Retrato 1 – Recortes de documentos oriundos da justiça
4 ANÁLISE DA ORIGEM, DO MODUS OPERANDI E DAS
4.6 PRÁTICAS SOCIAIS E FORMAS DE SOCIABILIDADE: o consumo de
Para acercar-se do universo das práticas sociais e das formas de sociabilidade dos apenados anteriores à sua condenação, procurou-se apreender a relação (de dependência ou não) que eles estabelecem com as drogas. Iniciou-se com o álcool, no gráfico abaixo. Esclarece-se que, para evitar qualquer dúvida em relação a uma instrumentalização desta pesquisa pela administração do Sistema Penitenciário, elaborou-se questões usando os termos no passado (“usava”, “consumia”, “bebia” etc.). Essa foi uma estratégia para evitar situações que os entrevistados pudessem perceber que poderiam se autoincriminar. Por outro, referiu- se ao consumo anterior à entrada na prisão para não levar a suspeitas de que buscava-se realizar um rastreamento sobre possíveis redes de transações comerciais (fornecedoras de drogas, entre outras mercadorias) nos presídios.
Gráfico 23 – Consumo de álcool
Fonte: Pesquisa de Campo (2014)
2 Por uma questão de foco do presente trabalho, e dado o elevado conhecimento sobre essas drogas,
não iremos fazer uma apresentação técnica das mesmas. Utilizaremos também as denominações populares, com as quais elas são identificadas pelo público em geral.
Talvez os dados acima não sejam tão diferentes daqueles relacionados ao conjunto da população. Por outro lado, o consumo de bebida alcoólica todo final de semana, prática de 50% dos entrevistados, pode ser um elemento que potencializa espaços e momentos de conflitos interpessoais. Isso porque os efeitos do consumo de álcool não são os mesmos para as diferentes classes sociais. Para as classes populares, de onde se originam os presos, o consumo de bebidas é geralmente realizado em espaços públicos ou abertos, como bares e botecos, por vezes, em áreas próximas às suas residências. Já a classe média realiza esse consumo em ambientes distantes da vizinhança, muitas vezes fechados e distantes do olhar e escrutínio público. Assim sendo, em si mesmo, o consumo de álcool não é fato determinante, mas ele é decisivo quando o relacionamos à classe social dos consumidores.
Analisando-se, pois, a relação dos apenados com drogas ilegais e carregadas de grande condenação moral. Veja-se, em primeiro lugar, o caso da maconha. Trata- se da droga ilegal mais popular e aquela que, durante muito tempo, foi a principal responsável pela prisão de muitos jovens das áreas periféricas das grandes e das médias cidades brasileiras. Tem-se em mente o fato de que, em muitos momentos, o simples consumo da droga foi motivo suficiente para a condenação por longo período de tempo, situação que somente foi alterada muito recentemente, com a nova legislação sobre drogas, na segunda metade da década passada.
Gráfico 24 – Consumo de maconha
A popularidade da maconha é comprovada, levando-se em conta que quase 70% dos entrevistados usavam-na todos os dias ou faziam uso dela pelo menos uma vez por semana (a maioria). Para uma visão mais nuançada dessa questão, vale a pena reter-se aqui a relação de uso em relação à idade e ao município no qual o entrevistado cumpre pena. É o que se apresentou nos dois gráficos seguintes.
Gráfico 25 – Consumo de maconha por idade
Fonte: Pesquisa de Campo (2014)
Gráfico 26 – Consumo de maconha por município
O que os dados apontam é que a maconha é a droga dos mais jovens das grandes cidades. O seu uso intensivo mostra também a vulnerabilidade dessa parcela da população a ser capturada por alguma estrutura do Estado (polícia ou judiciário) como elemento justificador de seu enquadramento em ato ilegal. Ora, sabe-se que o consumo de maconha entre jovens de classe média raramente leva aos caminhos da ilegalidade. Como a ilegalidade é socialmente construída, ela é estabelecida mantendo-se a diferença de classes. Daí, pode-se deduzir que o consumo de maconha é algo afirmativo de identidade para os jovens mais ricos, é elemento que acentua a vulnerabilidade dos mais pobres.
Veja-se, agora, o que ocorre em relação a outra droga ilegal, que é vista pela população e por muitos especialistas como caminho sem volta para a autodestruição dos seus consumidores, que é o crack.
Gráfico 27 – Consumo de crack
Fonte: Pesquisa de Campo (2014)
O fato de nada menos que 30% dos usuários revelarem que faziam uso de uma droga com elevado potencial de dependência química e de desestabilização emocional e psicológica parece revelar uma sociabilidade alicerçada na precariedade e na ausência de planejamento de futuro. Também em relação à essa droga, vale a
pena registrar-se o seu diferencial por idade e por municípios nos quais se encontram os apenados.
Gráfico 28 – Consumo de crack por municípios
Fonte: Elaboração própria.
Gráfico 29 – Consumo de crack por faixa etária
Uma última droga ilegal, geralmente associada a práticas delituosas, é a cocaína. Por isso mesmo, vale a pena se reter aqui qual a relação dos entrevistados com a mesma. No gráfico abaixo, percebe-se uma representação do seu consumo pelos apenados do Sistema Penitenciário Paraibano.
Gráfico 30 – Consumo de cocaína
Fonte: Pesquisa de Campo (2014)
Observa-se que a cocaína está longe de ser uma droga de largo consumo entre os presos do Sistema Penitenciário Paraibano. Pode-se especular, portanto, que essa droga ilegal use os mais pobres (como mulas e entregadores) do que por eles seja usada.
Por último, vale a pena referir-se ao cigarro, que é uma droga legal geralmente transformada em moeda para as transações realizadas no interior dos presídios brasileiros.
Gráfico 31 – Consumo de cigarros
Fonte: Pesquisa de Campo (2014)