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Práticas [e entendimentos] corporais de embelezamento

Em primeiro lugar, esclareço que tomo aqui o embelezamento como um processo no qual os indivíduos adotam um conjunto de entendimentos e práticas para “embelezar” os seus corpos buscando caracterizá-los como aquilo que é convencionado belo. Mas, que transcende essa concepção, compreendendo também o embelezamento da alma – que subjetiva os comportamentos dos sujeitos e constituem suas identidades (de gênero) – orientado,

principalmente, por convenções e princípios próprios da sociedade vigente. Ou seja, pelo que é entendido como beleza de acordo com os padrões estabelecidos e aceitos socialmente.

O embelezamento, portanto, é tomado por mim como algo que também acontece sob um domínio bastante amplo que Foucault definiu como “técnicas de si”, que são aqueles procedimentos e técnicas que

permitem aos indivíduos efetuar, por conta própria ou com a ajuda de outros, certo número de operações sobre seu corpo e sua alma, pensamentos, conduta, ou qualquer forma de ser, obtendo assim uma transformação de si mesmos com o fim de alcançar certo estado de felicidade, pureza, sabedoria ou imortalidade. (FOUCAULT apud FISCHER, 2000, p. 114).

Tais operações são possíveis em meio à cultura. Assim, as práticas relativas ao embelezamento, incluem, mas vão além do uso de acessórios, roupas, maquiagem. Estão intimamente relacionadas a gênero, raça/cor e, assim como o corpo, são construções que se dão na cultura e também por meio dela (GOELLNER, 2007). Assim sendo, proponho que as práticas de embelezamento, o corpo, a cultura e as identidades de gênero têm de ser pensados articuladamente na medida em que estão intensamente envolvidos na fabricação dos sujeitos. Na deixa, para falar de corpo, faço minhas as palavras de Silvana Goellner (2007, p. 29):

um corpo não é apenas um corpo. É também seu entorno. Mais do que um conjunto de músculos, ossos, vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a roupa e os acessórios que o adornam, as intervenções que nele se operam, a imagem que dele se produz, as máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios que nele se exibem, a educação de seus gestos... Não são, portanto, as semelhanças biológicas que o definem, mas, fundamentalmente, os significados culturais e sociais que a ele se atribuem.

Nessa esteira de pensamento, já que o corpo é todo o seu entorno, penso que há de se considerar como, hoje, são produzidos e como entram em circulação não só técnicas de transformar a si mesmo belo/a, mas todo um conjunto de textos, suportes e lugares relacionados com a constituição de “discursos de verdade” sobre “si”, ou seja, sobre a rede de relações entre sujeito e verdade (FISCHER, 2000, p. 114).

Nesse mote, a cultura com seus atravessamentos e discursos assume uma centralidade na produção dos corpos contemporâneos. E, pensar nessa perspectiva de produção do corpo e nos sentidos e significados atribuídos a ele culturalmente, implica pensar também nas subjetividades e na constituição das identidades dos sujeitos, na produção da infância contemporânea.

Vivemos, hoje, na sociedade do espetáculo na qual o corpo ganhou lugar de destaque nas diversas mídias (outdoors, blogs, jornais, filmes, revistas, programas e propagandas da TV etc.) e cultuá-lo, fazê-lo belo, cuidá-lo, aperfeiçoá-lo, torná-lo saudável, aparentemente jovem, atraente, sob o discurso da qualidade de uma vida saudável, tornou-se, para muitos, uma obrigação (BECK, 2012). Tal destaque do corpo, que nunca está acabado, mas em constante modificação, traz representações e discursos fluidos que favorecem padrões de moda e de embelezamento.

Assim, atualmente, são muitas as estratégias inscritas na cultura, perpassadas por relações de consumo, que investem na produção do corpo infantil concebido na contemporaneidade como constructo da moda e do embelezamento (BECK, 2012). Desta feita, a infância está sendo vivida e configurada em uma época em que “o mercado pode tanto quanto a religião ou o poder: acrescenta aos objetos um ‘algo mais’ simbólico, fugaz, porém tão poderoso quanto qualquer outro símbolo.” (SARLO, 2000, p. 30).

