Este capítulo busca apresentar a diversidade de práticas relacionadas ao uso dos agrotóxicos desenvolvidas pelos agricultores familiares na região de Barbacena. Nosso objetivo, aqui, é descrever e analisar como os agricultores familiares organizam essas práticas em sua vida cotidiana e como constroem quadros de interpretação e relações sociais, conformando realidades estáveis que possibilitam a continuidade e ajuste destas práticas, mas, também, rupturas e transformações. Dedicaremos especial atenção a quatro práticas específicas: comprar, guardar, preparar a calda e pulverizar.
Apresentamos, inicialmente, a metodologia empregada no trabalho de campo e como esta influenciou a relação entre a pesquisadora e os pesquisados. Descreveremos, a seguir, as unidades produtivas dos agricultores familiares, algumas características das famílias entrevistadas, seus sistemas produtivos e suas formas de organização do trabalho. Como se compreende nessa dissertação, as práticas associadas aos agrotóxicos não são instâncias independentes. O estudo da prática não trata da prática em si, mas de uma série de outros elementos aos quais as práticas se conectam. As práticas estudadas nesta dissertação são entendidas como estando imersas em uma matriz de significados que envolve o que é ser um agricultor familiar, o que se espera de uma lavoura de olerícolas, quais são as condições importantes associadas ao cultivo dessas plantas, quais são as tensões envolvidas no uso dos agrotóxicos, como interpretar um conjunto de regras e normas relacionadas ao uso seguro, entre outros elementos.
Por fim, um aspecto importante trabalhado nesse capítulo é que as práticas associadas aos agrotóxicos e a elaboração de quadros de interpretação não são sempre coerentes, refletem, na verdade, as muitas incertezas que atravessam o cotidiano dos agricultores.
3.1- Entrando no campo: mediadores e atores-chave
No começo deste trabalho eu só conhecia quatro pessoas na região de Barbacena: Luciano, atual diretor do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Desterro do Melo (SindMelo), Henrique atual diretor do SINTER e meus amigos Ciro e Filipe. Ressalto que ainda que estes Sindicatos tenham no nome uma referência a municípios específicos, é importante ter em mente que sua base sindical e suas atividades contemplam diversos municípios, o que evidenciou para essa pesquisa a importância da “região” como uma referência.
Henrique e Luciano foram, inicialmente, meus primeiros informantes em função do trabalho que tive a oportunidade de desenvolver no âmbito do NINJA, na identificação do caso de conflito ambiental envolvendo a empresa Brazil Flowers, descrito no Capítulo 2. Realizei entrevistas semiestruturadas com os dois dirigentes sindicais, que em muito contribuíram para que eu pudesse compreender melhor a trajetória do conflito e seus desdobramentos na região.
É importante pensar aqui sobre esses atores, que nos dão as primeiras pistas e possibilitam os primeiros movimentos no campo de pesquisa, considerando que os rumos do trabalho poderiam ter sido outros, caso eu tivesse estruturado meu trabalho de campo a partir do contato com outros atores. Como observa Law (1994) em seu livro Organizing Modernity, no acesso ao campo não importa o que você conhece mas quem você conhece. Na verdade, o autor destaca que existe uma relação entre o que você conhece e quem você conhece. No caso desta pesquisa o principal interesse era o de compreender a relação dos
91 agricultores familiares com os agrotóxicos no contexto empírico estudado, mas eu não tinha, a princípio, acesso direto aos agricultores familiares. Eu conhecia apenas os dirigentes dos Sindicatos.
No início tive certa dificuldade de aceitar que esses seriam os atores-chave, pois me preocupava o fato de que eles poderiam me conduzir em uma direção específica, influenciando os resultados da pesquisa. Através das reflexões realizadas por ocasião da primeira etapa do trabalho de campo e a partir das discussões que surgiram em diálogo com a banca que participou do exame de qualificação, pude compreender que a entrada ao campo sempre acontece por certa direção. A partir de um primeiro contato com o campo, o pesquisador aos poucos tece novas relações que possibilitam traçar seus próprios caminhos de acordo com o objetivo da pesquisa. No início, como eu conhecia poucas pessoas eu fui muito guiada pelos diretores sindicais, mas fui conhecendo novos agricultores que, por sua vez, também me apresentavam para outros produtores e mencionavam técnicos agrícolas importantes. Nesse processo pude, aos poucos, explorar outros campos de relações, para além da rede do SINTER. Também foi importante seguir pistas que pudessem colaborar para a pesquisa, como realizar visitas ao Instituto Federal de Barbacena, à Biblioteca Pública Municipal, ao Jornal Cidade de Barbacena.
