2.1 NOÇÕES GERAIS SOBRE JUSTIÇA
2.1.2 Justiça Restaurativa
2.1.2.5 Práticas restaurativas e seus diferentes procedimentos
Por ser um sistema em constante mudança e evolução, inexiste uma única forma correta de aplicar os procedimentos restaurativos, pois sua essência “não é a escolha de uma determinada forma sobre a outra; é, antes disso, a adoção de qualquer forma que reflita seus valores restaurativos" (MORRIS apud PALLAMOLLA, 2009, p. 60). À vista disso, sem intenção de esgotar o estudo sobre as práticas restaurativas e seus diferentes procedimentos, mostra-se necessário tecer algumas considerações.
De acordo Marshall, Boyack e Bowen (2005), um processo é restaurativo quando, na medida do possível, tem como objetivo restaurar valores como a dignidade e o bem-estar dos envolvidos. Nessa senda, verifica-se que, na Justiça Restaurativa, “o processo que acontece e os valores que fundamentam são inseparáveis” (OLIVEIRA, 2015, p. 34), sendo imprescindível a clareza sobre os princípios11 e valores que regem a proposta, uma vez que o
sistema restaurativo não se pauta em regras, tornando-se distinta de outras práticas de Justiça.
vislumbrar o ambiente propício para o desenvolvimento das práticas restauradoras” (ALMEIDA NETO, 2012 apud NERI, 2018, p.41).
11 “(...) os princípios não devem ser confundidos com valores. Estes, diferentemente dos princípios que têm sentido
deontológico, não indicam consequências jurídicas pelo não cumprimento do comportamento desejado; portanto, os valores não são considerados normas, indicam apenas relações de preferência. Já os princípios que possuem força normativa têm o poder de impor deveres e criar direitos.” (ALMEIDA; RODRIGUES JÚNIOR, 2010, p. 593).
Desse modo, as práticas apenas serão consideradas restaurativas se “expressarem os principais valores restaurativos, tais como: respeito, honestidade, humildade, cuidados mútuos, responsabilidade e verdade” (MARSHALL; BOYACK; BOWEN, 2005, p. 270), sendo o respeito e a humildade valores que merecem destaque no presente trabalho. O primeiro, tem como desdobramento a escuta respeitosa, a qual estabelece que os participantes não podem desrespeitar, oprimir ou diminuir o outro, isto é, “escutar o outro respeitosamente é condição de participação, e se não for cumprida, o participante é convidado a se retirar, pois seu empoderamento excessivo obstaculiza o empoderamento dos demais” (PALLAMOLLA, 2009, p. 63).
Já a humildade, trata-se de “um reconhecimento profundo dos limites do nosso conhecimento” e que “nos força a ter profunda consciência de como nossa biografia pessoal molda conhecimento e preconceitos”, bem como “nos convida a apreciar com profundidade e grande abertura a realidade do outro”, ajudando-nos, assim, a “ter muito cuidado e não fazer generalizações, aplicando o que presumimos saber às situações de outras pessoas” (ZEHR, 2008, p. 266-267).
Atendidos os pressupostos da Justiça Restaurativa, o sistema restaurativo pode ser aplicado, após o cometimento da infração penal, segundo Prudente (2008) e Pallamolla (2009), nos seguintes momentos:
a) Na fase policial: o encaminhamento dos envolvidos às práticas restaurativas pode ser feita pela autoridade policial ou pelo Ministério Público.
b) Na fase pós-acusação e pré-instrução: o encaminhamento é feito pelo Ministério Público.
c) Após a instrução e antes da sentença: encaminhado pelo Juiz, viabilizando a aplicação de pena alternativa.
d) Durante a execução da pena, a adoção das medidas restaurativas pode servir como alternativa à prisão, ou, ainda, ser a ela somada.
A respeito, dispõe o artigo 7º da Resolução n. 225 do CNJ:
Art. 7º. Para fins de atendimento restaurativo judicial das situações de que trata o caput do art. 1º desta Resolução, poderão ser encaminhados procedimentos e processos judiciais, em qualquer fase de sua tramitação, pelo juiz, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, da Defensoria Pública, das partes, dos seus Advogados e dos Setores Técnicos de Psicologia e Serviço Social.
Parágrafo único. A autoridade policial poderá sugerir, no Termo Circunstanciado ou no relatório do Inquérito Policial, o encaminhamento do conflito ao procedimento restaurativo (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016).
