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Práticas das professoras em relação ao ensino das Ciências

Da descrição à explicação

Actividade 7: Será que todos acendemos a lâmpada?

5. Condições referidas pelas professoras para a

3.2.3 Análise das entrevistas

3.2.3.1 Práticas das professoras em relação ao ensino das Ciências

Objectivo: Conhecer melhor as professoras e as suas práticas para poder avaliar

melhor a progressão e/ou o impacte da sessão nas crianças e nelas próprias.

a) Formação inicial em Didáctica das Ciências para o 1º CEB

Relativamente à formação inicial, três professoras (Lara, Rita e Verónica) afirmam que não tiveram formação em Didáctica da Ciências para crianças, apenas formação científica para si próprias, conforme se pode observar nos excertos seguintes:

…quando eu entrei para o magistério eu tinha ido da escola comercial, e na escola comercial eu tinha experiências… (P20) Para crianças não, mas tinha-as eu como adulto e pronto, posso chegar ao nível deles e dar-lhes assim umas noções (…) (P21)

A maior parte das disciplinas que eu tive durante a formação eram teóricas e não relacionadas com aquilo que iríamos fazer (…) daquilo que as crianças precisavam e esperavam… era quase tudo um pouco de formação para nós… (Verónica, P36) “Tive ciências, mas tudo formação para mim, praticamente. (Verónica,P39)

A esse nível nós não tivemos praticamente formação nenhuma. Foi através dos livros, dos manuais que nos davam. A nível prático não tivemos praticamente formação nenhuma. (Rita, P29)

Tendo a professora Lara terminado a sua formação inicial há quase 30 anos e considerando que em Portugal só em 1975/76 é que a área das ciências apareceu, pela primeira vez, contemplada no currículo do 1º Ciclo EB, não nos surpreende que a sua formação inicial não tivesse tido esta componente. Contudo também é possível constatar

(…) depois eu não tive mais formação nenhuma, foi aquilo que eu aprendi e que dei nos livros e que vejo que são experiências que são interessantes para os miúdos. (P21)

No caso da professora Rita e da professora Verónica, que terminaram o seu curso em 2002, é preocupante o facto de afirmarem que a sua formação inicial não contemplou a Didáctica das Ciências para o 1º CEB, reduzindo a formação em ciências, à formação científica dos alunos futuros professores.

Quanto à professora Gracinda, teve na sua formação inicial Didáctica das Ciências, considerando essa formação um factor decisivo para ser capaz de desenvolver actividades de ciências com as crianças, conforme se pode constatar no seu discurso:

“Se eu não tivesse tido Didáctica das Ciências, não sabia como fazer com eles.” (Gracinda, P28)

Por outro lado, através do seu testemunho em relação às suas práticas de sala de aula (Dimensão de análise 1), constata-se, que no ano de estágio realizou várias actividades no âmbito das ciências (ver descrição das actividades no Anexo 4, Quadro II).

Face a este défice de formação no que respeita à Didáctica das Ciências prevê-se, que o facto de participarem em sessões como a desenvolvida, lhes permitirá contactar com estratégias e recursos inovadores que poderão ser úteis para futuras práticas de sala de aula. Por outro lado, e como alerta a professora Sílvia (P32), pode ser perigoso, na medida em que as professoras, não tendo formação específica nesta área, podem pensar que as crianças ao realizarem as actividades da sessão já ficam com os temas abordados e que em sala de aula já não será necessário retomar o assunto de forma mais sistematizada.

b) Actividades que tenham desenvolvido antes da sessão e como

De uma maneira geral, evidencia-se que as ciências físico-naturais são pouco abordadas na sala de aula. Deste modo, e relativamente ao ano de 2003/2004, até às sessões de actividades realizadas entre 31 de Abril e 15 de Maio, duas professoras ainda não tinham desenvolvido nenhuma actividade curricular no âmbito das ciências (Rita e Lara) e três tinham desenvolvido apenas uma actividade. Assim, a professora Gracinda

trabalhou sobre vulcões, a professora Sílvia sobre os sentidos e a professora Verónica sobre a permeabilidade de solos.

Em relação a anos anteriores, apenas se pode considerar duas das professoras (Lara e Sílvia) dado que as outras três, no ano lectivo no qual o estudo se realizou, encontravam- se a iniciar o seu primeiro ano de serviço (Rita, Gracinda e Verónica).

A professora Rita diz que “é muita matéria” e nesta altura (final do ano lectivo) “eles já estão muito cansados”. Por isso, deixou para o fim as experiências a fim de “aliviar mais um bocadinho” (P15). Por outro lado, pretendia acompanhar o manual de Estudo do Meio. Desta forma, até ao momento, não tinha desenvolvido nenhuma actividade experimental em sala de aula. Revela a ideia de que as ciências não são tão importantes como as restantes áreas, parecendo que não fazem parte da “matéria” a dar e que não é tão séria.

