• Nenhum resultado encontrado

De acordo com a estimativa provisória do Eurostat, a inflação homóloga na área do euro situou-se em 0,9% em fevereiro de 2021, mantendo-se inalterada face a janeiro de 2021, mas registando um aumento substancial face a -0,3% em

dezembro de 2020. Com base nos atuais preços dos futuros do petróleo, a inflação global deverá aumentar nos próximos meses, mas espera-se alguma volatilidade ao longo do ano, refletindo a evolução da dinâmica dos fatores que atualmente

impulsionam a subida da inflação. É expetável que estes fatores desapareçam das taxas de inflação homólogas no início do próximo ano. Espera-se que as pressões subjacentes sobre os preços aumentem ligeiramente este ano devido às atuais restrições na oferta e à recuperação da procura interna, embora se preveja que, em termos globais, as pressões se mantenham moderadas, refletindo, entre outros aspetos, pressões salariais baixas e a anterior apreciação do euro. Quando o impacto da pandemia de coronavírus (COVID-19) se desvanecer, o

desaparecimento do nível elevado de margem disponível, apoiado pelo caráter acomodatício da política monetária e das políticas orçamentais, contribuirá para um aumento gradual da inflação no médio prazo. As medidas baseadas em inquéritos e os indicadores baseados no mercado das expetativas de inflação a mais longo prazo mantêm-se em níveis moderados, ainda que os indicadores baseados no mercado tenham continuado a aumentar gradualmente. Esta avaliação encontra-se globalmente refletida no cenário de referência das projeções macroeconómicas de março de 2021 para a área do euro elaboradas por especialistas do BCE, segundo as quais a inflação anual situar-se-á em 1,5% em 2021, 1,2% em 2022 e 1,4% em 2023. Em comparação com as projeções macroeconómicas de dezembro de 2020 elaboradas por especialistas do Eurosistema, as perspetivas para a inflação foram revistas em alta para 2021 e 2022, em grande parte devido a fatores temporários e a uma inflação mais elevada dos preços dos produtos energéticos, mantendo-se inalteradas para 2023.

A inflação medida pelo IHPC aumentou acentuadamente no início do corrente ano, em comparação com o final do ano passado. Depois de se situar em ‑0,3%

durante quatro meses consecutivos, a inflação medida pelo IHPC aumentou para 0,9% em janeiro de 2021, mantendo‑se a esta taxa em fevereiro. De acordo com a estimativa provisória do Eurostat, a taxa inalterada em fevereiro de 2021 resultou do facto de a inflação menos negativa da componente de produtos energéticos ter sido compensada por uma descida da inflação medida pelo IHPC excluindo produtos energéticos e produtos alimentares (IHPCX). Esta inflação diminuiu para 1,1% em fevereiro, face a 1,4% em janeiro, tendo sido, no entanto, substancialmente superior aos 0,2% registados nos últimos quatro meses de 2020.

A subida da inflação global em janeiro refletiu vários fatores que eram, na sua maioria, temporários e de natureza estatística (gráfico 13). Em primeiro lugar, o impacto de alterações mais fortes do que o habitual nas ponderações do IHPC para 2021 associadas a mudanças nos padrões de consumo das famílias durante a pandemia de COVID‑19 desempenhou um papel significativo. Foi especialmente o caso dos serviços relacionados com viagens e atividades recreativas. A alteração nas ponderações da despesa contribuiu em 0,3 pontos percentuais para a inflação

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 31

Preços e custos

medida pelo IHPC em janeiro6. Em segundo lugar, a inversão do corte da taxa de IVA na Alemanha parece ter sido globalmente simétrica, em termos de magnitude, ao impacto da descida da taxa em julho de 2020 e contribuiu em cerca de 0,3 pontos percentuais para a subida da inflação medida pelo IHPC. Em terceiro lugar, as alterações de calendários e da magnitude das vendas sazonais em vários países da área do euro implicaram um aumento substancial da inflação dos produtos industriais não energéticos (non-energy industrial goods – NEIG). No entanto, mesmo tendo em conta estes fatores, subsiste algum impacto em sentido

ascendente tanto sobre a inflação global medida pelo IHPC como sobre a inflação medida pelo IHPC excluindo produtos energéticos e produtos alimentares, resultante da soma de outros fatores (barras a amarelo no gráfico 13).

