativa do real. Indivíduos e grupos dão sentido ao mundo por meio das representações que constroem sobre a realidade. (PESAVENTO, op cit, p.39)

As representações são tudo aquilo que “fica entre o vivido e o concebido”. A forma como representamos aquilo que vivemos, experimentamos, pensamos, sonhamos, cremos... É a representação de nós mesmos e do mundo. “Tudo passa pela representação: é a placa giratória

entre o passado e o presente, entre vigília e sonho. Assim, embora a percepção do real se oponha ás visões imaginárias, a representação é o constitutivo idêntico e radical do real e do imaginário”. (MORIN, 1986, p. 105-106)

A maneira como as pessoas organizam a realidade dentro de si e as representam, em palavras, ações, formas de ver o mundo e o modo como os conhecimentos e as práticas penetram e se transformam na sociedade são elementos fundamentais na sua cultura e identidade. Enfim, representação “não é uma Cópia do real, sua imagem perfeita, espécie de reflexo, mas uma

construção feita a partir dele”. (PESAVENTO, op.cit, p. 40)

A história de um povo é constituída por um intrigante enredo tecido por condições materiais tangíveis e por um arsenal de representações elaboradas sobre o que você vê o que se sente e o que se imagina que exista no outro extremo do que não se pode

experimentar, testar ou dominar. A realidade se materializa como manifestação de diversas formas de perceber e vivenciar o familiar e o conhecido. (KUYUMJIAN, 2.001, p. 207)

As comunidades quilombolas tiveram um reconhecimento legal do direito à manutenção da sua cultura, seus saberes e fazeres, determinando que o Estado proteja as manifestações culturais. O artigo 215 da constituição brasileira reza que: “O Estado protegerá as manifestações

das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”. O artigo 216 refere-se à proteção pelo poder público dos bens

de natureza imaterial, tais como o jeito de ser, expressar, criar, fazer, viver, dos diferentes grupos que formam a sociedade brasileira, entre eles, as comunidades negras. Ficando também “tombados todos os documentos e sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos

quilombos”.

Essa visibilidade constitucional leva em consideração a cultura, saberes e fazeres destes povos. A sociedade e as relações sociais constituem-se uma malha tecida por múltiplas mãos, onde cada qual, à sua maneira, com toques diferentes e próprios, vem dando seu nó na tessitura do tecido social e cultural, sendo importante perceber cultura como um produto histórico, múltiplo, dinâmico e flexível, fruto de experiências vividas e vidas partilhadas. Nesse caso, recorro a Chartier:

Trata antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. A cultura é ainda uma forma de expressão e tradução da realidade que se faz de forma simbólica, ou seja, admite-se que os que os sentidos conferidos às palavras, às coisas e aos atores sociais se apresentam de forma cifrada, portanto, já é um significado e uma apreciação valorativa. (CHARTIER, Op. Cit, p.)

O cotidiano dessa comunidade é aparentemente tranqüilo, sem a correria cotidiana dos grandes centros, os moradores pessoas modestas, humildes, mas muito hospitaleiras. Nas portas de quase todas as casas, há um banquinho para sentar e “bater papo” ao fim da tarde. Todos se conhecem, sendo em sua maioria parentes entre si, compadres e comadres. Relacionam-se bem. “Ninguém mexe no alheio”, diz o Sr. Guilherme.

Foto nº11. O Sr. Guilherme, morador de Caatinga, sentado na janela de sua casa conversando com os vizinhos, prática constante de seu cotidiano ao final das tardes.

As conversas de fim de tarde nas portas dos vizinhos é um elemento cultural riquíssimo na transmissão de valores, compartilham experiências, partilham dificuldades e anseios. O estar junto é perpassado por experiências diferentes, leituras de mundo diferentes que, entrecruzadas, ganham um novo sentido. Falam de coisas cotidianas, contam causos e narram histórias. Nesse sentido percebo na importância dessas conversas que a um primeiro olhar pode parecer trivial, mas que são relevantes por tratarem de experiências cotidianas, partilharem histórias, sendo esta uma das maneiras pelas quais as pessoas criam suas identidades.

Os catinguenses têm princípios morais, valores, costumes e normas de conduta partilhados entre si, os quais são transmitidos através da educação informal e repassados de

geração em geração, mesmo que ressignificados a partir dessa transmissão. Essa educação informal envolve as ações de transferência de valores, representações correspondentes a aprendizados adquiridos na vivência, na família, no dia-a-dia, nas festas tradicionais. Entre esses valores destaco o respeito e valorização dos laços familiares e de parentesco, a educação dos filhos, a religiosidade, a importância de crêr em um Deus, obediência, honestidade, generosidade, a valorização da história, da terra e do lugar. Valores repassados através de conselhos, das histórias, ensinamentos de pai para filho e nas ministrações religiosas. Essa educação informal é importante na constituição da comunidade, na transmissão das tradições do grupo, tradições estas que são reinventadas, recriadas cotidianamente. Não destaco aqui, a importância desses valores, mas o significado deles para o grupo.