Quanto à professora Verónica, esta afirma que durante aquele ano lectivo (o primeiro da sua carreira) ainda não tinha feito muitas experiências, relatando que a única que tinha desenvolvido até ao momento tinha sido sobre as características dos solos (permeabilidade, textura e cheiro).

A professora Gracinda, durante o seu estágio, fez actividades com as crianças sobre as chuvas ácidas, sobre os seres vivos - animais (actividades de classificação) e plantas (actividade prática do tipo investigativo) e sobre as células animais e vegetais (observação ao microscópio).

Durante a descrição das actividades que desenvolveu fez referência:

- às ideias prévias e/ou previsões das crianças: “O que eles sabem, o que eles não sabem…” (P11); “O que é que eles achavam que ia acontecer” (P12)

- à carta de planificação:

“…aqueles quadros… de registo, mas é aquilo que nós mudamos as variáveis” (P12)

- ao registo dos dados:

Este ano lectivo (também para ela o seu primeiro ano de serviço), desenvolveu actividades sobre os vulcões. Partiu das ideias das crianças, visionaram um filme sobre os vulcões, elaboraram cartazes sobre o que aprenderam, fizeram uma experiência com a intenção de ilustrar a erupção de um vulcão, embora, na realidade, o que a experiência pode ilustrar é uma reacção química entre o hidrogenocarbonato de sódio e o ácido acético.

A professora Lara, numa fase inicial diz que este ano não tinha desenvolvido nenhuma actividade experimental, visto que tinha dois anos de escolaridade (1º e 3º) na mesma turma (P26 e P27). Contudo ao ser questionada em relação a anos anteriores em que só teve um ano de escolaridade, argumenta que as coisas do Estudo do Meio são tão simples que não é necessário experimentar, conforme se pode observar:

… a nível de Estudo do Meio também são coisinhas tão simples que (…) embora fossem interessantes serem experimentadas, mas quase que, só teoricamente, eles também já vão apanhando” (A35)

Acrescenta ainda que apenas fazia esporadicamente experiências que vinham no manual de Estudo do Meio e que eram sugeridas pelos alunos:

Cheguei a fazer uma ou duas… que vinham no Estudo do Meio, até sugerido pelos próprios alunos (P29)

Relata algumas das experiências avulsas que desenvolveu em outros anos em sala de aula, onde podemos constatar, inclusivamente, abordagens que podem levar à construção de ideias incorrectas pelas crianças, tal como se ilustra a seguir:

…lembro-me que acho que era do 4º ano para ver a flexibilidade dos ossos, em que um miúdo trouxe de casa um osso de galinha e depois pusemos dentro dum frasco com vinagre e passado um dia, ou vários dias, não tenho ao certo… fomos ver que o osso que estava mole… e chegámos à conclusão que o osso era poroso e o vinagre que o conseguiu por daquela maneira. (P29)

…estou-me a lembrar agora, fizemos no ano passado uma muito gira… foi com vinagre…o que é que eu coloquei dentro da garrafa? Vinagre e soda e encheu o balão… (P48).

Argumenta que faz esporadicamente actividades experimentais em sala de aula, porque as outras áreas disciplinares são mais importantes e, como tal, tem menos interesse nisso:

…porque eu acho que…como é que eu hei-de dizer… eu acho importante e é, ler, escrever e fazer matemática, portanto, aliás são as nucleares, não é? (P30)

Também posso dizer e…perfeitamente que também da minha parte poderá não haver assim um interesse muito grande, pronto pelo facto de estar mais preocupada em que eles aprendam a ler e a escrever e saibam fazer matemática. Também não vou dizer que a culpa é só das… que só são os miúdos que não se interessam, eu também tenho a minha quota parte de culpa. (P32)

Não é muito importante e a gente deixa… (P33)

Relata que, a nível de Estudo do Meio, o que costuma fazer são “… aulas muito teóricas, com resumos e coisas assim no género.” (P18) e que os alunos não se interessam muito pela área de Estudo do Meio.

… para os conseguir motivar a estudar (…) Estudo do Meio tenho que lhes dizer as páginas, tenho que fazer aqui imensas aulas de estudo acompanhado, tenho que fazer resumos, tenho que fazer testes ou de revisões, em que eu ponho desenhos, em que eu ponho perguntas, eles primeiro fazem… depois vocês agora vão pesquisar… para os incentivar a estudar, a estudar no mínimo, porque eles não querem saber da disciplina de Estudo do Meio para nada.(P35)

Relativamente à falta de interesse descrita anteriormente e ao elevado interesse manifestado pelas mesmas crianças durante a sessão, a professora começa a questionar a sua prática:

…olha eu não sei… Se calhar o problema nem será bem deles, será meu…sei lá, não faço ideia… (P36)

