4. Reação Terapêutica Negativa
4.2. Reação Terapêutica Negativa – Riviere
4.2.1. Preâmbulo: De Freud e Abraham a Melanie Klein
Neste e no próximo tópicos examinaremos abordagens da Reação Terapêutica Negativa feitas por Riviere e Rosenfeld, autores que já se utilizam de um novo arcabouço teórico, desenvolvido por Melanie Klein a partir das ideias de Freud e Abraham. Em particular, referimo-nos às ideias desta autora contidas em três de seus principais textos, os de 1935, 1940 e 1946. A forma de lidar com o narcisismo dentro deste novo referencial teórico, a partir das relações de objeto e do reconhecimento de fenômenos como por exemplo a identificação projetiva, permitirá avanços no tratamento das psicoses, que para Freud ainda era considerado impossível. Já comentamos algo sobre o texto de 1946 acima, em 3.2.2 e 3.3. Vamos então nos deter aqui muito brevemente sobre os textos de 1935 e 1940, ressaltando que estes trazem tal complexidade de ideias que poderiam ser objeto de pesquisa à parte.
Assim, em seu texto de 1935, Uma contribuição à psicogênese dos estados
maníaco-depressivos, Klein parte dos pressupostos de Freud e Abraham, de que o
semelhante perda, levando à instalação do objeto no próprio ego, o que, devido a um excesso de impulsos canibalescos, acarreta uma introjeção problemática do objeto (Klein, 1935, p. 305). Quando a criança começa a perceber os objetos totais, e não apenas objetos parciais, estes impulsos agressivos dirigidos ao objeto entram em conflito com impulsos relativos à sua preservação, levando a criança a sentir culpa e necessidade de realizar reparação. Também ensejam a mobilização das defesas maníacas, especialmente onipotência e negação (recusa) para lidar com sentimentos persecutórios e depressivos. É este estado conflituoso e doloroso de relações com o objeto que recebe, nesse texto, o nome de posição depressiva.
A saúde mental e a capacidade de amar (temas cuja relação abordaremos em 5.1), dependem de uma resolução normal da posição depressiva, com a introjeção firme do objeto bom, que funciona como um reservatório interno de experiências boas ao qual a pessoa pode recorrer para obter segurança nas mais diversas situações da vida. Falhas ou dificuldades especiais nessa introjeção levam, em contrapartida, a uma suscetibilidade à ocorrência dos estados maníaco-depressivos, e a depressão seria o medo que a pessoa tem de perder bons objetos internos e o medo de que eles morram. Localizam-se aqui também a insegurança, e o medo, sentido por pacientes depressivos, e em particular por Julio, de hospedar objetos internos mortos pelos próprios ataques sádicos a eles dirigidos. Klein nomeia aqui o processo da “perda do objeto amado” cujo protótipo é o “fracasso sentido pelo sujeito (durante o desmame, assim como nos períodos que o antecedem e o seguem imediatamente) em manter seu objeto bom internalizado, i.e., apossar-se dele. Um dos motivos para esse fracasso é sua incapacidade de vencer o medo paranóide dos perseguidores internalizados” (1935, pp. 308, 309). Esse fracasso, por sua vez, será o protótipo das experiências de frustração com as quais não se consegue lidar ao longo da vida.
Ainda neste texto, apenas para não deixarmos passar em branco, Klein faz a relação entre a severidade extrema do superego do melancólico com as relações violentas e ataques entre os objetos internos: objetos bons muito idealizados e exigentes, e objetos maus muito cruéis e persecutórios. Além disso, na tradição de Abraham, aponta para a mania como sendo uma forma de escapar da melancolia. A mania é caracterizada por ela por um senso de onipotência, e é baseada no mecanismo primitivo da negação (recusa), que é utilizado para se defender de perseguidores internalizados e do id. Através da negação e da onipotência, primeiro o ego nega a realidade psíquica e depois boa parte da realidade externa. Vemos assim que neste texto de 1935 já estavam algumas das ideias de seu texto de 1946 que comentamos acima em 3.3.
No texto de 1940, O Luto e suas Relações com os Estados Maníaco-
depressivos, Klein continua a desenvolver as ideias do texto de 1935. Ela fala mais da
posição depressiva infantil, como sendo composta basicamente por dois tipos de sentimentos predominantes e as defesas que os acompanham: os sentimentos persecutórios, com medos relativos à destruição do ego por perseguidores internos (objetos “maus”), e os sentimentos de “pesar e preocupação pelos objetos amados, o medo de perdê-los e o desejo de recuperá-los [...isto é...] o ‘anseio’ [pining] pelo objeto amado” (Klein, 1940, p. 391). Em especial, nesse texto Klein salienta o quanto o teste da realidade é utilizado pelo ego, em seu curso de desenvolvimento saudável, para superar a posição depressiva. Este emprego do teste da realidade inclui a tomada de contato com experiências amorosas provenientes do exterior – os cuidados maternos e seus substitutos: cada ocorrência de experiências gratificantes vai confirmar uma percepção positiva da realidade interna e contribuir para o estabelecimento firme de bons objetos internos. Aqui podemos ver que mesmo no referencial kleiniano, que
privilegia o mundo interno e as relações objetais, não se pode excluir a necessidade de objetos externos reais e cuidados reais, isto é, de um ambiente saudável, para a constituição saudável do indivíduo.
Klein aborda, ainda no texto de 1940, mais detalhes das defesas maníacas, apontando para o quanto seu uso exagerado impede o trabalho de luto e o estabelecimento de um objeto interno bom. Qualquer dor, nas palavras dela, “trazida por experiências infelizes, qualquer que seja sua natureza, tem algo em comum com o luto. Ela reativa a posição depressiva infantil; a superação de qualquer tipo de adversidade envolve um trabalho mental semelhante ao luto” (p. 403). Além das experiências gratificantes, a criança desenvolve confiança na sua relação com os objetos externos através das experiências em que ela mesma “supera frustrações e experiências dolorosas, sempre mantendo seus objetos bons (internos e externos)” (idem). Isto está associado a uma diminuição das defesas maníacas e uma revitalização dos objetos internos.
Após este aparte para explicitar brevemente a transição teórica entre Freud/Abraham e Melanie Klein, agora podemos continuar com as contribuições para a compreensão da reação terapêutica negativa feitas por dois dos seguidores desta autora.