A propaganda, sem dúvida, é uma dessas estratégias de mercado, como venho incansavelmente colocando. Através de suas representações, as crianças consomem não apenas mercadorias, mas também valores e padrões que estabelecem como deve ser o corpo, como devem se vestir, quais condutas valorizar, isso tudo não somente através das marcas de gênero, como também de raça/etnia, classe, geração, para citar alguns (SABAT, 2013). E assim, reiteram e configuram denominações de gênero, produtoras de masculinidade e feminilidade, sobretudo às mulheres/meninas (BECK, 2012).

Na contemporaneidade, cada vez mais, as crianças e, principalmente, as meninas, tornam-se reféns de regimes disciplinares representados na mídia que ditam e controlam os seus entendimentos do que é belo e, consequentemente, do que não é e selecionam quem pode ou não ser aceito cultural e socialmente. Daí, surgem as necessidades de adequação, do sentimento de pertencimento cultural e social e aceitação no grupo considerado belo, vinculado à moda, ao embelezamento e à produção do corpo ideal, provocando nas crianças a preocupação excessiva com a aparência física, principalmente nas meninas.

Não foi diferente com as crianças com as quais convivi durante a pesquisa. Foram bastante recorrentes situações em que pude presenciar a preocupação, especialmente das meninas, em relação ao embelezamento de si. Muito frequentemente, as meninas chegavam bastante maquiadas à sala de aula, com as unhas pintadas de variadas cores, mas na maioria das vezes com esmalte cor de rosa e com adornos bem aparentes, usando sandálias de salto [muitas vezes evitavam brincadeiras em que fosse preciso movimentar-se com agilidade ou correr, só para não tirarem as sandálias]. Quando trocavam a cor do esmalte, por exemplo, me mostravam,

orgulhosamente, as unhas com a cor diferente, esperando, notoriamente, um elogio de minha parte.

Por vezes, vi as meninas levarem à escola, tiaras e broches de cabelo, esmaltes, batons, brilho labial, paleta de sombras, pó facial e, nos momentos livres, ou até enquanto faziam as atividades, elas maquiavam umas as outras. Muitas vezes, era necessária a intervenção da professora junto às garotas porque o uso daqueles produtos interrompia e desorientava a ordem da aula, já que todas queriam ficar maquiadas e deixavam em segundo plano a função primordial de estarem ali: o ensino-aprendizado. As práticas de embelezamento, que lhes pareciam muito mais interessantes e importantes naquele momento, eram escolhidas em detrimento das atividades escolares.

O que era o espaço da sala de aula era transformado em um espaço de beleza, no qual, inclusive a pesquisadora, era embelezada, pois as garotas insistiam em pentear ou escovar os cabelos da “professora Helena” que, no caso, era eu. Era assim que elas e os garotos costumavam me chamar quando não chamavam de “tia”.

Reservo um momento aqui para contar um fato interessante. É que durante a pesquisa em campo, prestei concurso para o cargo de educadora infantil do município e fui aprovada, sendo convocada alguns meses depois, em meados do segundo semestre do ano de 2015. Coincidentemente, a professora da turma a qual pesquisei pertencia ao quadro de seletivos45 do município e, como eu residia muito próximo à escola, acabei assumindo a turma como professora efetiva, daquele momento em diante.

A experiência de estar ali pesquisadora e, então, pesquisadora/professora foi, no mínimo, curiosa e interessante. Também tive as ordens disciplinar e pedagógica da minha aula interrompidas por ALI, que tirou a atenção das meninas com uma paletinha de sombras que insistiam em embelezar-se enquanto eu tentava orientar a atividade. Quando, depois de muito insistir conversando, tive de tomar à força o objeto de suas mãos, pensei que conseguiria assim ministrar a aula, mas as meninas já não falavam de outra coisa. Outra cena que me ocorreu, entre tantas outras, agora na condição de professora, e que chamou a minha atenção para a veemente preocupação das meninas com sua aparência, deu-se no momento do café.

Notei que ALA bebia a vitamina com muito cuidado. Demorei a perceber, mas notei que a sua intenção era evitar que o batom que estava usando saísse dos seus lábios. Continuei a observar e percebi que, assim que retornamos à sala de aula, a primeira atitude de ALA foi dirigir-se até sua bolsa, pegar o batom e retocá-lo. (DIÁRIO DE CAMPO, 11 dez. 2015).

45 Quadro de professores/as que têm contrato com a prefeitura por um período de dois anos para suprir vagas de

Imagem 35 – ALA retocando seu batom vermelho da Moranguinho, com cheiro de morango.