Acerca da aplicação das práticas restaurativas, levando-se em conta o cenário atual do Judiciário brasileiro, Pinto (2005, p. 34) acrescenta:
Os núcleos de justiça restaurativa deverão atuar em íntima conexão com a rede social de assistência, com apoio dos órgãos governamentais, das empresas e das organizações não governamentais, operando em rede, para encaminhamento de vítimas e infratores para os programas indicados para as medidas acordadas no plano traçado no acordo restaurativo. É perfeitamente possível utilizar as estruturas já existentes e consideradas apropriadas, mas devem ser, preferencialmente, usados espaços comunitários neutros para os encontros restaurativos.
Pinto (2016, p. 83) expõe que os operadores da justiça restaurativa “devem receber capacitação adequada e continuada, sendo, de preferência, psicólogos ou assistentes sociais”. Contudo, não deve se restringir apenas a estes profissionais, sendo interessante a participação de assistentes jurídicos e auxiliares, além de pessoas da própria comunidade, desde que devidamente capacitados. Estes merecem destaque, pois “mediadores ou facilitadores que sejam da mesma comunidade dos envolvidos, tendo a mesma linguagem, terão maior facilidade em traçar o diálogo com os protagonistas em tela, havendo uma melhor fluência na aplicação da prática restaurativa” (Ibid, p. 83).
No mais, Prudente (2008) ressalta que é imprescindível a capacitação dos facilitadores ou mediadores, para que estes possam entender as culturas e peculiaridades daquela comunidade, auxiliando na busca pela melhor resolução do caso. Para Pinto (2016, p. 83), “esses procedimentos levam as partes a se apropriarem do conflito que é seu, construindo em conjunto um acordo, que viabilize o resultado restaurativo, suprindo as necessidades individuais e coletivas de cada parte, possibilitando, respectivamente, a reintegração social”.
Nessa senda, verifica-se que o sistema restaurativo demanda grande envolvimento das partes, sendo tais encontros importantes para que os envolvidos possam compreender a sociedade em que estão inseridos, ressaltando mais uma vez a importância da participação da comunidade (MELO, 2005).
No entanto, conforme já exposto, o campo da Justiça Restaurativa tornou-se diversificado demais para ser retratado em qualquer classificação, inexistindo um único modelo correto de aplicação, podendo esta ocorrer por meio de conferências, círculos, reuniões, dentre outras formas (ZEHR, 2012). No qual, “tal variedade é possível pela igual variedade de princípios e valores fundamentais, dando escopo a várias práticas restaurativas diferenciadas, resguardando entre elas similaridades” (PINTO, 2016, p. 88).
Diante o exposto, a seguir, será realizada uma tentativa de expor uma breve visão geral de algumas práticas restaurativas e seus diferentes procedimentos.
2.1.2.5.1 Mediação vítima-ofensor
De acordo com Azevedo (2005), a mediação vítima-ofensor (MVO) trata-se da prática restaurativa mais antiga, cujo início se deu no Canadá, em 1974, consistindo “em um modelo em que as partes em conflito optam por trazer um terceiro imparcial para auxiliar na busca da solução da contenda” (PINTO, 2016, p. 88):
Assistidos por um mediador treinado, a vítima é capacitada a demonstrar ao ofensor como o crime a afetou, recebendo uma resposta às suas questões e estará diretamente envolvida em desenvolver um plano de restituição para que o ofensor seja responsabilizado pelo dano causado (UMBREIT apud AZEVEDO, 2005, p. 141).
Nos casos indicados, “trabalha-se com a vítima e o ofensor em separado e, depois, havendo consentimento para que se continue o processo, acontece um encontro ou diálogo entre os dois, organizado e conduzido por um facilitador treinado que orienta o processo de maneira equilibrada” (ZEHR, 2012, p. 58). Diferentemente do que ocorre em juízo, não caberá ao mediador impor uma decisão, haja vista que, por meio do diálogo, se buscará pela solução mais adequada entre as partes. Isto é, durante a prática da mediação, será realizado o debate dos fatos, a declaração de sentimentos e a reparação negociada, tendo como consequência a modificação de comportamento posterior e o relacionamento entre vítima e ofensor (PINTO, 2016).
