Capítulo V. Dos procedimentos metodológicos à apresentação dos dados
V. 2.2.3.1. Práticas interdisciplinares e em equipa
exemplo a “mudança de equipas directivas, perda de técnicos formados e com muito treino de trabalho nestas áreas de EpS, novas configurações interinstitucionais, com outras prioridades que não a EpS” (A). Estes aspectos podem acabar por actuar como elementos desestabilizadores do trabalho em curso, ideia que reflecte, em parte, a experiência desta profissional de saúde que ao trabalhar em Cuidados de Saúde Primários, viu, com a remodelação destes a desestruturação da equipa de saúde escolar onde estava inserida, tendo sido necessária a reestruturação, com novos profissionais, de todo o trabalho desenvolvido até então.
Em síntese, como evidenciam os discursos, é clara a existência de múltiplos factores dentro de uma comunidade que podem facilitar e/ou obstaculizar a implementação de dinâmicas de EpS em meio escolar.
reunindo “uma vez de quinze em quinze dias, e caso se torne pertinente, reunimos mais vezes” (O).
Destas ideias se constata haver já alguma interacção entre vários profissionais da escola e esta técnica da equipa de saúde escolar, inferindo-se, no caso concreto, uma certa disponibilidade de ambas as partes para a realização de reuniões periódicas. À parte destas reuniões, a mesma entrevistada afirma ainda que essa comunicação é feita “essencialmente por email” (O). Todavia, outros discursos levam-nos a inferir que apesar de existirem práticas de trabalho conjunto entre a equipa de saúde escolar e da escola, esse é ainda um trabalho muito incipiente como, aliás, já ficou patente em pontos anteriores.
Nas palavras de uma profissional
“a responsabilidade da planificação das actividades de EpS para as escolas e para os alunos, é dos professores seleccionados com actividades de EpS/conselho directivo da escola, sempre com a colaboração da equipa de saúde escolar, desde que solicitada a sua presença” (A).
Todavia, acrescenta que:
“as intervenções em conjunto decorrem (…) em função das necessidades sentidas pelas duas instituições [sendo] realizados contactos espontâneos ao longo do ano, entre a escola e a equipa de saúde escolar” (A).
Em relação aos profissionais envolvidos em dinâmicas conjuntas esta entrevistada afirma que:
“as solicitações da escola são dirigidas aos vários técnicos da equipa de saúde escolar (constituída por uma médica de saúde pública, cinco enfermeiras, uma psicóloga, uma nutricionista, uma assistente social e quatro técnicas de saúde ambiental), e são feitas tanto por professores, psicóloga da escola, pais, conselho directivo…” (A).
Destas afirmações destaca-se positivamente a ideia de reconhecimento de um trabalho conjunto entre a equipa de saúde escolar e a da escola. Porém, e como em outras categorias ficou já evidente, parece ser a escola a solicitar sempre o apoio dos técnicos de saúde, o que, em si, deixa dúvidas quanto à consistência de um trabalho conjunto.
Apesar dos poucos exemplos dados pelos profissionais sobre a sua prática nesta área, todos fizeram questão de sublinhar a importância do trabalho colaborativo e em equipa em EpS. Assim, quatro dos entrevistados vêem o trabalho desenvolvido pelos dois grupos profissionais como complementar, como mostram os seguintes excertos:
“O papel de cada grupo profissional pode ser bem caracterizado e tornarem-se complementares e amplificadores dos seus efeitos na abordagem da saúde, no espaço escola” (A);
“penso que uma abordagem interdisciplinar pode e deve permitir que cada interveniente contribua com aquilo que melhor conhece para a formação dos alunos” (J);
“a abordagem interdisciplinar permite articular conhecimentos das diversas áreas, e desta forma definir projectos e planos de acção muito mais ricos para toda a comunidade escolar” (L);
“é a partir de uma abordagem em que entram profissionais especialistas na educação (…) e também os P.S., que se podem obter diversas mais-valias, dada a multiplicidade de conhecimentos que se obtêm pela junção de profissionais com diferentes áreas” (M).
A ideia da importância de um trabalho em equipa sai reforçada com o que defendem outras duas profissionais de saúde que reforçam a necessidade de haver actividades interdisciplinares.
Como sustentam:
“a partilha de conhecimentos, experiências, pontos de vista e mesmo meios de acção” (H);
“a interdisciplinaridade possibilita a partilha de conhecimentos entre os diferentes profissionais, que é na minha opinião, fundamental para que a EpS seja eficaz tanto do ponto de vista dos conteúdos como da forma como estes são transmitidos” (I).
“a abordagem interdisciplinar permite articular conhecimentos das diversas áreas e desta forma definir projectos e planos de acção muito mais ricos para toda a comunidade escolar” (L);“só desta forma é possível colmatar todas as necessidades” (L);
“a EpS deve ser multiprofissional para se obter uma sinergia e para que o desenvolvimento desta tenha mais sucesso” (M).
“integrar vários profissionais, deixará os alunos mais à-vontade para expor determinadas dúvidas, que com apenas um profissional se podem tornar redutoras e difíceis de expor” (O).
Para além da importância de uma intervenção em EpS numa lógica interdisciplinar, os discursos deixam também vislumbrar ser essa abordagem uma mais-valia para a formação dos jovens, sobretudo se tem em consideração a sua participação, quer no que respeita a dúvidas, quer a interesses temáticos. Como argumentam alguns entrevistados, a partilha de conhecimentos e experiências entre profissionais de saúde e professores permite “valorizar a formação dos alunos”
(H), contribuindo para o desenvolvimento de uma “dinâmica activa e contínua” (A) entre todos os elementos envolvidos e, consequentemente, “agilizar tempo e conteúdos” (O), facilitando a abordagem dos temas, e evitando que estes sejam “desfasados no tempo e fora das necessidades da comunidade escolar” (O).
Em síntese, da análise fica a ideia de que o trabalho interdisciplinar, sendo fundamental, exige uma articulação sistemática dos profissionais de saúde e da educação e um trabalho constante no interior da escola, com professores das diferentes áreas e disciplinas. Este trabalho conjunto é justificado pela importância de não serem transmitidas aos alunos ideias e perspectivas contraditórias que, em vez de os esclarecer, lhes possam criar dúvidas que podem ficar sem respostas.
A figura nº 11, construída com base na análise aos discursos dos entrevistados, pretende esquematizar as ideias-chave e dar conta da pertinência de a EpS ser desenvolvida em estreita colaboração entre profissionais de saúde e professores e os maiores ou menores ganhos que este trabalho pode trazer para formação global dos alunos.
Figura nº 11 – Trabalho interdisciplinar e em equipa entre P.S. e professores
O lado esquerdo da figura tem como intenção configurar um modelo de intervenção em EpS, assente na metodologia do trabalho colaborativo e em equipa. Tem subjacente a tese de que um trabalho desenvolvido segundo estes princípios contribuirá para uma educação global de melhor qualidade. Já o lado direito da figura expressa um modelo de intervenção em EpS em que a interacção entre os diversos profissionais será menor, e em que o principal objectivo será a transmissão de conhecimentos (conhecimento A e conhecimento B). Esta abordagem não articulada da EpS poderá, como sustentamos, levar à transmissão de conhecimentos não articulados e apresentados numa lógica de não aprofundamento.