Fonte: Dados da Pesquisa.

Quando não dispunham de maquiagem suficiente para todas, ou quando elas se desentendiam, essas práticas de embelezamento davam-se no campo da brincadeira por parte daquela que havia sido excluída momentaneamente, como aconteceu com NEY:

As crianças estão brincando com massinha de modelar. NEY se desentendeu com DAR porque ela não quis compartilhar a sombra que trouxe para a escola. NEY, zangada, se afasta do grupo que estava com DAR, pega um lápis e gruda um pedaço de massinha na ponta, fazendo do lápis um pincel de maquiagem e diz: – eu tô passando blush! (enquanto se olha em um espelho

improvisado com um brinquedo fazendo bico para marcar o local da bochecha onde o blush seria aplicado). (DIÁRIO DE CAMPO, 12 maio 2015).

É evidente no excerto e também pelo arsenal de produtos usados pelas garotas não só a ideia de que a maquiagem as deixaria mais belas, mas o maquiar-se significou também uma técnica de si para incluir-se no grupo social e cultural daquilo que se entende por belo de acordo com padrões pré-estabelecidos.

Ou seja, essas práticas de embelezamento, como uma espécie de chave, lhes abririam (e abrem) possibilidades de fazer parte de um grupo identitário unido pelo mesmo entendimento de beleza aprendido cultural e socialmente, uma vez que, fora dele, o papel cabível seria o da diferente, da feia, da excluída, da anormal. Tanto é que NEY, quando fora do grupo, continuou investindo na prática de embelezamento mesmo que no campo da brincadeira, como um subterfúgio para ‘estar’ excluída, mas não ‘ser’ excluída daquela ordem de beleza e normalidade.

Além de maquiar-se, a preocupação das meninas com a aparência incluía outros esforços. Elas usavam acessórios, penteados diversos, se valiam de artifícios para potencializar sua aparência de acordo com os modelos de feminilidade hegemônicos difundidos, investindo,

também, no cuidado com os cabelos, como, por exemplo, até alisá-los com prancha46, assim como presenciei algumas vezes ALA chegar na escola com os cabelos pranchados e também conforme relatos a seguir:

ALI chegou à escola com um penteado diferente e eu a perguntei quem havia feito. Ela respondeu que havia sido a sua mãe e relatou que ela pinta os seus cabelos e não a deixa cortá-los. DAR, que estava ouvindo a conversa, disse: – ela prancha. Eu acho que não é liso assim, não. Eu prancho minha franja quando eu vou pra os cantos. (DIÁRIO DE CAMPO, 12 maio 2015). Entretanto, como já referi, as questões de embelezamento vão além de recursos e práticas usadas para tornar a aparência física bela, mas também dizem respeito a “enfeites” da alma, da conduta, das práticas enformadas, esperadas daquele/a que é belo/a cuja beleza é comparada ao bom, ao correto, ao adequado e o que é feio (fora dos padrões) é sombrio, é ruim, é inadequado, é diferente. Nesse sentido, as meninas também apresentaram conceitos e entendimentos acerca de embelezamento “enfeitados” por determinadas regras estereotipadas que só lhes permitiam enxergar um tipo de beleza e que orientavam suas condutas, como exemplifico no trecho a seguir:

MAF, ALA e DAR saíram da sala para beber água. Elas estavam demorando

a voltar, então decidi ver o que estava acontecendo. Avistei LAU47 chorando

no pátio e decidi perguntar o motivo. A menina me disse que as três (MAF,

ALA e DAR) estavam mangando48 dela, chamando-a de gorda, feia e dizendo

que seu cabelo era feio. Segundo LAU, aquela não foi a primeira vez que isso aconteceu. Como pedagoga, não podia, claro, deixar de fazer uma intervenção, então, conversei com as meninas explicando que aquela atitude não era correta e incentivando-as pedirem desculpas. Mesmo não demonstrando arrependimento, elas se desculparam e seguiram para sala de aula. Conversei também um instante com LAU, dizendo que ela era linda do jeitinho que era. Ela parou de chorar, me abraçou forte, sorriu e retornou para a sua sala. (DIÁRIO DE CAMPO, 15 abr. 2015)

Desde a cena supracitada, passei a observar mais LAU. O seu corpo não estava adequado aos estereótipos de beleza difundidos na atualidade, à ditadura do corpo magro ou bem definido (malhado). Era gordinha e tinha os cabelos crespos. Entretanto, estar fora dos padrões não a impedia de investir técnicas de si, buscando, de uma maneira ou outra, identificar- se no grupo das belas, fazendo uso de ferramentas de beleza. Todos os dias, LAU ia à escola

46 Aqui no Nordeste costumamos usar o termo ‘prancha’ e a expressão ‘pranchar os cabelos’ para nos referirmos

ao ato de alisá-los.

