Pedro Guimarães
* * Título da Ação: Residência Mistura Período da residência: 27 a 31 de Julho 2016 Local: Sede do mBrac e Polo Experimental de Convivência, Educação e Culturamental e buscava discutir, nesse caso específico, a institucionali- dade de um museu inserido na Colônia.
Investigar esses dizeres poéticos foi a chave inicial para colocarmos em campo nossa pesquisa sobre os limites, papéis e normas possíveis de se inter-relacionarem em espaços ao mesmo tempo tão complexos e tão acolhedores como o Museu, o Polo e os entornos da Colônia.
O fator relacional
Algumas semanas após a abertura da exposição DAS VIRGENS
EM CARDUMES E DA COR DAS AURAS, fizemos novamente o
trajeto São Paulo-Rio de Janeiro, desta vez para fazer acontecer a Residência Mistura, proposição nascida de um forte desejo da
escuta poética como dispositivo relacional.
Na bagagem, uma máquina de escrever portátil e o corpo aten- to ao diálogo dos gestos para coletar relatos dos usuários do Polo Experimental e da comunidade que circula por lá durante o dia. Gerar encontro, conversa, humor, cumplicidade, enfim.
Como em todo processo iniciado, nunca sabemos ao certo onde
vamos desaguar. Mas, no caso dessa Mistura, percebemos de
imediato o grau de implicação a que estávamos nos dispondo e o envolvimento que fomos gerando, dia após dia, imersos em uma sensibilidade rara que crescia conforme o grau de intimidade que os relatos disparavam.
Impossível traduzir o transbordamento de memória afetiva que presenciamos junto a cada participante das nossas “rodas de pro- sa”. Fossem eles usuários, artistas, educadores do Museu, funcio- nários da saúde ou agentes culturais, todos tinham invariavelmen- te um trecho de história, uma fofoca espirituosa, um “recuerdo” de paixão mal concluída, uma fábula inventada, um conto de pavor, uma queixa contra o mundo ou apenas uma confissão poética a contribuir com a nossa proposta.
Convivência, Educação e Cultura, anteriormente usado para confinamento de pacientes em “surto” e hoje espaço onde usuários e comunidade podem usufruir de várias atividades artísticas e culturais. No Polo também atuam alguns usuários residentes (“arte-usuários”) que vêm desenvolvendo seus tra- balhos artísticos orientados por profissionais dedicados a um importante processo de “descolonização” do pensamento ar- tístico e da saúde mental.
Detalhes da paisagem
Como artistas “estrangeiros” convidados a instaurar uma residên-
cia artística dentro da exposição DAS VIRGENS EM CARDUMES
E DA COR DAS AURAS, nos espaços da Colônia, nos pusemos a
pensar em quais seriam as abordagens possíveis em um contexto onde o denso histórico psiquiátrico e a presença poética de Arthur Bispo do Rosário ocupam expressivamente a paisagem local.
Queríamos, com a nossa estadia, fortalecer o sentido de uma prática artística que ativasse os limites entre arte e vida e nos de- safiasse a entender na pele a complexidade local e as possibi- lidades de troca com os usuários. Deslocamento de papéis es- tabelecidos, agenciamentos, subversão dos modos de entender, produzir, mediar e potencializar propostas artísticas. Muitas eram as nossas apostas ao fazermos as malas para Jacarepaguá.
Foi preciso chegar de coração inteiramente disposto, con- dição que já havíamos despertado no nosso primeiro contato
com os usuários na abertura da exposição DAS VIRGENS EM
CARDUMES E DA COR DAS AURAS, em nossa intervenção
performática Cara de Quê?. Na ocasião, munidos de um espelhi-
nho portátil, perguntávamos aos usuários, artistas e passantes do Museu que caras eles tinham. As questões iniciais colocavam em jogo os atores da cena artística e da instituição pública de saúde
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Projeto Matilha
Residência Mistura, 2016 Impossível também encontrar o ponto exato onde vida e arte
vão se misturando até virarem pura poesia cotidiana nos corpos, nas marcas deixadas pelo riso, na beleza do trabalho desfrutado coletivamente, no carinho e na confiança mútua instaurada entre nós. Arte, alteridade, convívio, mediação, troca, escuta e poéticas próprias. Eis algumas das chaves que acreditamos terem aberto os caminhos para a nossa estadia na Colônia.
Pura mistura
Como forma de retribuir a acolhida e o afeto que nos dedicaram, acabamos por montar um pequeno mural nas dependências do Polo a partir de um recorte das frases mais impactantes que co- letamos durante os dias de conversa na residência.