Gráfico 13

Variação da inflação global entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021

(contributos em pontos percentuais)

-0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0

IHPC NEIG Serviços IHPCX

Alteração do IHPC entre dezembro e janeiro Soma de outras influências

Impacto das ponderações Impacto das mudanças nas vendas Impacto do imposto sobre o carbono Impacto da inversão do corte da taxa de IVA

Produtos

energéticos Produtos alimentares Fontes: Eurostat e cálculos de especialistas do BCE.

Notas: As mudanças nas vendas aplicam‑se a Itália e a França. Tanto o imposto sobre o carbono como a inversão do corte da taxa do IVA dizem respeito à Alemanha.

O recente aumento da inflação medida pelo IHPC deveu-se também a uma inflação da componente dos produtos energéticos sucessivamente menos negativa. Depois de se situar em ‑6,9% em dezembro de 2020, a inflação da componente dos produtos energéticos aumentou para ‑4,1% em janeiro de 2021 e para ‑1,7% em fevereiro. A taxa menos negativa em janeiro refletiu os recentes preços do petróleo mais elevados em euros, ao passo que em fevereiro a taxa também refletiu um efeito de base da queda dos preços do petróleo no início da pandemia no ano passado. Outros fatores que contribuíram para a taxa de inflação da componente dos produtos energéticos menos negativa incluíram a inversão do corte da taxa de IVA e a introdução da sobretaxa sobre o carbono na Alemanha e o aumento dos preços da eletricidade, em especial em Espanha, devido às baixas temperaturas registadas.

6 No entanto, este impacto alterar‑se‑á ao longo do ano, tendo sido estimado em 0,1 pontos percentuais em fevereiro. Para mais informações, ver a caixa intitulada “Ponderações do IHPC em 2021 e suas implicações para a inflação” na presente edição do Boletim Económico. O impacto da alteração das ponderações só pode ser estimado de forma fiável com a sua plena divulgação.

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 32

Preços e custos

As imputações de preços registaram uma maior prevalência em janeiro e fevereiro, implicando um ligeiro aumento da incerteza em torno do sinal de pressões subjacentes sobre os preços. Depois de a percentagem de imputações de preços ter regressado a taxas muito baixas durante o verão de 2020, no final do ano começou a aumentar com as medidas de contenção da COVID‑19 novamente mais restritas. Em fevereiro de 2021, foram imputados 14% e 19%, respetivamente, das rubricas do IHPC e do IHPC excluindo produtos energéticos e produtos

alimentares.

Embora as medidas da inflação subjacente baseadas na exclusão tenham aumentado, as medidas baseadas em modelos mantiveram-se praticamente inalteradas em janeiro (dados disponíveis mais recentes) 7. A inflação medida pelo IHPC excluindo produtos energéticos, produtos alimentares, rubricas

relacionadas com viagens, vestuário e calçado aumentou para 1,2% em janeiro de 2021, face a 0,8% no mês anterior, enquanto o indicador da componente persistente e comum da inflação (Persistent and Common Component of Inflation – PCCI) permaneceu inalterado em 1,2%. O indicador super-core aumentou ligeiramente de 0,5% em dezembro de 2020 para 0,7% em janeiro de 2021 (gráfico 14). As medidas foram igualmente afetadas por alguns dos fatores temporários acima referidos, tais como a inversão do corte da taxa de IVA na Alemanha.

Gráfico 14

Medidas da inflação subjacente

(taxas de variação homólogas)

0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6

01/19 03/19 05/19 07/19 09/19 11/19 01/20 03/20 05/20 07/20 09/20 11/20 01/21 PCCI

Super-core

IHPC excl. prod. energéticos, prod. alimentares, artigos relacionados com viagens e vestuário, excl. alteração do IVA na Alemanha

IHPC excluindo produtos energéticos e alimentares

IHPC excluindo produtos energéticos e produtos alimentares, excluindo alteração do IVA na Alemanha IHPC excluindo produtos energéticos, produtos alimentares, artigos relacionados com viagens e vestuário

Fontes: Eurostat e cálculos do BCE.