47 LAU é aluna de outra turma de nível IV da sala vizinha.

com um penteado diferente, sempre muito estilosa, maquiada, com roupas customizadas e/ou sobrepostas e quase nunca usava o uniforme, pelo menos não nos dias em que a observei. Era como se buscasse medidas compensatórias para o fato de estar gorda, ter cabelos crespos e para amenizar os efeitos do aprisionamento aos códigos repressivos do que seria a autêntica beleza feminina.

Nas palavras de Bianca Guizzo (2011, p. 164, grifo da autora, acréscimo meu),

Se até bem poucas décadas atrás o aprisionamento feminino se dava em virtude [somente] das tarefas ligadas ao doméstico e à maternidade; hoje, pode-se dizer que há um ‘autoaprisionamento’ que se dá pelos processos de embelezamento aos quais nos submetemos em razão da busca incessante pela beleza, imagem e aparência ideais. Beleza, imagem e aparência materializadas pelos nossos próprios corpos que precisam estar de acordo com as normas hegemônicas de beleza. Se nós, mulheres não nascemos dotadas de beleza, temos que ir em busca dela. Caso contrário, provavelmente seremos tachadas de preguiçosas, desleixadas e com falta de autoestima e autocontrole.

Contudo, mesmo fazendo uso das mesmas ferramentas de beleza e demonstrando entendimentos parecidos acerca de definições do que é belo, o que distanciava aquelas outras meninas de LAU? O que motivou (e motiva) crianças tão pequenas se cobrarem e se preocuparem tanto com sua aparência? O que as fazem pensar e agir de maneira tão excludente e até cruel com outras crianças pelos detalhes de sua aparência?

Tais questões são complexas e envolvem uma rede de poder, interesses e negociações em torno do corpo, em uma estreita relação entre embelezamento e consumo e com a formatação das identidades [de gênero] dos sujeitos. Guizzo (2013, p. 39-40), citando Mirzoeff (2003) e Hernández (2007), discute sobre a cultura visual em que vivemos e a relação entre aquilo que vemos e em que medida isso contribui para a nossa constituição enquanto sujeitos. Segundo esses autores, “as sociedades ocidentais contemporâneas têm dado grande relevância aos artefatos culturais” – e ressalto aqui as propagandas – bem como aos significados que os sujeitos dão a eles. Nesse contexto, “as imagens não podem ser consideradas ingênuas; elas expressam representações e [...] através desses artefatos visuais” as crianças formam conceitos e ideias sobre modos de ser homem e mulher adequados e desejáveis. Nesses artefatos visuais da mídia, a beleza articula-se, reiteradamente, a determinados padrões de características: pele branca, altura, magreza, cabelos lisos e claros, juventude, enfim, tudo que é relacionado ao “bem”, ao saudável, inclusive sustentado nas bases do discurso de bem-estar...

Vi também que, além dessas características que mencionei, a riqueza e a fama constituíam valores aceitáveis e desejáveis e também princípios para os entendimentos de

beleza das meninas. Presenciei elas brincarem de cantar e dançar músicas de artistas em evidência na mídia como Anitta, por exemplo, copiando os trejeitos, as expressões, e com direito a plateia. Para minha surpresa, quando comecei a filmar a “brincadeira”, as garotas intensificaram seus gestos e, de maneira muito desinibida, agiram com intimidade com a câmera. Desse modo, seguiram aquilo que estava em voga na mídia porque era bonito, afinal, o belo é aquilo que atrai atenção, que dá audiência, que dá ibope.

