Embora não seja pretensão desta pesquisa enveredar-se pela crítica biográfica, não há como deixar de praticá-la, por dois motivos. Primeiro, porque no segundo capítulo o referente é Arthur Bispo do Rosário e a teoria a ser empregada é a Teopoética e o conceito de arte bruta, e tal teoria tem como escopo a crítica biográfica. Segundo, porque é preciso definir bem o termo loucura e como esse se relaciona com Barros e em Arthur Bispo do Rosário.
Em Bispo, tal termo, adquire um conceito clínico; em Barros, a loucura se faz pelo deslimite ou pela despalavra. O que ambos possuem de convergente no termo, é a criação a partir da recomposição de inutilidades ou expressões e utensílios considerados não poéticos.
Assim, parte agora do conceito de normose, conceito da filosofia para se referir à normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais. A característica comum a todas as formas de normose é seu caráter automático e
inconsciente. Pode-se dizer que a humanidade submete-se a essa patologia silenciosa quando é acometida pelo espírito de rebanho, espírito que converge a maior parte dos seres humanos a seguir o exemplo de uma maioria. Nesse quadro, pertencer à minoria é tornar-se vulnerável e expor-se à crítica.
Porém, uma vez desadoecido, ser minoria é compor o mosaico da originalidade como o faz Manoel de Barros. Pelo corpo impossível da linguagem surreal, liberta o verbo da “agressão física que as palavras reduzidas a seus valores fonéticos lhe fazem sofrer”, (ZOURABICHVILI, 2004, p. 15); são acontecimentos na fronteira da linguagem, é o delírio que a reinventa como processo e a arrasta de um extremo ao outro.
A normalidade adoece a linguagem literária. “Desfazer o normal, há de ser uma norma” (Barros, 2006, X), bem o disse Manoel de Barros. O poeta não possui nenhum tipo de loucura clínica, esquizofrênica. A loucura de Barros é a que nasce do “delírio do verbo”, do prazer de “inverter ocasos”. É Rotterdã que alerta sobre a loucura (ZOURABICHVILI, 2001, 46): “Portanto, assim como o cavalo não é infeliz por ignorar a gramática, assim também não o é o louco, pois a loucura é natural no homem”.
Na busca pelo desadoecimento da linguagem, Manoel de Barros faz a natureza pantaneira pegar delírio, pois empoema essa natureza, embora, esse seja o pretexto para seu delírio poético, visto que em sua obra, a linguagem deseja ser. No desvio empreendido pelo poeta, ocorre a subversão da sintaxe, ele cria construções que não respeitam as normas da língua padrão, “Vou nunca mais ter nascido em agosto”; brinca com a morfologia, “No chão da minha voz tem um outono”; cria constantemente vocábulos novos “Não uso morrimentos de teatro”, explora a fonética e a estilística, valorizando a beleza dos sons das palavras” “A luz de um vagalume se reslumbra”, e, em estado de loucura semântica, abusa do sentido das palavras, buscando aproveitar ao máximo as possibilidades de sentido dessas, “Melhoro com meu olho o formato de um peixe [...] Quero apalpar o som das violetas (BARROS, 1998, p. 47; 57; 59). Para Rotterdã:
De tudo quanto dissemos acerca das disciplinas, pode-se concluir que as artes mais vantajosas são as que mais se relacionam com a loucura. Por conseguinte, são perfeitamente felizes os homens que, sem ter qualquer relação com as ciências especulativas e práticas, têm como único guia a natureza, a qual não possui nenhum defeito e nunca deixa que se percam os que seguem fiel e exatamente os seus passos, sem a pretensão de sair
dos limites da condição humana. A natureza é inimiga de todo artifício, e, de fato, vemos crescer mais felizes as coisas não contaminadas por nenhuma arte (ROTTERDÃ, 2001, p. 48).
Manoel de Barros parece compreender essa lógica da loucura proposta por Rotterdã, pois realiza um trabalho de descontaminar o pantanal de todo e qualquer olhar poético já existente. Por meio da metapoesia o artista, apresenta a sua visão sobre o fazer poético. No poema VI, de “Mundo pequeno” de O Livro das Ignorãças, (BARROS, 1998, p. 87), a voz poética relata a descoberta feita aos 13 anos de idade acerca daquilo que lhe proporcionava prazer nas leituras. De acordo com essa voz, não era a “beleza das frases” que o aprazia, mas sim a sua “doença” e para designar tal doença nas frases, cria um neologismo que se fará presente ao longo de sua obra: “agramática”. Tal vocábulo exprime a negação da gramática, ou seja, desvio das normas prescritas pela gramática normativa, e exprime a transgressão que se opera em sua obra.
