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3.3 INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS

3.3.1 Pré e pós-testes: protocolos orais de noticing

Para medir a capacidade de noticing dos participantes dos grupos experimental e controle, aplicamos um pré e um pós-teste no formato de protocolo oral, com um intervalo de 11 semanas entre um e outro. Protocolos orais consistem na verbalização do pensamento dos indivíduos enquanto executam uma determinada tarefa, o que gera um fluxo da consciência (GASS; SELINKER, 2008).

48 Os testes consistiram na identificação de erros sintáticos em um texto escrito em LI. Cada participante recebeu um texto, dentre duas opções25. Controlamos os efeitos da tarefa garantindo que metade dos participantes lidasse com um texto e a outra metade com outro em ambos os momentos da coleta, e que cada participante lidasse com um texto diferente em cada etapa.

No caso do grupo experimental, o protocolo foi realizado com todos os participantes reunidos, em uma mesma sessão em um laboratório de informática da UFRN, onde cada participante utilizou um computador desktop equipado com um headset para gravar a própria fala. No caso do grupo controle, o teste foi realizado individualmente, aluno por aluno, utilizando-se um computador portátil, uma vez que não dispusemos de um laboratório de informática na UFERSA.

Os participantes de ambos os grupos receberam as mesmas instruções para a realização do protocolo, as quais, embora tenham sido entregues impressas na L2 (cf. APÊNDICE C), foram passadas verbalmente na L1, na tentativa de evitar desentendimentos acerca da instrução e da tarefa. Passadas as instruções, demos aos participantes a oportunidade de esclarecer dúvidas sobre a tarefa antes de iniciar os protocolos.

Primeiramente, pedimos aos participantes que ajustassem e testassem o headset. Em seguida, explicamos que a tarefa consistia em identificar erros sintáticos no texto que lhes havia sido entregue. A próxima instrução foi para que gravassem a análise utilizando o gravador de som do Windows, lendo cada frase como estava (em inglês) e apontando em seguida (em português) onde estariam os erros, caso identificassem algum. Após identificar um erro, o participante deveria dizer quais alterações faria naquele trecho. O mesmo procedimento deveria ser seguido para cada frase do texto.

A reflexão sobre o texto deveria ser feita em L1 para que o participante pudesse se expressar livre e fluidamente, sem que esbarrasse em eventuais barreiras linguísticas da L2. Ponderamos que apoiar-se na L1 facilitaria o processo de reflexão, tornando os participantes mais confiantes perante a tarefa.

Faz-se necessário salientar que não nos interessava a correção do erro, mas sim a identificação de trechos julgados problemáticos pelos participantes. Logo, os escores do teste dizem respeito à identificação dos erros no texto, ao fato de os aprendizes terem percebido um problema sintático.

49 Em alguns casos, os participantes “corrigiram” trechos que não apresentavam problemas ou simplesmente não identificaram o erro sintático. Esta questão é ilustrada pelos exemplos a seguir, em que o participante não conseguiu identificar o erro (participante 9), optou por substituir a expressão sleeping tight mesmo não encontrando erro (participante 13), conseguiu identificar e reparar o erro no tempo verbal (participante 15).

P9: it is late night and joe was sleeping tight when he heard a strange noise não vejo nenhum problema nessa frase

P13: outra coisa é que eu substitui a palavra tight por hard sleeping hard não porque tá errado na minha opinião mas porque hard dá um sentido melhor ao fato de estar dormindo pesado

P15: it is late night and joe was sleeping tight when he heard a strange noise bom ele tá usando o verbo no passado mas ele começa com it is então eu poderia mudar para it was late night

Instruímos os participantes a salvar, após a gravação, o arquivo com o seu nome na área de trabalho do computador, entregar ao pesquisador o termo de consentimento devidamente assinado e deixar o local de realização do protocolo. As gravações foram transcritas e analisadas. Após a tabulação dos resultados, pudemos comparar os escores de noticing dos participantes, inter e intra grupos.

A título de ilustração, o Quadro 1 traz a transcrição parcial do pré-teste de um dos participantes do grupo experimental. As frases em vermelho são os trechos da narrativa lida; as demais são as reflexões do participante em relação à passagem que acabou de ler.

[…] bob was really tired of that day he only wanted to rest down on his bed and sleep bom na minha opinião não é necessário essa preposição of e o restante tá tudo okay when he close his eyes he heard a noise really far away nessa sentence eu precisa-se flexionar o verbo close closed não há necessidade dessa vírgula após eyes e o really também tá em excesso então a sentença ficaria when he close he closed his eyes he heard a noise far away the next he just ignored it although the noise became a scream a really loud and desperate scream of helplet‟s see he just ignored it okay desperate scream really loud and desperate scream i think it‟s okay he woke up and looked around he woke up o verbo não seria woke up porque ele ainda não dormiu he got up ele levantou seria levantou got up and looked around okay that was nothing in his room but the darkness of the nightit‟s okay tudo bem então só a questão do verbo aqui wake up que esse deveria ser get up e no passado got up so he decided to go back to sleep so he decided to go back to sleep nevertheless before that he heard a woman scream please help me somebody please help me he decided to go decided to go back acho que a partícula toda aqui está em excesso nevertheless before não há necessidade do do before before that está em excesso a woman scream please help me somebody please help me please help me okay somebody help me não há necessidade do please continuando […]

Quadro 1: Exemplo de protocolo oral26

50 Seguimos este modelo de protocolo com base nos estudos experimentais conduzidos por Leandro e Weissheimer (2012) e Sousa (2014), os quais também mediram a capacidade de noticing de aprendizes de inglês como L2. Na próxima seção abordamos a tarefa de escrita colaborativa em L2 realizada pelos participantes do grupo experimental.

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