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Figura 63 - Premiação 1 - Fonte: Anuário de 1921.
Ter a fotografia impressa no anuário era um prêmio concedido àqueles que se destacavam pela boa conduta. Em 1921, o menino Marcolino Carlos de Souza, nascido em Campo Grande, foi um dos homenageados por meio da prática da fotografia como premiação. O retrato em meio a uma montagem, “quadro de honra”, atribui ao menino certo ar de realeza, celebridade. O rosto de perfil cuidadosamente posicionado, semblante sério e austero, não esconde a satisfação, a alegria transmitida pelo olhar.
A prática da premiação é uma herança jesuítica, um instrumento de emulação. Emulação seria um sentimento que impele alguém a fazer o possível para imitar, igualar ou suplantar as boas ações de outrem, o que alguns chamam de concorrência sadia. La Salle e os “Irmãos das Escolas Cristãs” adotaram a premiação como estratégia para o bom comportamento e a disciplina. Em suas escolas, “à medida que as correções foram diminuindo, ocorreu paralela humanização das penitências e progressiva multiplicação das recompensas de todo tipo.” (HENGMÜLER, 2007, p. 283). É nesse sentido que a premiação é tratada pelo sistema
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preventivo de Dom Bosco e de seus seguidores, como um estímulo para o bem, em oposição aos castigos.
Nas escolas salesianas, as premiações poderiam ser de natureza moral ou material. Dentre as materiais, encontrei desde a distribuição de guloseimas, de livros, o direito a um passeio, até um sistema de distribuição de medalhas. Dentre as premiações morais estavam elogios, quadros- de-honra e notas. As notas eram de dois tipos: relativas ao comportamento e ao aproveitamento nas disciplinas escolares.
Nos primeiros anos do Liceu Coração de Jesus, os boletins mensais (Figura 64), que pareciam diplomas, eram assinados pelo Diretor. As notas, ditas de procedimento, eram: sofrível, boa ou ótima. Em 1899, no Resultado Final do Ano, eram apresentadas as notas de estudo, de artes e a nota média delas. Além disso, apareciam notas separadas de aplicação e de procedimento geral. Neste documento (Figura 64), assinado pelo Diretor, era esclarecida a equivalência estabelecida entre notas e conceitos. Ótimo, Bom Regular, Medíocre e Sofrível correspondiam, respectivamente, às notas 10, 9, 8, 7 e 6. A partir de 1915, a classificação mudou para: Ótimo, Bom, Regular e Insuficiente, e posteriormente foi acrescentado Muito Bom abaixo de Ótimo. Segundo Meschiatti (2000), nas escolas salesianas de Campinas, em um período que não é explicitado, “nos boletins constava a classificação dos alunos em relação aos outros da classe. O primeiro, segundo e terceiro lugares da classe costumavam receber uma 'salva de palmas' “(MESCHIATTI, 2000, p.117).
Ao final do ano letivo acontecia a festa das premiações. Os prêmios eram bastante variados, de modo a abranger o maior número possível de alunos da Instituição. Dentre os itens avaliados estavam: procedimento, aplicação ao estudo, desempenho no trabalho, instrução religiosa, música vocal e instrumental, desenho, datilografia, pontualidade, assiduidade, declamação, além das premiações desportivas.
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O Quadro 3, adaptado de estudos de Santos (2000), mostra o movimento de prêmios no Liceu Coração de Jesus entre 1915 e 1928.
Ano Liceu Coração de Jesus
P R A M O T 1915 98 70 56 59 293 1916 148 57 39 49 26 319 1917 175 80 81 56 391 1918 220 164 166 77 15 642 1919 189 128 141 45 36 539 1920 292 162 183 90 44 771 1921 280 162 177 102 44 765 1922 264 187 132 95 83 761 1923 502 150 124 108 39 933 1924 557 291 194 91 25 1128 1925 363 312 241 64 76 1056 1926 262 181 220 131 51 945 1927 183 141 227 48 18 617 1928 383 232 198 96 25 934 LEGENDA: P = Procedimentos R = Instrução religiosa A = Aplicação aos Estudos
M = Música ( canto, banda,piano,flauta,violino, violão, bandolim etc.)