Nesse ínterim, a finalidade dessa prática é a formulação expressa de um acordo, “discriminando a natureza e dimensionando os prejuízos materiais e morais, além de apontar as soluções para a reparação dos prejuízos sofridos pela vítima, estabelecendo uma meta temporal para restaurar o que foi objeto da infração” (Ibid, p. 89).
2.1.2.5.2 Câmaras restaurativas
Segundo Pinto (2016), as câmaras restaurativas geralmente são aplicadas em casos mais graves, uma vez que nestes casos a mediação vítima-ofensor não teriam bons resultados, pois não haveria uma interação “moralmente equivalente” entre as partes envolvidas. Tal procedimento é realizado por meio de reuniões, com a presença de familiares e membros da comunidade, onde todos cooperam na busca de soluções.
As câmaras restaurativas ocorrem no âmbito do processo judicial, com um rito diferenciado, sem formalidade, tendo como base os princípios restaurativos, sendo o processo todo coordenado por facilitadores e mediadores capacitados, objetivando-se traçar metas para reparar os danos causados, de modo que seja estabelecido um compromisso entre os envolvidos.
Scuro Neto (2011 apud PINTO, 2016), aponta que as câmaras restaurativas são muito utilizadas em países como Austrália, Inglaterra, País de Gales, Canadá e Estados Unidos, possuindo resultados satisfatórios.
2.1.2.5.3 Círculos restaurativos
Zehr (2012) afirma que as abordagens circulares tiveram origem nas comunidades aborígines do Canadá, sendo também conhecido pelo termo “Círculos de Construção de Paz”. Nessa modalidade, os participantes se acomodam formando um círculo, momento em que um objeto, denominado “bastão de fala”, vai sendo repassado entre os envolvidos para que cada um tenha oportunidade de falar e ser ouvido, respeitando-se a ordem em que estão sentados:
Um “bastão da palavra” cria espaço para as ideias dos participantes que teriam dificuldade para se inserirem no processo habitual de diálogo. No processo circular, presumimos que todos os presentes têm uma contribuição a prestar para a resolução do problema. O uso deste símbolo, que pode ser uma chave, caneta, ou qualquer outro objeto, reduz a responsabilidade do facilitador e aumenta a responsabilidade de cada participante por conduzir o diálogo para uma boa finalidade (PRANIS, 2006, p. 4).
No início do círculo, “são explicitados certos valores, ou mesmo uma filosofia, que enfatiza o respeito, o valor de cada participante, a integridade, a importância de se expressar com sinceridade, etc.” (ZEHR, 2012, 62).
Segundo Pinto (2016, p. 91), os círculos são semelhantes às Câmaras e, até mesmo, à mediação, “se diferenciando por promoverem um envolvimento ainda maior das comunidades na resolução da problemática que cerca uma infração”, contudo, só é possível quando o ofensor possui um vínculo forte com a comunidade. Dessa forma, os círculos restaurativos ampliam o rol de participantes, podendo participar vítimas, ofensores, familiares, membros do Judiciário e, principalmente, membros da comunidade. Esses participantes podem ser convidados pela vítima e ofensor ou, ainda, podem ser membros de um círculo permanente de voluntários da comunidade.
Ainda sobre os círculos, Zehr acrescenta (2012, p. 62-63):
Em virtude do envolvimento da comunidade, os diálogos dentro do círculo são em geral mais abrangentes do que em outros modelos de Justiça Restaurativa. Os participantes podem abordar circunstâncias comunitárias que talvez estejam propiciando violações, podem falar do apoio a necessidades de vítimas e ofensores, das responsabilidades que a comunidade possa ter, das normas comunitárias, ou outros assuntos relevantes para a comunidade.
Diante do exposto, é perceptível que os círculos restaurativos constroem uma conexão entre os envolvidos, baseada no respeito, na solidariedade e na expressão de emoções, possibilitando que estes entendam que são responsáveis por seus próprios atos. Dessa forma, em virtude dos inúmeros objetivos que podem ser alcançados, os círculos podem ser aplicados
em escolas, locais de trabalho e no sistema judicial, “sempre visando o consenso, e permitindo que as partes contribuam para a formação de uma solução mais adequada e considerada justa para àquela situação conflituoso” (PINTO, 2016, p. 92).
