• Nenhum resultado encontrado

PRÁTICAS MICROPOLÍTICAS E OS NOVOS MODOS DE

CAPÍTULO 3 MICROPOLÍTICAS E RESISTÊNCIA – O HIP

3.4. PRÁTICAS MICROPOLÍTICAS E OS NOVOS MODOS DE

Dados apresentados pela Central Única de Favelas – CUFA127 denunciam que, nas capitais dos estados brasileiros, existe pelo menos uma favela para cada bairro. Esta realidade também está presente no Rio Grande do Norte, onde na capital Natal, os dados evidenciam a existência de uma favela para cada bairro da cidade. Esse dado torna-se relevante para nossa pesquisa, na medida em que demonstra a amplitude da desigualdade social presente em nosso estado, sobretudo na capital Natal. Torna-se ainda mais importante se pensarmos em quantos jovens, como os nossos sujeitos da pesquisa, buscam alternativas, principalmente no campo da arte e da cultura para lidar com a pobreza. Daí o surgimento de tantos grupo e coletivos, sejam ligados ao movimento hip hop ou a novas expressões artísticas e culturais.

As experimentações relatadas pelos jovens engajados nos Coletivos de Hip Hop: Posse Lelo Melodia do Guarapes em Natal e Coletivo Flores Crew em Recife; evidenciam, no nível de produção de subjetividades, a existência de um processo contínuo de descoberta das forças ativas. Deleuze observa, na obra Nietzsche e a filosofia (1976) que são essas forças que possuem uma energia capaz de intensificar a formação do desejo dotando os indivíduos de uma capacidade ainda maior de transformar, de constituir novas atitudes e afetos. Forças ativas que lhes possibilitam deslizar, criando superfícies lisas que sirvam para embates com velhas estruturas e que possam resistir às determinações impostas pelo poder dominante, na medida em que insiste em cavar brechas, traçar linhas de fuga, podendo, assim, conquistar espaços no interior das instituições molares.

À luz da análise micropolítica é permitida a compreensão, por um lado, dos processos de singularização em curso e, por outro, dos modos de subjetivação

127

Dados disponíveis em http://www.cufa.org.br/in.php?id=favelas/rn. Acesso em 18 de novembro de 2011.

dominantes que estão em jogo nas sociedade contemporâneas. Os sujeitos sociais implicados em uma dinâmica coletiva intitulada Posse ou Coletivo de Hip Hop, ora são afetados pela lógica capitalística, assim falando como Guattari, na qual estão imbricados, ora se esforçam para fissurá-la e produzir novos modos de subjetivação quando conseguem desempenhar um papel articulador e aglutinador de ações individuais e coletivas. A arte hip hop, em particular na nossa pesquisa: o rap engajado (abordaremos no Capítulo 4) demonstra possuir uma potência criativa que pode constituir-se em um campo de experimentações para dar vazão às novas atitudes, afetos e, por conseguinte, novos modos de pensar e viver na pobreza. A análise micropolítica evidencia, sobretudo, a capacidade de reinvenção do ser humano, do seu direito de existência, do seu modo de estar no mundo.

Pensamos como a investida desses jovens “periféricos” em arte e cultura é o que “sobra” para eles. É o que se colocou como possibilidade, e, eles se agarram a essa possibilidade de maneira bela. Eles se agarram e algo está brotando a partir daí, e, hoje, eles não conseguem mais ser o indivíduo como em outros tempos, como no relato de Amauri sobre a sua trajetória de vida que demonstra estar podendo lidar de uma outra forma com o mundo na sua tentativa de inserção profissional adulta. E ainda mais que isso, podendo experimentar diferentes coisas nos planos molar e molecular. Admirável a reflexão instigada pelas experimentações trazidas por esses jovens sobre o que está faltando para o mundo atual: o surgimento de novos valores em defesa da vida humana, uma ética da existência (FOUCAULT, 2006) que permita pensar o mundo de um outro modo ou quiçá outro mundo: o que é possível construir?!

Rap Na favela eu nasci – Lokomotiva Rappers - Posse de Hip Hop Lelo Melodia do Guarapes – Natal/RN (Vídeo disponível em http://www.youtube.com/watch?v=WEUBJBxBV-c. Acesso em 03/12/2012).

Entre o morro do Guarapes, favela do inferninho: eu nasci Sempre faço aqui, correria e se vim porque não diz assim, favela eu nasci Você já perguntou se a gente era ruim, favela e Pelourinho mais tarde:

eu nasci As garotas daqui sempre que olhar pra mim quando eu faço assim: vem pra mim Favela eu nasci, nos guetos eu vivi, nos becos eu morri

e ainda hoje é assim - 2X A polícia é a justiça e a justiça é a polícia, eles dois se combina/Sempre assim E você tem que ver pra você entender o que eles querem fazer/Sempre assim Um revólver, uma bala, o gatilho escapou e um corpo no chão morto/Sempre assim É Guarapes tá louco, o bagulho é doido e você é o osso/Sempre assim Favela eu nasci, nos guetos eu vivi, nos becos eu morri e ainda hoje é assim - 2X Olhe pra mim com jeito de mártir, moleque nasce e cresce bicho ruim, estilo de perifa, me julgam, me chama de neguinho, pergunta pra tua filha se ela pensa assim! Quando tá com neguinho ela diz e daí? Foda-se, pra quem achar ruim! Não to nem ai, o que pensam de mim, eu quero mais é que se exploda essa porra toda! A justiça é cega, é surda, é muda. A polícia tá na rua, é chute, é murro, espanca e nunca muda, lá vem a viatura, é melhor sair da rua que aqui não tem, ironman, nem super-man, mas tem uns brinquedos que aterrorizam bem: andar na ginga, falar na gíria, estilo de perifa e quem não tem me copia. Eu to na luta, então vem me disputa, eu sou big brother, mas to no paredão, eu sou o vírus que se espalha, favela dança e bate palma! Favela eu nasci, nos guetos eu vivi, nos becos eu morri

Documentos relacionados