Isso também foi notório quando fez referência a uma iniciativa que o agrupamento onde esteve no ano lectivo anterior promoveu e que consistia em quinzenalmente fazerem uma actividade proposta por uma professora do agrupamento destacada, para o efeito, no âmbito do Ciência Viva:

…a colega trazia uma experiência, trazia folhas sobre a experiência, nós líamos, fazíamos a experiência com os alunos na sala, fizemos pão, fizemos a fermentação do leite para fazer o iogurte (…) era assim numa semana ela deixava ficar os elementos, nessa semana nós fazíamos a experiência, os miúdos registavam numa folhinha quais os materiais, como é que se fazia a experiência e depois os resultados da experiência. E depois ela na outra semana vinha, vinha falar connosco, … (P47)

Estas actividades eram avulsas e surgiam de forma descontextualizada. Assim que terminavam a actividade passavam para a abordagem de outra área sem haver ligação com o que tinham estado a fazer anteriormente. A professora Lara tem noção de que não deveria ser assim e ao longo da nossa conversa vai-se consciencializando da necessidade de formação nesta área:

… Portanto, fazia a experiência ali e depois… (P51) …depois continuava (…) embora eu soubesse que deveria ser assim eu não fazia. E que é isso que está errado também da nossa parte, não é? E é isso que nós temos que saber, ou temos de nos adaptar a isso, é que dali temos de partir para outros sítios… mas é como eu digo, sei lá, eu acho que faz-me falta o Complemento de Formação. Eu estou-me a começar a aperceber de que me faz falta. (P52)

A professora Sílvia diz que, durante aquele ano lectivo, até ao momento em que participou neste estudo, tinha desenvolvido com as suas crianças apenas uma actividade sobre os sentidos, acrescentando que não se tratava de uma actividade da mesma natureza daquelas que tínhamos feito no laboratório:

Com estes meninos, este ano (…) fizemos sobre os cinco sentidos, mas não foi assim parecido com isto porque era mais… não tinha a parte do pensar antes para fazer depois…(P19)

Menciona algumas actividades de ciências que desenvolveu com as crianças em anos anteriores, nomeadamente sobre animais e plantas, sobre as rochas, sobre a permeabilidade dos solos e sobre a flutuação.

Em relação à actividade das rochas, construiu um kit didáctico com algumas amostras de rochas e utensílios para testar algumas das suas propriedades:

… algumas amostras de rochas que eu consegui arranjar e depois estiveram a fazer os registos conforme os diferentes critérios: o peso, o estado de divisão, a dureza, onde é que as podemos encontrar… ( P20)

Na descrição da actividade da permeabilidade, revela ter atenção a alguns aspectos importantes:

- às ideias prévias das crianças:

… primeiro fizeram o registo daquilo que pensavam que ia acontecer, em qual deles é que ia passar mais água para o copo… (P21).

- ao controlo de variáveis:

E eles tinham de fazer passar a mesma quantidade de água, verter para os três funis ao mesmo tempo… (P21).

No relato da actividade da flutuação pode constatar-se que a actividade foi feita tendo em conta uma contextualização relacionada com as vivências das crianças:

…fomos a uma visita, no primeiro ano em Lobão, a uma fábrica de cortiça (…) surgiu falar da cortiça, as características da cortiça (…) E então por causa da cortiça ser leve, de flutuar… fizemos sobre a flutuação. (P22)

Através da análise das informações disponibilizadas pelas professoras podemos constatar que duas das professoras (Gracinda e Sílvia) apresentam nas suas práticas alguns aspectos que consideramos relevantes no ensino das ciências nos primeiros anos, nomeadamente, partir das ideias prévias das crianças, realizar as actividades de forma contextualizada, registo de dados, controlo de variáveis, recurso à carta de planificação no desenvolvimento de actividades de trabalho prático do tipo investigativo.

Duas professoras revelam explicitamente que seguem o Manual escolar (Rita, Lara), por isso as actividades no âmbito das experiências só se desenvolvem no final do ano e se houver tempo. Essas actividades são as propostas pelo manual escolar

Podemos também verificar que a deficiente formação das professoras, quer a nível de conhecimentos científicos, quer didácticos, leva a que, ingenuamente, desenvolvam actividades cujo processo e resultados remetem para a construção de ideias erradas pelas crianças.

Há uma clara desvalorização da área de Estudo do Meio em relação às restantes áreas, em particular no que concerne às ciências físico-naturais e isso é bastante notório pelo número de actividades experimentais realizadas no 1º CEB ao longo do ano lectivo, como podemos confirmar com os extractos do discurso das professoras anteriormente mencionados. Para além desta constatação implícita no número de actividades desenvolvidas, duas das professoras (Rita, Lara) afirmam explicitamente uma maior valorização da Língua Portuguesa e da Matemática (Saber ler, escrever e contar) face ao Estudo do Meio.