Outro dado importante é o fato de que, assim como a cantora Anita, a maneira como as meninas dançavam era marcada pela sensualidade e erotização e estendiam esse comportamento ao seu dia a dia baseado não só no exemplo da artista, mas também nos exemplos de representações de feminino cultivadas nos artefatos midiáticos direcionados a elas. Com isso, proponho pensarmos em como Jane Felipe e Bianca Guizzo (2003) colocam a pedofilização como prática social contemporânea. Pedofilização que é promovida também pela excessiva exposição da imagem da criança em veículos televisivos e campanhas publicitárias que têm estampado corpos de meninas, muitas vezes marcados por sedução e práticas adultizadas. Sobre esse processo de “pedofilização” consentido e estimulado,

o uso dos corpos infantis, especialmente os corpos femininos, visibilizados como desejáveis, têm sido uma constante na mídia brasileira, seja através da publicidade impressa ou televisiva, seja através de outdoors ou mesmo programas de TV (novelas, mini-séries, etc.). Esse processo de erotização crescente dos corpos infantis, que venho chamando de ‘pedofilização’, pode acionar algumas reflexões a respeito da interessante contradição existente nas sociedades contemporâneas, em especial na sociedade brasileira, pois ao mesmo tempo em que se lançam campanhas de combate à pedofilia (UNESCO, 1999; BRASIL, 2004), na tentativa de reservar a integridade física e emocional das crianças, propaga-se, no cenário brasileiro, uma espécie de pedofilia consentida, amplamente aceita e difundida principalmente pelos veículos de comunicação de massa, posicionando os corpos infantis como objetos de desejo e de consumo. (WALKERDINE, 1999; FELIPE; GUIZZO, 2003 apud BECK, 2012, p. 145).

Com efeito, tem-se também uma dissolução de fronteira de gerações. Isto é, pode-se perceber nas práticas de embelezamento das garotas uma adultização precoce. Dessa forma, em uma mescla de ingenuidade [ou não], sedução e erotismo as crianças buscavam reproduzir/consumir o que assistiam/assistem na TV (CORAZZA, 2002).

Mediante o que discuti, cabe dizer que não quis afirmar que meninos também não se preocupam com a sua aparência, pelo contrário. Mas, é que, embora, dos anos 1960 até aqui, haja uma importante tendência social de liberação do corpo diante de repressivas regras e tabus sociais, ainda é sobre o sexo feminino que recaem as maiores cobranças para que invistam em

um projeto do corpo (SANT’ANNA, 2000). No entanto, isso não quer dizer que os garotos também não aprendam e tenham formatados os seus entendimentos e concepções de embelezamento por meio das representações de masculino e feminino nas propagandas. Mas, o fato é que nas campanhas publicitárias o foco do marketing da beleza está concentrado naqueles comerciais voltados às meninas. Sendo assim, os garotos constroem concepções de feminilidade de acordo com parâmetros bem específicos e, não diferente, estereotipados, como nos casos que trago a seguir:

Pesquisadora: – o que tinha na propaganda? [Cadernos da Barbie]. LUR: – Teve as meninas...

Pesquisadora: – Como eram as meninas? NEY: – De cabelo cacheadinho; de cabelo liso...

[...]

DAN: Tinha cabelo arrepiado pra cima como uma bola... Pesquisadora: – De quem era o cabelo arrepiado, DAN?

DAN: – Aquele cabelo como uma bola! (apontando para a garota negra da propaganda na tela da TV). (GRUPO CONVERSACIONAL, 19 jun. 2015).

Imagem 36 – Imagem da garota “de cabelo arrepiado”, segundo DAN, extraída da propaganda

Cadernos da Barbie.

Fonte: Vídeo do YouTube.

Chamo atenção para a importância da imagem como referi anteriormente e para o significado que DAN atribuiu ao cabelo da garota negra como arrepiado. Tendo como referência as outras duas protagonistas da propaganda que representavam o típico padrão de beleza cultivado pela mídia, nesse caso, o cabelo “para cima” fugiu da ordem do perfeito, do regular, do impecável, do que parecia normal naquela imagem, até mesmo porque a representação da pessoa negra era minoria na imagem. Ainda que, havendo a representação de uma garota negra, para DAN, ela continua sendo a diferente, a que destoa.

Interessante ressaltar também a referência de beleza feminina de LUR que relacionou o comercial A dica de moda agora é Barbie ao programa de TV “Esquadrão da Moda”. Tal

programa é transmitido pelo SBT aos sábados à noite e tem como propósito transformar mulheres que já não se preocupam em cuidar da aparência física em mulheres elegantes, bem vestidas, maquiadas e com os cabelos bem tratados. LUR falou do programa com bastante