Os moradores desta comunidade têm passado por transformações na forma de se verem e organizarem a vida pós-reconhecimento: Vivenciaram muitos projetos, parcerias e realizações e criaram a Casa da Cultura para guardar e divulgar sua história, percebendo a força desta na questão identitária. Neste espaço de preservação da memória local, pode-se perceber o novo e o velho coexistindo, como por exemplo, exposição de objetos antigos da cultura local e objetos mais novos como computadores. Exposição de fotos de pessoas importantes na história local, sendo eles, patriarcas e também mulheres que assumiram papel de fibra, como Dona Balbina e tantas outras, ancestrais dos remanescentes que lá residem. Objetos antigos, relíquias de família, reunidos hoje neste ambiente de materialização da história.

Foto nº12: painel de fotos de momentos e pessoas importantes da localidade na sala de entrada da Casa da Cultura. Na foto nº13: procurei registrar uma prateleira onde colocaram expostos vários objetos utilizados no cotidiano. Fonte: Arquivo pessoa, organizado durante a pesquisa.

Na mesma casa, biblioteca há uma biblioteca, uma sala de vídeo e também uma sala digital com vários computadores à disposição da população, principalmente dos jovens. Pode-se perceber a preocupação de preservar o passado, sem perder de vista o futuro.

Os catinguenses são herdeiros de um patrimônio cultural construído ao longo da história na localidade, bem como da convivência com o cerrado e tudo aquilo que ele oferece, sendo este espaço sumamente importante na manutenção dos costumes. “O espaço molda coercitivamente

os hábitos e os costumes do dia-a-dia.” (MAFFESOLI, op.cit, p. 62). O homem em contato com

o meio, cria um modo de vida próprio.

Na busca de sentidos e na vivência diária, o homem “inventa o cotidiano”, diz Certeau (1994), graças à “artes do fazer”. Assim, herdeiros de uma história, homens e mulheres diante das dificuldades da vida vão inventando seu cotidiano e buscando encontrar “maneiras de fazer”, alternativa para melhorar a sua qualidade de vida. Pessoas simples, aparentemente sossegadas, são capazes de “colocar em uso uma arte de viver que passa pela improvisação e negociação. É

a inventividade do ‘mais fraco’ em ação.” (DEL PRIORE, 1997, p. 273) Assim, pode-se

observar que mesmo com as dificuldades, esses remanescentes alimentados pelos sonhos, estão buscando encontrar novos rumos, embora os “projetos sejam muitos, os recursos nem tanto”. (ALAVANCA) Eles procuram continuar trilhando, sem contudo, perder de vista as questões identitárias e históricas.

Só gente boa no mutirão da reviravolta, somando esforços em busca dos objetivos traçados pela comunidade. Reunião e mais reuniões. E mãos a obra. O resultado não poderia ser outro. Como conta na história bíblica da multiplicação dos pães, as realizações, de vários naipes, se multiplicaram: construção do espaço cultural OICINARTES com três lindos ranchos para capoeira, artesanato e outras manifestações culturais; curso de artesanato em barro, curso de doces e salgados, de frutos de cerrado, aulas de capoeira, reforma de telhado de casas antigas, construção dos suportes de lixeiras, entre outros. Só quem participou sabe quanto sacrifício foi despendido, em cada dia de trabalho, com muito suor e amor. E não foi fácil e do que antes não se via, agora, até o pior cego não pode deixar de ver. Muita coisa boa acontecendo... Já se produzem obras de arte em caatinga. Doces, salgados e biscoitos já se vendem por aqui. O som do berimbau e as batidas do atabaque, cadência que marca o gingado dos nossos capoeiristas, ecoam em caatinga e resgatam lembranças históricas para essa gente guerreira, remanescente de quilombo... E os produtos DU QUILOMBO nascem com tudo pra dar certo: a dosagem exata da paciência, a técnica e o capricho dos artesãos nas suas criações; a mistura perfeita dos segredos, ciência e arte das cozinheiras, na lida com os temperos e sabores inconfundíveis dos frutos do cerrado, tudo numa temperatura ideal para que se possa sentir a força, a garra e o valor dessa gente de fibra. 86

86 Jornal: O catinguense. Ano 1 nº3 P. 01

Essa afirmação e valorização advêm de várias maneiras. Estão buscando, lendo de diversas maneiras os acontecimentos e seus desdobramentos. Na narrativa da ALAVANCA, expressa no jornal “O Catinguense,” pode-se perceber a valorização da cultura e a reinvenção na arte do fazer, passando pelo presente, passado e projetos em relação ao porvir que os levam a delinear a sua história, orgulhando-se dela.

No próximo item, lanço olhares sobre as modalizações do cotidiano procurando fazer uma leitura sobre as mesmas.

2.1 - Modalizações do Cotidiano: A lida com a terra, trabalho, festas,