Berreman (1980) em seu texto, Por detrás de muitas máscaras, discute a entrada no campo a partir de um trabalho de pesquisa realizado em uma aldeia camponesa do Baixo Himalaia, na Índia Setentrional. Quando iniciou sua pesquisa o autor contava com a colaboração de um intérprete que se relacionava melhor com as castas altas da tribo pesquisada, devido a sua participação em um grande projeto de pesquisa anterior realizado na região. Esse interprete adoeceu em plena realização do trabalho de campo, o que fez com que Berreman ficasse extremamente preocupado com a continuidade da pesquisa, pois não teria mais o mesmo acesso ao grupo pesquisado. Nesse meio tempo encontrou um novo colaborador que, ao contrário do primeiro, tinha uma ótima relação com as castas baixas, o que permitiu que Berreman pudesse transitar em espaços antes desconhecidos. Como mostra o autor na passagem abaixo, cada interprete, informante ou ator-chave conduz a uma direção e a diferentes regiões interiores:
Mas, para os indivíduos de casta baixa, a região interior -a parte a ser ocultada- é bem menor do que para os indivíduos de casta alta. Não se sentem obrigados a proteger os segredos na mesma medida em que os indivíduos de casta alta os protegem, simplesmente porque seu prestígio e a sua posição não estão ameaçados. Não compartilham, ou não estão fortemente comprometidos com os “valores oficiais comuns”, que os indivíduos de casta alta exibem frente aos estranhos. Os homens de casta alta, por exemplo, cuidavam em ocultar o fato que, nessa sociedade, os irmãos podem ter relações sexuais com as esposas dos demais irmãos. Contudo um homem de casta baixa, que listara para o etnógrafo o nome e a aldeia de origem das mulheres de sua família, inclusive de sua mulher, e das mulheres de seus irmãos, não ficou embaraçado ao comentar, quando lhe foi perguntado qual delas era sua esposa:
“Todas são como esposas para mim.” (BERREMAN, 1980, p.153).
As reflexões de Berreman permitem perceber como cada ator-chave atua como um mediador ligando o pesquisador a determinados grupos. Esses grupos têm aspectos de sua vida que podem ser revelados e outros que não poderiam, na visão dos sujeitos pesquisados, se tornar visíveis ao pesquisador. Assim também é o etnógrafo. Nas palavras do autor:
De toda forma, o etnógrafo se estará apresentando de certa maneira a seus informantes durante a pesquisa e ocultando deles outros aspectos seus. Os
92 informantes estarão agindo da mesma maneira. Isto é inerente a qualquer interação social. (BERREMAN, 1980, p.143).
Pela preocupação que o tema agrotóxico pudesse causar nos agricultores familiares certo distanciamento e/ou constrangimento, em uma relação que ainda estava a se fazer, o agrotóxico foi incluído na agenda de conversas com os agricultores, como elemento vinculado a um conjunto mais abrangente de práticas relacionadas à agricultura. Durante o trabalho de campo eu me apresentava para os agricultores familiares como estudante de mestrado e pesquisadora, vinculada à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro através do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e explicava que eu estava realizando um trabalho sobre a agricultura familiar da região e que minha pesquisa tinha como objetivo conhecer as experiências dos diferentes tipos de agricultores familiares no manejo de seus sistemas produtivos e na prática da agricultura de modo geral. A temática do agrotóxico foi se desdobrando a partir daí, ou seja, pelo interesse às atividades cotidianas, o plantio, a colheita e a comercialização dos produtos.
