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Práticas de Letramento: O Contexto Familiar

1. CONCEPÇÕES DE LETRAMENTO

1.2 Práticas de Letramento: O Contexto Familiar

Através do contato diário com alunos, mais especificamente no contexto escolar do que fora dele, observando suas práticas, percebi não ser mais suficiente deter-me na observação da sala de aula. Assim, compreendi que as atividades por mim desenvolvidas com os alunos em sala, ou seja, minhas práticas, denominadas escolares, por acontecerem dentro da escola, pareciam não condizer com a cultura de letramento trazida de casa por eles.

Passei, então, a me interessar em conhecer, investigar as práticas do aluno fora da escola e tentar compreender como se dão as relações entre elas e as práticas de letramento dos alunos desenvolvidas na escola, denominadas, neste trabalho, como práticas escolares, conforme colocado anteriormente.

Antes de prosseguir, convém acrescentar a diferença entre eventos de letramento e práticas de letramento, esclarecendo como acontecem os dois modos num determinado contexto, impossibilitando, dessa forma, interpretações outras que fujam do real objetivo deste trabalho: investigar práticas de letramento em algumas famílias do bairro da Liberdade.

Conforme Marcuschi (2001), foi Heath (1983) quem primeiro usou a noção de

evento de letramento, entendendo-se, com isto, “qualquer ocasião em que uma peça

de escrita integra a natureza das interações dos participantes e seus processos interpretativos”. No entanto, para Barton (1991), eventos de letramento são “atividades particulares em que o letramento exerce um papel: costumam ser atividades regularmente repetidas”.

Na realidade, trata-se de atividades advindas de práticas, repetidas em contextos reais e específicos, desenvolvidas pelas pessoas, mas que diferem das práticas de letramento, porque variam de acordo com as condições onde o evento acontece. Pode-se tomar, como exemplo, a comunidade na qual o evento se dá, os participantes, o grau de familiaridade deles com tais práticas, o momento em que acontece, como acontece.

Ainda segundo Marcuschi (2001), para Barton e Hamilton (2000, p.8), eventos

de letramento são, em geral, “atividades que têm textos escritos envolvidos, seja

para serem lidos ou para se falar sobre eles”. Acrescenta Marcuschi que se pode considerar uma carta pessoal como um evento de letramento, por exemplo.

Continua o autor que, ainda para Barton e Hamilton (2000, p.8), eventos são “episódios observáveis que emergem de práticas e são por elas moldados”. Marcuschi afirma, a seu tempo, que o evento de letramento, pelo fato de ser um evento, reforça sua característica de ser situado, sendo também eventos comunicativos auxiliados por textos escritos.

No tratamento do que sejam práticas de letramento, Marcuschi (2001) apresenta a noção segundo Barton (2000), referente aos “modos culturais gerais de utilizar o letramento que as pessoas produzem num evento de letramento”, seguindo a mesma linha de pensamento de Street (1984). Neste sentido, Marcuschi (2001) acrescenta ser as práticas de letramento modelos por nós construídos para os usos culturais em que produzimos significados na base da leitura e da escrita, como reforça Street (1984).

Nessa perspectiva das práticas de letramento gira o trabalho aqui apresentado, pois considero salutar observar as atividades de leitura e de escrita também como práticas sociais, pois as pessoas não lêem por ler e nem escrevem por escrever. Elas realizam tais atividades de acordo com suas necessidades ou, até mesmo, como uma opção, entre outras, para atingir um dado fim de comunicação, num determinado ambiente sociocultural e por ele condicionado.

Frente ao exposto, comecei a notar que até a então rotina da minha prática pedagógica, passou a me causar um “estranhamento”. Conforme César (2001), é comum falar sobre o “estranhamento” no sentido de distanciamento, alheamento, como resultante de uma posição particular do etnógrafo, uma posição nas fronteiras entre “estar inserido” e, ao mesmo tempo, “ser de fora”: o “olhar estrangeiro”.

Dessa forma, com o auxílio de leituras de muitos teóricos, esse estranhamento transformou-se em uma questão de pesquisa, cujas angústias e questionamentos, talvez, pudessem encontrar “respostas” no contexto social, e, de forma mais direta, na família.

Considerando que o letramento ocorre em contextos específicos, a fim de buscar informações acerca das práticas de letramento dos alunos e alunas da minha turma, passei a observar o contexto familiar, no qual poderia manter um contato direto e prolongado com os alunos e seus familiares (os colaboradores da pesquisa), tentando descrever, na medida do possível, as pessoas, as situações, as práticas, os diálogos e os ambientes.

Julgo relevante colocar que, acerca desse ponto de vista, para Marcuschi (2001), em cada um desses contextos as ênfases e os objetivos do uso da escrita são variados e diversos, sendo interessante o papel da escola em saber mais sobre essa questão para enfrentar sua tarefa com maior preparo e poder, bem como possibilitar a orientação na seleção de textos e definição de níveis de linguagem a trabalhar.

Compreendo como necessário sabermos mais sobre os processos de letramento, ou seja, sobre a escrita na sociedade, nos diversos contextos, pois todas as pessoas, mesmo as não-alfabetizadas, estão expostas a um ambiente lingüístico no qual entram em contato com estratégias da escrita.

Tal posicionamento leva-me a considerar as atividades de leitura e escrita como dependentes dos “determinantes culturais e sociais”. Nesse sentido, tomo a dimensão social do letramento, cujo enfoque está nos usos da leitura e da escrita no contexto social.

Segundo Mortatti (2004), leitura e escrita são consideradas atividades puramente sociais, as quais variam no tempo e no espaço e dependem do tipo de sociedade, assim como dos projetos políticos, sociais e culturais norteadores de tais contextos. Em sua dimensão social, a autora aponta o letramento como um conjunto de práticas sociais nas quais os indivíduos se envolvem de diversas maneiras, considerando as demandas do contexto social e das habilidades de que dispõem. Nesse sentido, reconhece a inexistência de um único tipo de letramento, considerando ser mais viável compreendê-lo como um continuum.

Penso que, no contexto social, essas práticas representam experiências vividas pelas pessoas, por isso é importante advertir a necessidade da escola

observá-las mais de perto. As experiências de leitura e de escrita fora da escola farão parte, portanto, das experiências de leitura e escrita dos alunos na escola.

Se a escrita refere-se a questões de poder e dominação numa sociedade, vejo, nesta pesquisa, a relevância de tomar as práticas de letramento familiares como objeto de estudo, de forma a poder descrevê-las. Mesmo porque, nesse contexto, trocas são realizadas por meio da interação dos elementos da família e os alunos e alunas se constituem como sujeitos que lêem e escrevem.

Passo, agora, a trabalhar com os registros de campo, a partir dos quais farei a descrição do cenário e dos colaboradores de pesquisa. Além disso, abordarei um pouco da história do bairro da Liberdade e da Escola Abrigo Filhos do Povo, culminando na descrição das minhas experiências como pesquisadora, sob o título de Na trajetória do Pesquisador. Em seguida, faço a descrição das famílias visitadas, bem como a análise dos eventos observados, sob o título Retratos de

família em 3x4 e Interação e reflexão: uma análise dos eventos de letramento,

respectivamente.