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4. Os direitos do consumidor

5.1. Prazo da garantia

Relativamente aos prazos, o DL n.º 84/2008 fez a separação entre a matéria relativa ao prazo da garantia (artigo 5.º do DL n.º 67/2003) e a matéria relativa aos prazos para exercício de direitos (artigo 5.º-A do DL n.º 67/2003).

O DL n.º 67/2003 estabelece o prazo de garantia de dois anos a contar da entrega do bem relativamente aos bens móveis, alargando o prazo para cinco anos quando se trate de bens imóveis: “O consumidor pode exercer os direitos … quando a falta de conformidade se manifestar dentro de um prazo de dois ou de cinco anos a contar da entrega do bem, consoante se trate, respetivamente, de coisa móvel ou imóvel (artigo 5.º, n.º 1).

É certo que o vendedor é responsável pela desconformidade que se manifeste dentro de dois anos a contar da entrega do bem no caso de se tratar de um bem móvel e é igualmente responsável pela desconformidade de um bem imóvel que se manifeste no prazo de cinco anos

a contar da data da sua entrega92. No entanto esta regra não equivale a uma garantia de bom

funcionamento dos bens, querendo isto significar que a desconformidade, ainda que se

manifeste mais tarde, tem já de existir no momento da entrega do bem ao consumidor93.

Existe, assim, uma equiparação do prazo da garantia ao prazo da presunção de anterioridade

dos defeitos94. As faltas de conformidade que se manifestem no prazo de dois ou cinco anos,

consoante se trate de bem móvel ou imóvel, a contar da data da entrega do bem, presumem-se existentes nessa data. Assim sendo, o consumidor não tem o ónus de provar a existência da falta de conformidade. O consumidor tem apenas de provar que a falta de conformidade se manifestou dentro do prazo de dois anos caso se trate de um bem móvel e no prazo de cinco anos caso se trate de um bem imóvel (em ambos os casos, prazo que se conta a partir da data da entrega do bem).

92 Como refere CURA MARIANO, na sua obra Responsabilidade Contratual do Empreiteiro pelos Defeitos da Obra (pág. 213), “a opção pelo

momento da entrega da obra como o momento em que se inicia o prazo de caducidade, o legislador teve em mente que seria esse o momento em que, normalmente o dono da obra ou o comprador, estariam em condições de exercer o seu direito. Haverá então de concluir que o dies a quo para o início do prazo de cinco anos previsto no artigo 1225º n.º 1 do CC é de facto o da entrega da construção, em termos que possibilitem o exercício do direito à verificação, e se for necessário, à reclamação da reparação dos vícios ou defeitos que a afetem”. Texto extraído do Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 31 de maio de 2016, Relator Maria Clara Sottomayor, disponível em http://www.dgsi.pt/ , consultado em 17/02/2017.

93 LUÍS MENEZES LEITÃO, «O Novo Regime da Venda de Bens de Consumo», cit., p. 61.

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A Diretiva 1999/44/CE institui, no seu artigo 5.º, n.º 1, que “o vendedor é responsável … quando a falta de conformidade se manifestar dentro de um prazo de dois anos a contar da entrega do bem”. Porém o n.º 3 do artigo 5.º da Diretiva limita a presunção da existência da falta de conformidade no momento da entrega do bem a um prazo de seis meses a contar dessa data. O resultado da aplicação das normas da Diretiva é mais desfavorável para o consumidor do que a aplicação do direito português. O que acontece, na Diretiva, é que o consumidor, decorrendo os primeiros seis meses após a entrega do bem, pode na mesma exercer os seus direitos junto do vendedor mas acresce-lhe o ónus de provar que a desconformidade já existia no momento da entrega.

O n.º 2 do artigo 5.º do DL n.º 67/2003 institui ainda a possibilidade de, tratando-se de coisa móvel usada, o prazo previsto no n.º 1 do mesmo artigo ser reduzido a um ano, por acordo das partes. Admite-se esta possibilidade de redução do prazo (por negociação efetiva entre as partes)

mas não se admite que o consumidor prescinda da totalidade do prazo95. No caso de bens

imóveis usados não se admite a redução do prazo de garantia legal (este será sempre de 5 anos).

Outra das medidas protetoras dos interesses do consumidor é o artigo 5.º, n.º 6 do DL n.º 67/2003 (aditado pelo DL n.º 84/2008). Refere esta norma que “havendo substituição do bem, o bem sucedâneo goza de um prazo de garantia de dois ou de cinco anos a contar da data da sua entrega, conforme se trate, respetivamente, de bem móvel ou imóvel”. Assim sendo, o consumidor, ao utilizar o meio de reação reparação do bem, não ficará de todo prejudicado. O prazo de garantia legal de conformidade do bem de substituição começa a contar do zero. O novo bem goza de um prazo de garantia igual ao do primeiro bem, ou seja, dois ou cinco anos a contar da entrega conforme se trate de bem móvel ou imóvel.

Por fim, o n.º 7 do artigo 5.º estipula a suspensão do prazo do n.º 1 do mesmo artigo “a partir da data da denúncia, durante o período em que o consumidor estiver privado do uso dos

bem”96. O decurso do prazo fica suspenso durante o período de tempo em que o consumidor

estiver privado do uso do bem, em virtude de operações de reparação ou de substituição, bem como o período em que estiver a decorrer a tentativa extrajudicial do conflito de consumo que

95 Ibidem,p. 250.

96 JORGE MORAIS CARVALHO refere que esta norma apenas se aplica no caso de o consumidor optar pela reparação ou pela redução do preço

opõe o consumidor ao vendedor ou ao produtor97. A contagem do prazo apenas recomeça

quando o bem, já em conformidade com o contrato, voltar a ser entregue ao consumidor98_99.