Entre os medos, no SINTER conheci o primeiro agricultor familiar com quem tive a oportunidade de conversar e que contribuiu enormemente para essa pesquisa, o Júlio. Nessa oportunidade, contei a Júlio sobre minha pesquisa e meu interesse pela agricultura familiar da região. Ele me disse que se eu quisesse saber algo sobre a lavoura dele, eu teria que ir até lá e conversar com ele e Ângela, sua esposa, pois ambos são responsáveis por todo o trabalho na unidade produtiva. A partir daí estabeleci uma relação com este agricultor, peguei seu telefone e fui visitar a unidade produtiva da família.
Conhecer pessoas é uma tarefa delicada, principalmente quando uma das atividades envolvidas é visitar suas casas e seu ambiente de trabalho o que, no caso dos agricultores familiares, é quase a mesma coisa. Nessa relação entre pesquisador e pesquisado são importantes algumas ressalvas. Berreman (1980) destaca o “controle de impressões”. Esse controle pode ser caracterizado como uma espécie de avaliação que os sujeitos fazem uns sobre os outros.
Uma avaliação recorrente que as pessoas faziam sobre mim é que eu deveria ser uma pessoa maluca de sair por aí com uma mochila nas costas visitando comunidades rurais, o que me foi dito em várias ocasiões. Acredito que essa percepção tenha ajudado minha entrada no campo, no sentido que as pessoas me viam como muito corajosa e, de certa forma, desamparada, o que criava uma relação de empatia e fazia com que se sentissem dispostas a me ajudar. Acho que outra impressão valiosa que os agricultores familiares tinham sobre mim é que eu era uma “filha” e que as filhas deles poderiam, em alguma outra situação, precisar de ajuda como eu agora precisava. Berreman (1980) faz, sobre isso, uma consideração interessante:
Provavelmente, a reação inicial dos sujeitos ao etnógrafo que os estudará será sempre uma tentativa de identificá-lo em termos familiares; de identificá-lo como ator de um papel familiar. As impressões que dá determinarão a maneira como será identificado (BERREMAN, 1980, p.145).
Manter-se afastado e ao mesmo tempo próximo é também um recurso etnográfico que permite perceber que o que se absorve do outro é também aquilo que somos. Como nos sugere Geertz (1973) a etnografia envolve colocar o foco nas experiências da vida cotidiana do grupo em que se deseja conhecer. “Conhecer o outro” não implica reconhecer a ação do outro como um mero reflexo daquilo que eles pensam, sentem ou acreditam. O que se espera, na verdade, é compreender os aspectos da vida cotidiana
93 como movimentos ativos, como organizadores de sensibilidades, deixando claro que, pesquisadores, não podem acessar tais sensibilidades de uma maneira direta.
Ainda sob essa ótica, Geertz (1973) reflete que o trabalho etnográfico envolve a cultura de um povo, sendo que “a cultura de um povo é um conjunto de textos, eles mesmos conjuntos, que o antropólogo tenta ler por sobre os ombros daqueles a quem eles pertencem” (p. 212). A autorreflexão permite assim repensar que o que se aprende sobre algum grupo não é de fato o que eles são, mas aquilo que se pode ler sobre seus ombros de acordo com o que nós somos. Nas palavras de Geertz:
Existem enormes dificuldade em tal empreendimento, abismos metodológicos que abalariam um freudiano, além de algumas perplexidades morais. Esta não é a única maneira de se ligar sociologicamente com as formas simbólicas. O funcionalismo ainda vive e o mesmo acontece com o psicologismo. Mas olhar essas formas como “dizer alguma coisa sobre algo”, e dizer isso a alguém, é pelo o menos entrever a possibilidade de uma análise que atenda à sua substância, em vez de fórmulas redutivas que professam dar conta dela (GEERTZ, 1973, p.213).
A referência às ideias de Geertz (1973) tem aqui como objetivo muito mais propiciar uma reflexão sobre o fazer etnográfico do que subsidiar, de fato, uma estratégia metodológica. A etnografia na concepção de Geertz (1973) se associa a ideia de um todo, ao reconhecimento de uma cultura representativa de um grupo, uma totalidade que representa um povo ou uma cultura. Nesta dissertação não foi possível pelas condições limitadas de tempo buscar esta totalidade. Não pesquisar o todo não implica pesquisar fragmentos descontínuos (Magnani, 2009). As partes de um todo podem ser compreendidas como microcosmos ou analogias do todo (Clifford, 2002).
