Extremo oeste junto a
PRAIA DE PIRATININGA
PA PB PC
Frente de praia Areia média Areia média Areia média
Inverno 2004 Pós-praia Areia média Areia média Areia média
Frente de praia Areia média Areia média Areia média
Verão 2005 Pós-praia Areia média Areia média Areia média
Frente de praia Areia média Areia média Areia média
Inverno 2005 Pós-praia Areia média Areia média Areia média
Frente de praia Areia média Areia média Areia média
Verão 2006 Pós-praia Areia média Areia média Areia média
O grau de selecionamento apresenta um padrão de ligeiro aumento em direção a leste. A comparação do grau de selecionamento entre frente de praia e pós-praia permitiu constatar um padrão bastante homogêneo, ou seja, o grau de selecionamento é muito parecido em ambos os ambientes da praia (tabela 10 e figura 68).
Análises granulométricas da areia em Piratininga, realizadas na década de 70 por MUEHE (1975), indicam tratar-se de areia média, composta por areia quartzosa e fragmentos de conchas de vários tamanhos. Estudo realizado por SANTOS (2001) em Camboinhas, localizada à leste da praia de Piratininga, constatou o predomínio de areia média ao longo da praia, com ligeiro aumento dos grãos de areia junto ao
extremo oeste. Constatou-se ainda, um grau de selecionamento mais alto no meio do arco e no extremo leste. Trata-se de um comportamento semelhante ao apresentado pela praia de Piratininga.
Tabela 10 – Grau de selecionamento das areias da Praia de Piratininga segundo a classificação de Wentworth (1922), (Em: Pettijohn, 1975).
PRAIA DE PIRATININGA
PA PB PC
Frente de praia Moderado Bom Bom
Inverno 2004 Pós-praia Moderado Bom Bom
Frente de praia Bom Bom Bom
Verão 2005 Pós-praia Moderado Bom Bom
Frente de praia Moderado Bom Bom
Inverno 2005 Pós-praia Bom Bom Bom
Frente de praia Baixo Bom Bom
Verão 2006 Pós-praia Moderado Bom Bom
O comportamento sedimentológico da praia de Piratininga com características relativamente parecidas ao longo de todo o arco praial, é condicionado: pela incidência de ondas de tempo bom predominante de sudeste que se alternam com ondas de sul e sudoeste associadas à passagem de ressacas; pela influência de correntes de deriva litorânea, principalmente para oeste; pela existência nos extremos do arco praial de promontórios rochosos de orientação nordeste-sudoeste, que influenciam na mobilidade dos sedimentos e na incidência de ondas através dos processos de refração e difração; e, em parte, pela existência das ilhas do Pai, Mãe e Menina que atenuam a energia das ondas incidentes sobre a praia.
3.3 – Mapeamento dos leques de arrombamento e crista da restinga.
As barreiras arenosas, onde estão localizadas as praias de Piratininga e Itaipuaçú, vêm experimentando um intenso processo de urbanização nas últimas décadas. Em decorrência disso, este ambiente que é essencialmente dinâmico, vem sendo alterado pela construção de inúmeras obras de engenharia tais como: casas, ruas asfaltadas, postes, calçadões, quiosques, etc.
Com o objetivo de caracterizar as mudanças morfológicas relacionadas à mobilidade do cordão arenoso, foi realizado um mapeamento de determinadas feições, como os leques de arrombamento e a crista da restinga.
Praia de Piratininga
Na praia de Piratininga o mapeamento dessas feições morfológicas não foi possível devido ao elevado grau de modificações realizadas pelo homem neste ambiente nas últimas décadas, o que levou à descaracterização da restinga.
No entanto, por meio de comparação entre fotografias, fotografias aéreas e imagens de satélite, de diferentes épocas (1960, 1975 e 2004), foi possível constatar tais mudanças (figura 69). A fotografia de 1960, por exemplo, mostra Piratininga antes de ser urbanizada. Nesta época é possível reconhecer na restinga feições que lembram um incipiente leque de arrombamento. A marcante presença de dunas frontais aponta para os limites médio de alcance máximo de ocorrência das ondas de tempestade. Uma escarpa de tempestade proeminente marca o limite interno da praia e, conseqüentemente, a área vulnerável a ação das ondas de tempestades. Na fotografia aérea de 1975 foi possível verificar o início do processo de urbanização da barreira arenosa e a conseqüente destruição parcial da restinga, já completamente devastada em 2004.
Praia de Itaipuaçú
A parte oeste da barreira arenosa onde está localizada a praia de Itaipuaçú vem apresentando inúmeras alterações nas últimas décadas, sobretudo a partir da década de 90: ondas de ressaca formam e desenvolvem leques de arrombamento por sobre a vegetação da restinga (figura 70), bem como, removem dunas (figura 71). Essas amplas variações morfodinâmicas têm resultado freqüentemente na destruição de diversas construções, tais como: casas, muros, avenidas, postes para a rede elétrica, etc. (figuras 72 e 73). Diante disso, é de grande importância a realização de estudos objetivando um maior entendimento das variações da barreira arenosa neste trecho. Sendo assim, foi realizado um perfil topográfico de praia e restinga em uma área onde os leques de arrombamento são mais expressivos; mapeamento da crista da restinga e dos leques de arrombamento com o rastreador geodésico (DGPS) (ambos nas proximidades do perfil B).