O = Outros ( desenho, datilografia, declamação, antiguidade, pontualidade, estenografia, etc.) T = Total
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Em 1923, o Conselho do Liceu Coração de Jesus elaborou um esquema para a distribuição de medalhas com o intuito de democratizar os prêmios. Tal sistema estabelecia critérios para classificações mensais e anuais e atribuíam-se pontos às diferentes ações e atividades dos alunos. Conforme o número de pontos atingidos, os meninos eram recompensados com as medalhas de Ouro, Prata, Bronze, Quarta medalha, Quinta medalha e muitas vezes Sexta medalha. Os nomes dos premiados figuravam nos anuários, a exemplo do Anuário de 1924 que possui nada mais que 27 páginas de nomes de alunos contemplados. Nessa relação, encontrei o nome de Nicolau D’Ambrosio, vencedor do 1° Premio e da Medalha de Ouro da turma do 4° ano Ginasial, e que viria a se tornar professor de Matemática no Liceu, autor de livros didáticos, pai de Ubiratan D’Ambrosio, uma referência para a Educação Matemática no Brasil.
Segundo Souza (2000), em função das dificuldades financeiras, a prática de premiação foi reduzida nos anos 30.
2.7 “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite”
Dar “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” antes das atividades escolares ou antes de dormir é uma prática salesiana. “Para os externos, [ocorria] logo na entrada das aulas, sendo pela manhã ou pela tarde” (MESCHIATTI, 2000, p.117. Para os alunos internos, ela acontecia à noite. Depois da oração, antes de os alunos irem para os dormitórios, o diretor fazia uma rápida alocução de aproximadamente cinco minutos na forma de história, de conselho, de mensagem que propiciasse um momento de reflexão a respeito de algum fato acontecido ao longo do dia, ou mesmo de orientação com a retomada de alguma das normas do regulamento.
A literatura salesiana consultada atribui a origem de tal prática à mãe de Dom Bosco, Donna Margarida, “D. Bosco inspirou-se em sua mãe, quando se deu conta da grande eficácia que tinham, no animo dos seus primeiros recolhidos, as affectuosas e maternas palavras com que a Mamãe Margarida os acompanhava na hora de mandá-los para cama.” (CIMATTI, 1929, p. 177). No entanto, os “Irmãos das Escolas Cristãs”, ou Lassalistas, com quem Dom Bosco conviveu no início do sacerdócio como confessor, efetuavam algo muito semelhante que
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denominam de “Reflexão”. “Reflexão, na pedagogia lassaliana, é uma curta e palpitante exortação de cinco minutos aproximadamente, dirigida aos alunos no início da primeira aula” (JUSTO, 2003, p.252). A Reflexão criaria um clima, uma atmosfera espiritual à aula, predispondo os alunos ao trabalho. Tal prática é característica das escolas lassalistas até os dias de hoje, tendo sido criado um sistema de agendas adaptadas, em que, a cada dia, se encontra uma mensagem para o momento de Reflexão, que acontece entre professores momentos antes do início de suas atividades, e entre os alunos, na primeira aula do dia. Segundo Ir. Justo (2003), “D. Bosco inscreveu as exortações no seu admirável sistema educativo. O “boa-noite” da pedagogia salesiana não passa de feliz adaptação aos internatos da “reflexão” dos Irmãos.” (JUSTO, 2003, p. 255). Nas escolas salesianas, “esse costume ainda existe, porém as preleções são feitas não apenas pelo Diretor, mas também por outras pessoas integrantes da equipe educativa.” (MESCHIATTI, 2000, p.117).
As diferentes práticas apresentadas com menor ou maior intensidade visavam, em síntese, garantir a concretização do sistema preventivo de Dom Bosco. Constituem ainda um conjunto de modos de fazer e de pensar a educação salesiana. Tais práticas, todavia, são reguladas por uma série de regras de diferentes naturezas: morais, sociais, religiosas e mesmo intelectuais. Regras que direcionam ações e pensamentos, que regulam a vida e principalmente o tempo escolar. No próximo tópico, detenho-me a analisar com mais profundidade o tempo escolar e a rotina diária no Liceu Coração de Jesus.
2.8 A Organização do tempo e da rotina escolar: “pôr os alunos na impossibilidade de