A presente etnografia compartilha das ideias de Geertz (1973) no sentido que a experiência etnográfica está intimamente ligada à interpretação. Todavia, se a partir dessa estratégia Geertz (1973) busca alcançar a cultura de um povo, o que se faz nesse trabalho é uma interpretação de contextos singulares (Clifford, 2002), que associados às reflexões teóricas adquirem um significado mais profundo (Clifford, 2002, p.41), remetendo, eventualmente, ao “agricultor familiar” como um ator social, mas sem perder de vista o caráter contextual e socialmente situado de nossas percepções.
A experiência e a prática etnográfica (Magnani, 2009) para a elaboração do presente texto tem como referência uma etnografia de contextos, uma modalidade de encontro centrada em experiências cotidianas, as quais possuem elementos estruturantes inteligíveis tanto para o pesquisador como para o pesquisador. A totalidade como pressuposto etnográfico é pensada, aqui, como uma relação mútua entre pesquisador e pesquisado, no contexto da qual elementos muito diferentes, quando articulados, podem possuir uma significação global, não como resultado de um efeito cumulativo, mas no interior de uma experiência concreta, marcada por tempo e espaço (Magnani, 2009). Tal consideração aparece também nas palavras de James Clifford:
Torna-se necessário conceber a etnografia não como a experiência e a interpretação de uma "outra" realidade circunscrita, mas sim como uma negociação construtiva envolvendo pelo o menos dois, e muitas vezes mais, sujeitos conscientes e politicamente significativos (CLIFFORD, 2002, p.43). 3.1.1- Primeiros movimentos: desenhando localidades
O relato de um espaço é em seu grau mínimo uma língua falada, isto é, um sistema linguístico distributivo de lugares sendo ao mesmo tempo articulados por uma “focalização enunciadora”, por um ato que o pratica. Este é o objeto da
94 “proxêmica”. Basta aqui, antes de ir buscar as suas indicações na organização da memória, lembrar que com essa enunciação focalizante o espaço surge de novo como lugar praticado (CERTEAU, 1990, p.198).
Os lugares nesse trabalho são tratados como descrições figuradas pelos atores, os relatos cotidianos são o meio de transporte que levam de um lugar para outro. Como sugere Michel de Certeau (1990) no livro A invenção do cotidiano, artes de fazer todo relato é uma prática de espaço. Não se toma primeiro o espaço para entender as práticas, mas busca-se compreender a capacidade espacializante que as práticas possuem, de acordo com os relatos dos atores. Com base nessa perspectiva, Certeau (1990) considera que a apreensão do espaço enquanto tempo “segundo”, permite uma virada epistêmica, aquela que passa das estruturas à ação. O autor propõe, nesse sentido, a reconstituição de ações narrativas, que permitiriam identificar elementos organizadores do espaço, limitações, processos, percursos. Certeau (1990) chama atenção para o fato de que “existem tantos espaços quantas experiências espaciais distintas. A perspectiva é determinada por uma “fenomenologia” do existir no mundo” (Certeau, 1990, p.185). Os espaços são produzidos pelas ações dos sujeitos históricos.