2.1.2.5.4 Reuniões restaurativas
De acordo com Wachtel, O’Connel e Watchtel (2013, eBook Kindle), “a reunião restaurativa é um espaço de discussões no qual as pessoas lidam com transgressões e conflitos. Todos os participantes podem falar, expressar seus sentimentos e, o que é mais importante, opinar no resultado”, dessa forma, acrescentam que esse procedimento “é uma experiência democrática em que as pessoas mais afetadas por determinado problema decidem como reagir a ele”, cabendo ao facilitador manter um ambiente equilibrado e acolhedor, contudo, sem interferir diretamente na reunião, de modo que os participantes encontrem suas próprias soluções criativas (PINTO, 2016).
A parte mais importante das reuniões restaurativas é o roteiro, sendo este um instrumento confiável que permite ao facilitador guiar as reuniões, permanecendo em segundo plano para que não haja a sua interferência. Acerca do procedimento, dissertam Wachtel, O’Connel e Watchtel (2013, eBook Kindle):
Em primeiro lugar, o roteiro recomenda uma série de perguntas abertas, que incentivam os participantes a responder “emocionalmente”, ou seja, expressar de que modo foram afetados pelo problema que os reuniu ali. Em seguida, o roteiro proporciona aos participantes a oportunidade de trocar ideias, desenvolver um plano de abordagem do conflito ou transgressão e reparar os danos causados. Por fim, o roteiro convida os participantes para uma confraternização pós-reunião restaurativa, na qual são servidor petiscos, e onde eles podem interagir e conversar.
Apesar das reuniões serem pré-estruturadas, tendo como guia um roteiro que deve ser respeitado, essa prática mostrou-se extremamente eficaz, sendo atualmente aplicada em países como Nova Zelândia e Estados Unidos (PINTO, 2016). Diante dos resultados satisfatórios, Wachtel, O’Connel e Watchtel (2013) passaram a tentar entender e a estudar os motivos das reuniões restaurativas serem eficazes, vindo a descobrir que seu fundamento tem como base a teoria psicológica do afeto humano de Silvan Tomkins, uma vez que
o ambiente estruturado permite que as pessoas expressem esse afeto, minimizando afetos negativos e maximizando afetos positivos, propiciando a [re]construção de relações humanas mais saudáveis, concluindo que ao usar perguntas abertas, o roteiro da reunião restaurativa propicia que os envolvidos demonstrem os nove tipos básicos de afeto identificados por Silvan Tomkins em todas as pessoas, pelo que destacam que ao iniciar uma reunião restaurativa, as pessoas sentem aversão, repulsa, raiva-fúria, aflição-angústia, medo-terror e vergonha-humilhação, que são afetos negativos, com o prosseguimento da mesma se dá lugar ao afeto do tipo surpresa-espanto, que é considerado neutro, e, ao final, experimentados os afetos positivos de contentamento- alegria e interesse-empolgação (PINTO, 2016, p. 93).
No mais, Wachtel, O’Connel e Watchtel (2013) acrescentam que as reuniões podem ser aplicadas em ambientes escolares, delegacias de polícia, sistema judiciário, locais de trabalho, grupos de jovens e em meio acadêmico. Contudo, ressaltam a importância de aplicar em casos em que há vítimas identificadas, para que todos os envolvidos possam participar e alcançar os objetivos da Justiça Restaurativa.
2.1.2.5.5 Outras práticas restaurativas
Descritas as práticas mais recorrentes no cotidiano da Justiça Restaurativa, resta claro que não há uma única forma correta de sua aplicação, de modo que em cada caso deverá ser analisado qual o melhor método a ser adotado. Nessa senda, em virtude da sua constante evolução, que varia conforme as mudanças sociais, jurídicas e culturais a qual está inserida, não se pode negligenciar outras possíveis práticas restaurativas que não foram aqui mencionadas, resguardando-se sempre seus princípios e valores próprios.
Nesse ínterim, analisado o objetivo da Justiça Restaurativa e suas diversas formas de aplicação, mostra-se necessário estudar, no próximo capítulo, o crime da pornografia de vingança e as consequências do ilícito na vida das vítimas, para que, ao final, seja analisada a possibilidade de aplicação da Justiça Restaurativa nestes casos.
3 PORNOGRAFIA DE VINGANÇA
Feitas as anotações básicas sobre a estruturação da Justiça Restaurativa, sendo debatidas as questões que envolvem sua conceituação, seus princípios e práticas, bem como o momento de sua aplicação, com suas consequências, deve-se partir para a análise do delito de pornografia de vingança para, ao final, estudar a aplicabilidade de práticas restaurativas nestes casos.