Das frases no mural não se pode distinguir ao certo o autor ou o con- texto, mas na leitura do todo, é possível apreciar bem de perto uma incrível paisagem sentimental que se traduz em vida vivida, em corpos afirmados na coragem, essa “ação do coração”. Afirmação da existên- cia e da resistência frente à colonização devastadora de outrora.
Mural-enigma, cartaz-anúncio do tempo presente, palavra cola- da nos tijolos da memória. O que disse o poeta e o que disse o louco isso nunca ninguém saberá!
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locou e ocupa no mundo. Da abjeção, invisibilidade, esquecimen- to, exclusão a um lugar, um nome, o criador de um mundo, este mesmo que ele recriou e com obras que circulam pelos “templos” das artes, espaços de grande destaque, museus, centros culturais e tantas outras instituições, além de estarem em livros, fotografias, filmes, peças de teatro, cordéis, teses e muitas outras produções que se desdobram a partir de suas experiências.
Bispo recriou-se e conquistou seu mundo e seu lugar de des- taque. Foi deste mundo invisível e desconsiderado, espaço dos medos e repulsas, que ele ergueu um outro, o seu, onde era abso-
luto com seu Manto da Apresentação, o manto que ele iria vestir
no dia do Juízo Final. Assim, Bispo tornou-se senhor de si e de seu mundo, o escolhido para recriar o mundo a ser salvo. Este poder lhe foi conferido em suas visões e, desta maneira, ele pode seguir firme, conquistando, contra todos os sistemas, o seu próprio e rei- nando ali com seus Parangolés. Incorporações. Bispo, assim, criou
uma obra performativa de vida, em suas relações com outros pa- cientes, profissionais de saúde, artistas, pesquisadores e todos que o conheciam e se interessaram pela sua produção.
É esta vida-obra que me interessa em suas performances diárias. Micropolíticas. Bispo resistiu e conquistou seu espaço. Temido e respeitado por sua força dentro da Colônia, conquistou regalias e não se submetia às regras do lugar. Desta forma, criou suas próprias narrativas e objetos com os quais ele habitava este mundo.
Desde o momento em que recebi o convite, me interessei em vivenciar com elas, mulheres usuárias e profissionais do sistema de saúde da Colônia Juliano Moreira, questões que perpassam a
Grassa Crua. Nossos corpos, confinamentos, exclusões, vaidades,
formatações, ilusões, frustrações, desejos, movimentos, espaços de poder, potências e liberdades. São qualidades e situações que constroem os eixos da performance e desejei estender as expe- riências, propondo ações coletivas performativas.
Grassa Crua foi grassar por outras paragens. A ideia do traba-
lho é sair grassando, espalhando suas graxas por aí, por outras
corpas de mulheres, em lugares das exclusões e abjeções, em
busca de trazer emoções que lubrifiquem juntas, os ligamentos ressecados, presos e contidos. Para romper as normas e quebrar as amarras que nos aprisionam.
Estar ali na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, por meio do trabalho, naquele lugar mítico para mim. Este foi um desejo latente desde 2002, quando conheci o lugar e o trabalho de Bispo, de perto, fazendo fotografias de seu acervo.
Recebi o convite para integrar a programação da exposição DAS
VIRGENS EM CARDUMES E DA COR DAS AURAS, com curadoria
de Daniela Labra, que conta com um conjunto de obras de Arthur Bispo do Rosário e de artistas brasileiros que investigam a perfor- mance ou o performático na arte. A participação envolvia a uma resi- dência artística e a apresentação da performance Grassa Crua.
Grassa Crua é um trabalho desenvolvido como pesquisa de pós-
doutorado junto ao Lume Teatro/Unicamp 2015-2016. Esta resi- dência aconteceu no momento em que estávamos encerrando a pesquisa proposta. Finalizar os trabalhos com esta experiência, permanecendo e produzindo naquele lugar por dias seguidos, acordar, dormir, sentir e produzir arte. No lugar de Arthur Bispo do Rosário, espaço destinado à loucura e que ele transformou em potência para a criação de arte. Oportunidade especial.
Bispo, artista que revolveu o mundo das artes e me transformou. Produções que espantam o mundo por sua força. Reconhecido in- ternacionalmente, ainda hoje, seu trabalho se depara com os pre- conceitos em relação aos corpos considerados malditos. Bispo transformou seu cárcere em lugar de criação, trazendo vida e força àquele lugar, sendo ele artista-senhor de seu ateliê, vestido com seu Manto, reinando absoluto em universo recriado com esmero
e dedicação, com poética própria, como o lugar em que ele se co-