A realização de perfil topográfico neste trecho, envolvendo praia e restinga, tem por objetivo a caracterização topográfica e o mapeamento de feições morfológicas como, por exemplo, a crista da restinga; além, da possibilidade de se estabelecer uma referência para futuras comparações (figura 74).
Figura 70 – Parte oeste da praia de Itaipuaçú, onde os leques de arrombamento são mais expressivos (as setas indicam os leques aqui estudados). Fotografia
aérea gentilmente cedida por Magalhães, M.; 2004 (Nautilus Navegator).
A compreensão da mobilidade característica das barreiras arenosas, assim como as variáveis envolvidas em tal processo, é de extrema importância, sobretudo se considerarmos a intensa ocupação humana que geralmente ocorre sobre este ambiente. BOAK & TURNER (2005), ressaltam a importância de se mapear a posição da linha de costa no presente momento e compará-la com mapeamentos antigos e, principalmente, procurar estabelecer tendências futuras de posicionamento em função da mobilidade da mesma. O mapeamento de uma linha de costa é comumente realizado por meio de várias ferramentas, tais como: fotografias históricas e aéreas, mapas e cartas costeiras, perfis topográficos de praia, GPS diferencial, etc. (BOAK & TURNER, 2005).
Uma definição de linha de costa é geralmente associada à interface, ou limite, entre o continente e o mar. No entanto, ao nível de mapeamento, o indicador empregado para representar a linha de costa, dependerá do contexto da investigação que se pretende realizar. Em função do caráter dinâmico da linha de costa, inúmeros indicadores têm sido com freqüência utilizados para representar a posição da linha de costa, como por exemplo: o topo de uma falésia, a crista/limite da vegetação (seaward) de dunas, escarpas erosivas, o alcance máximo da maré, o limite da praia sujeito ao alcance das ondas, a linha de arrebentação das ondas, etc. (BOAK & TURNER, 2005).
A crista da restinga foi aqui empregada como indicador da linha de costa por acreditar-se ser esta a feição morfológica mais diretamente submetida às alterações verificadas neste trecho. O mapeamento da crista da restinga na parte oeste da barreira arenosa possibilitou identificar um deslocamento em direção ao interior do continente de cerca de 13 metros, levando-se em consideração a posição da crista da restinga entre 1976 e 2004, o que corresponde a um intervalo de 28 anos (figura 75).
O mapeamento dos leques de arrombamento e a comparação dos mesmos, também entre 1976 e 2004, permitiu constatar um alargamento destas feições em direção ao continente. Trata-se de um acréscimo de cerca de 5.000 m2 neste período para um trecho mapeado de cerca de 400 metros de extensão (figura 76). Constatou-se que os processos relativos ao desenvolvimento dos leques de arrombamento são responsáveis pela retirada dos sedimentos da praia e sua
redeposição na retaguarda da restinga; os lobos deposicionais frontais dos leques de arrombamento agora já alcançam o canal existente no limite interno da restinga atual (figura 71 C).
Estudo realizado por BARROS (2005), com o intuito de classificar a orla de Maricá quanto ao grau de risco à erosão costeira, utilizou-se da superposição de fotografias aéreas e comparação entre perfis topográficos transversais. Na praia de Itaipuaçú, a comparação de tais perfis aponta para um recuo do cordão arenoso de 17,5 metros, entre 1974 e 2004 (o que corresponde a um intervalo de 30 anos). Para a referida autora, a praia de Itaipuaçú apresenta um grau de risco à erosão diferenciado ao longo dos seus 10 km: (1) elevado grau de risco à erosão na extremidade oeste e meio do arco praial; (2) baixo grau de risco na parte leste da praia.
Dentre os diversos fatores capazes de interferir na estabilidade das barreiras, mencionados anteriormente, sugere-se que tanto a elevação do nível do mar, quanto as tempestades sejam os maiores responsáveis pelas alterações observadas na parte oeste da barreira arenosa em Itaipuaçú, sem desprezar a influência de fatores antrópicos, como a urbanização e a retirada ilegal de areia. Diversos trabalhos ressaltam a atual fase de elevação do nível do mar, inclusive no litoral do estado do Rio de Janeiro (ver capítulo sobre erosão de praias). No tocante às tempestades, é importante destacar que tem sido constatado nas últimas décadas um aumento no número e na intensidade das tempestades mais intensas à nível global (WEBSTER, et al., 2005). Tendências e previsões futuras, tanto no que diz respeito à elevação do nível do mar quanto à intensificação das tempestades, ratificam tais mudanças, o que pode resultar na continuidade, e até no aumento, de problemas relacionados com a instabilidade, tão características dos cordões arenosos, sobretudo os mais densamente povoados.