Como se fala aqui em vida de sã loucura, é a própria voz poética de O Livro
das Ignorãças quem se confessa “Eu pensava que fosse um sujeito escaleno”
(BARROS, 1998, p. 87). Por escaleno compreende-se um objeto geométrico que possui todos os ângulos e lados desiguais. No plano, o triângulo é a figura geométrica que ocupa o espaço interno limitado por três segmentos de reta que concorrem, dois a dois, em três pontos diferentes formando três lados e três ângulos internos que somam 180°.
Na poética de Barros, o sujeito escaleno é aquele que não se pretende racional, mas é parte de um plano que não se alegoriza no tempo e no espaço, ao contrário, participa de uma loucura programada ao construir uma poética escalena, em três dimensões.
Além de escaleno a voz poética sofre do estado gauche da voz poética de Drummond, que recebeu a profecia de um anjo ao nascer: “Quando nasci um anjo torto/ desses que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Porém, em Manoel de Barros, a profecia manifesta-se pela voz do Padre Ezequiel, um seu preceptor que ao ser informado sobre o gosto do sujeito escaleno de fazer defeitos na frase, prenuncia “pode ser que você carregue pelo resto da/ vida certo gosto por nadas [...]” (BARROS, 1998, p. 87).
Bem se sabe que ser gauche é ser desajeitado, escaleno, estranho, dentre outras adjetivações. E é esse ser gauche que realiza o milagre estético da
ressignificação da palavra no pretexto pantaneiro. A porta de entrada para a linguagem tridimensional em Barros se faz por meio da imagem escalena, ou seja, uma linguagem que possui três lados e três ângulos diferentes. Nessa medida, pode-se observar ainda que há dois ângulos agudos nas bases e um ângulo obtuso e assim pode-se classificar o triângulo escaleno, quanto aos ângulos, como obtusângulo.
O que isso significa e mais ainda, o que significam tais medidas em Manoel de Barros? O ângulo de 90º é considerado "perfeito", os ângulos são divididos em três tipos, a saber: 1) agudos são aqueles com menos de 90º; 2) reto é o próprio ângulo de 90º; 3) obtusos são aqueles com mais de 90º. Conforme a voz poética prenuncia, trata-se da voz de um “sujeito escaleno”, ou seja, um sujeito que não é reto, que possui lados desiguais, e um lado que não se compreende com facilidade, pois é sem nitidez, confuso. Ainda por obtuso tem-se ignorante, tapado, tosco e por agudo perspicaz, esperto. Aqui também se encontra a dicotomia integrante mencionada em outra parte do trabalho, partes diferentes que se completam.
Olhar a linguagem barreana, por esses ângulos, é desenvolver uma abordagem de leitura triangular que envolve considerar a experimentação do fazer poético, o ângulo pantaneiro, da linguagem pantaneira, obtusa e tridimensional. A apreciação do objeto artístico pelo leitor, ou seja, sua perspicácia para produzir um “não sentido” a partir do lido, como é a pretensão de Barros, e a contextualização dessa linguagem, tendo como pretexto o Pantanal, as terras encharcadas e o próprio trabalho com a linguagem. Está criada a tridimensão e a loucura poética em Barros.
Hugo Friedrich, sobre o processo inventivo da linguagem poética, destaca:
A língua poética adquire o caráter de um experimento, do que emergem combinações não pretendidas pelo significado, ou melhor, só então criam o significado. O vocabulário útil aparece om significações insólitas; palavras provenientes da linguagem técnica mais remota vem eletrizadas liricamente (FRIEDRICH, 1978, p. 18, apud Lima, 2010, p. 129).
A eletrização da linguagem apresenta-se consubstanciada pelo delírio do verbo proposto por Barros. “apalpar as intimidades do mundo” (BARROS, 1998, p. 9), “sapo que engole auroras”, (BARROS, 1998, p. 13), ser “urinado pelas ovelhas
do Senhor”, (BARROS, 1998, p. 37), - tudo isso implica, na poética6
de Manoel de Barros, o desdobramento de imagens que comunicam a revelação. As palavras se movem no poema, e o leitor nunca se cansa de se surpreender; a poesia concretiza, pela força da imaginação, o pensamento especulativo nas adjacências do espírito.
Manoel de Barros, antes de tudo é um poeta que aprendeu a guiar a si mesmo, não se enquadra em convenções artísticas modernas ou pós-modernas, pois possui o gosto pelo desvio. Persegue o nada, pois é daí que espera extrair o princípio do que desconhece, à medida que desaprende “oito horas por dia”, (BARROS, 1998, p. 9). Trata-se de uma aprendizagem às avessas: desaprender para o poeta é ter condições de apalpar o invisível. Assim, pelo exercício da repetição “repetir é um dom do estilo” (BARROS, 1998, p. 11) pela ignorãça das coisas, pôde, enfim, reencontrá-las.