Os relatos, para Certeau (1990), não são apenas processos descritivos. O relato é um “ato culturalmente criador” (Certeau, 1990, p. 191). Essa capacidade criadora envolve também a possibilidade performática, a qual se move por conjuntos de circunstâncias que permitem, limitam, negam, autorizam. Dessa forma os relatos aparecem como formas legitimadoras das ações, ao mesmo tempo em que são esses relatos que transformam os lugares em espaços, espaços são lugares praticados. Os relatos são construtores de fronteiras. Estas, são entendidas por Certeau (1990) como uma distribuição dinâmica de intercâmbios e encontros, constituem-se como mediadoras nos processos de negociação do espaço. Nas palavras de Certeau:
Concretar a paliçada, encher e construir “o espaço entre dois”, eis a pulsão do arquiteto; mas ao mesmo tempo, a sua ilusão, pois, sem o saber, o trabalha para o congelamento político dos lugares e só lhe resta, quando percebe o que fizera, fugir para longe dos laços da lei. O relato, ao contrário, privilegia, por suas histórias de interação, uma “lógica da ambiguidade”. “Muda” a fronteira em ponto de passagem, e o rio em ponte. Narra, com efeito inversões e deslocamentos: a porta para fechar é justamente aquilo que se abre; o rio aquilo que dá passagem; a árvore serve de marco para os passos de uma avançada; a paliçada, um conjunto de interstícios por onde escoam os olhares (CERTEAU, 1990, p. 196)
Como na primeira fase do trabalho de campo eu ainda não havia desenhado “onde” o recorte espacial se assentaria, fui me movimentando pelos municípios da região. Fui sendo guiada ora pelas lideranças do sindicato de trabalhadores rurais, ora por professores da escola agrícola da região, em algumas ocasiões pelos donos de casas agropecuárias ou por pessoas que conheci nesse percurso. Através desse movimento, caminhei. Esses deslocamentos poderiam até mesmo ser caracterizados como caóticos, mas me sinto feliz de ter aprendido que na pesquisa, assim como na vida cotidiana, as coisas não acontecem de uma forma estritamente organizada. Hoje posso ver como isso me permitiu surpresas, como conheci alguns agricultores que nem imaginava conhecer e que mantêm, em seu cotidiano, complexas relações com os agrotóxicos.
Parece-me importante falar um pouco sobre essa inexistência de ordens puras, de processos extremamente organizados e funcionais. Nenhuma das pesquisas que realizei anteriormente envolvia um tipo de interação tão próximo. Como eu poderia fazer uma pesquisa se ainda não sabia onde ela poderia se desenvolver? Como eu poderia estar pesquisando sem saber se era mesmo ali que eu deveria estar? O estudo etnográfico me
95 permitiu perceber isso melhor, que o interesse maior não é onde você está, mas o que você faz de onde você está. Localizar-se não necessariamente precisa ser um movimento primeiro, os caminhos podem ser construídos também pelas relações que se tecem com as pessoas, não dependendo, necessariamente, de onde elas estão.
O que consegui delimitar, em princípio, nessa pesquisa, foi a microrregião de Barbacena, enquanto contexto a ser pesquisado. Ficou claro, depois disso, que a pesquisa teria como foco os agricultores familiares, seus sistemas produtivos e suas relações com os agrotóxicos. A partir daí, foi surgindo o recorte. Certeau reflete, de uma forma bem rica, sobre como podemos entender a ação e a “região” em que ela se localiza:
Pondo de lado a morfologia (que não é nosso tema aqui), que se deve situar na perspectiva de uma pragmática e, mais exatamente, de uma sintaxe determinante dos “programas” ou séries de práticas pelas quais a gente se apropria do espaço, pode-se tomar como ponto de partida a definição de Miller e Johnson-Larid para a unidade de base que eles denominam “região”: trata-se, dizem ele, de um encontro entre programas de ação. A “região” vem a ser, portanto, o espaço criado por uma interação. Daí se segue que, num mesmo lugar, há tantas “regiões” quantas interações ou encontros entre programas. E também que a determinação de um espaço é dual e operacional, portanto, numa problemática de enunciação, relativa a um processo “interlocutório” (CERTEAU, 1990, p. 194).
Dos agricultores que conheci, veio o local. Meu primeiro movimento em direção às práticas foi à visita que realizei a Júlio e Ângela. Minha ida até lá foi motivada não pelo local, mas pelas pessoas.
3.1.2- Comunidade Rio Verde e os novos atores-chave: Paulo e Hudson
A primeira fase do trabalho de campo, de caráter mais exploratório, contou com os atores-chaves Luciano e Henrique diretores sindicais. A partir deles conheci Paulo e Tereza, residentes na comunidade Rio Verde. Em via da necessidade de me assentar em uma Comunidade específica para recolher informações de uma forma mais sistemática, reconhecer as relações tecidas entre vizinhos, entre os mercados e as influências de outros agentes exógenos, escolhi a comunidade Rio Verde pela boa relação que já havia tecida com Paulo e Tereza na primeira etapa do trabalho de campo.
Nesta seção será apresentada a comunidade Rio Verde e os atores-chaves que