CITY
Filipe MATOS, Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Or- denamento do Território da Universidade de Lisboa, Portugal.
Ana ESTEVENS, Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa, Portugal.
Agustín COCOLA-GANT, Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa, Portugal. Daniel Malet CALVO, Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, Insti- tuto Universitário de Lisboa, Portugal.
Resumo: Os artistas e os movimentos sociais têm utilizado a arte e a cultu- ra como instrumento de resistência, mudança e transformação das relações sociais, implementando práticas artísticas que constituem uma crítica evi- dente às práticas e às políticas neoliberais de produção da cidade. Nesta crí- tica, frequentemente enfatizam o potencial político das artes e a relevância de compreender a diversidade dos contextos urbanos e sociais. Apesar da tendência para se formatarem comportamentos e práticas, têm-se também produzido espaços de novas urbanidades, de diversidade e de participação democrática colectiva, onde se desenvolvem práticas e espaços artísticos alternativos. Enquanto lugar político, estes espaços são lugares potenciais de resistência a práticas e modelos hegemónicos: são espaços onde a reflexão e a critica, associados à criatividade, ajudam a desenvolver práticas que espe- lham realidades escondidas por trás da imagem cosmopolita e da perfeição em que se quer transformar a cidade. É sobre esta dialéctica que se quer
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discutir tendo como foco a área da freguesia de Arroios, em Lisboa. Por um lado, os artistas e os movimentos sociais, utilizam a arte e a cultura enquanto instrumentos de resistência, mudança e transformação das relações sociais, implementando, nas suas práticas, múltiplas críticas à cidade neoliberal. Os movimentos e organizações de base local emergem com objetivos de capa- citar as comunidades locais e construir espaços alternativos. Por outro lado, os agentes do poder local têm seguido princípios neoliberais e implementa- do políticas urbanas ancoradas na cultura, com o objetivo de atrair turistas e a classe criativa. Neste contexto, a criatividade artística e cultural tem constituído um elemento essencial para as políticas urbanas, nomeadamente enquanto meio de potenciar competitividade entre cidades e crescimento económico. Nesta comunicação pretendemos enfatizar as dicotomias e ten- sões entre os diferentes usos políticos e sociais da arte analisando as práti- cas e os espaços culturais e artísticos alternativos à luz das políticas públicas hegemónicas implementadas na cidade de Lisboa. Neste sentido, procuramos evidenciar a tensão existente entre, por um lado, o uso das práticas artísticas e culturais por agentes de base local, enquanto forma de inovação social e de produção de novas urbanidades e, por outro lado, o uso da arte e da cultu- ra pelas políticas públicas neoliberais enquanto panaceias para a decadência urbana. Não obstante de ambicionarem confrontar, resistir e criticar esta di- nâmica, sugerimos que estas dinâmicas alternativas contribuem, ironicamente, para o processo de regeneração urbana liderado pelo mercado, que estimula processos de gentrificação. A comunicação sustenta-se na realização de en- trevistas com atores locais, observações regulares, e registos etnográficos em 2018 e 2019, bem como pela utilização de informação secundária realizada pelas/os autoras/es em projetos de investigação anteriores.
Palavras-chave: Práticas Culturais e Artísticas; Cidade Neoliberal; Gentri- ficação; Lisboa.
Referências
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REBEL GIRL: Uma “flâneuse” possível?
REBEL GIRL: A possible ‘flâneuse’?
Alicia de MEDEIROS, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Portugal.
Resumo: O caminhar começa a ser percebido de forma poética e artísti- ca com a figura do flâneur. O retrato deste personagem que vaga entre as reformas urbanas e as multidões parisienses parece dominar o universo ar- tístico e académico fascinado pelo urbano. A imagem do flâneur como uma mulher, no entanto, nunca foi explorada no séc. XIX e é de difícil visualização ainda hoje. Pode-se dizer que o uso da palavra “flanêuse” (no feminino) se encontra hoje em debate. Existe uma versão feminina deste personagem romântico? As mulheres que caminham e ocupam o espaço público sen- tem-se à vontade para o fazê-lo na mesma plenitude que o “pintor da vida moderna”? O presente artigo pretende, de forma ainda informal e ensaísta, fazer um paralelo entre a figura do flâneur e da rebel girl (música e termo popular no movimento punk riot grrrl dos anos 90) em contraponto a ma- nifestações e marchas feministas contra o assédio/violência de género (e a favor do direito à cidade), como a norte-americana “Take Back The Night”, a canadense “Slutwalk” ou os “Lanternaços” brasileiros, muitas vezes impul- sionadas por artistas e ativistas feministas. A presente reflexão faz parte de uma investigação de Doutoramento em Artes Plásticas intitulada “Walking for it - Caminhar como uma prática artística nas cidades das mídias móveis: uma resistência poética à violência de género” em desenvolvimento na Fa- culdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), que metodo- logicamente se debruça principalmente no formato de investigação visual e digital colaborativa, com pessoas que sofrem ou já sofreram assédio em espaços públicos, através da recolha de narrativas e dinâmicas auto-etno- gráficas. O conceito de flânerie, no feminino, pode ser ressignificado? Que personagem ou termo melhor define a realidade feminina no contexto ur- bano? Uma mulher, uma personagem, que apesar das mazelas presentes nas
cidades patriarcais, caminha de cabeça erguida e traz a revolução nos passos. Para essa mulher, caminhar e ocupar a cidade é um sinónimo de resistência política. Somos “flâneuses” ou garotas rebeldes?
Palavras-chave: Cidade, Género, Flâneur, Ativismo Feminista. Referências
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