Notas: Para o IHPC excluindo produtos energéticos e produtos alimentares e o IHPC excluindo produtos energéticos e produtos alimentares, excluindo alteração do IVA na Alemanha, as últimas observações referem‑se às estimativas provisórias de fevereiro de 2021. Quanto ao resto, as últimas observações referem ‑se a janeiro de 2021.

7 Para uma descrição das medidas baseadas em modelos e das medidas baseadas na exclusão da inflação subjacente, ver o artigo intitulado Measures of underlying inflation for the euro area, Boletim Económico, Número 4, BCE, 2018.

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 33

Preços e custos

As pressões acumuladas sobre os preços para a inflação medida pelos produtos industriais não energéticos mantiveram-se globalmente estáveis nas fases posteriores, enquanto as pressões nas fases iniciais se intensificaram.

Para os bens de consumo não alimentares, a inflação dos preços no produtor internos foi de 0,6% em janeiro, continuando a oscilar próximo da sua média de longo prazo. A inflação dos preços das importações de bens de consumo não alimentares manteve‑se em níveis baixos, com o perfil mensal a refletir em larga medida movimentos na taxa de câmbio efetiva nominal do euro. Nas fases iniciais dos fatores de produção, tanto a inflação dos preços no produtor de bens

intermédios como a inflação dos preços das importações de bens intermédios continuaram a aumentar em janeiro, refletindo provavelmente um novo

abrandamento das pressões no sentido descendente dos preços do petróleo e de outras matérias‑primas8.

A fixação de salários continua a ser afetada pelos regimes de apoio do Estado.

Tal reflete‑se, por exemplo, na divergência entre o crescimento da remuneração por empregado e o crescimento da remuneração por hora. O fosso entre ambos aumentou novamente no quarto trimestre de 2020, com o aumento da adoção de regimes de trabalho a tempo parcial e de lay-off temporário em resultado das novas medidas de confinamento do final do ano passado. O crescimento homólogo da remuneração por empregado aumentou ligeiramente para 0,7% no quarto trimestre, face a 0,6% no terceiro trimestre, após ter registado uma taxa muito negativa de

‑4,5% no segundo trimestre. Por outro lado, o crescimento homólogo da

remuneração por hora recuperou novamente para 5,1% no quarto trimestre, face a 3,4% no terceiro trimestre de 2020 (ver o gráfico 15). Esta evolução divergente reflete o impacto dos regimes de trabalho a tempo parcial e de lay-off, ao abrigo dos quais os trabalhadores mantiveram o seu estatuto de emprego, tendo, no entanto, recebido apenas parte da sua remuneração habitual, enquanto as horas

efetivamente trabalhadas por indivíduo diminuíram acentuadamente9. O crescimento dos salários negociados, que não é diretamente afetado pela evolução das horas trabalhadas e pelo registo de benefícios dos regimes de manutenção de postos de trabalho, aumentou para 1,9% no quarto trimestre de 2020, face a 1,7% e 1,6% nos segundo e terceiros trimestres, respetivamente. Este movimento ascendente refletiu o impacto dos pagamentos pontuais no final do ano, mas, mesmo descontando este impacto, o crescimento dos salários negociados manteve‑se relativamente robusto em 1,6% no quarto trimestre, uma vez que os dados ainda incluem acordos celebrados antes do início da pandemia.

8 A inflação dos preços no produtor de bens intermédios aumentou para 0,9% em janeiro, face a ‑0,1%

no mês anterior, enquanto a inflação dos preços das importações de bens intermédios aumentou para 0,1%, face a ‑0,8% no mesmo período.

9 É igualmente provável que os regimes de manutenção de postos de trabalho tenham contribuído para a resiliência das margens de lucro. Embora as margens de lucro se tenham deteriorado ligeiramente no quarto trimestre, mantiveram‑se resilientes em relação à profundidade da recessão. Ver a caixa intitulada “O papel das margens de lucro no ajustamento ao choque da COVID‑19” na presente edição do Boletim Económico.

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 34

Preços e custos Gráfico 15

Desagregação da remuneração por empregado em remuneração por hora e horas trabalhadas

(taxas de variação homólogas (%); contributos em pontos percentuais)

-15 -10 -5 0 5 10

T1 2019 T2 2019 T3 2019 T4 2019 T1 2020 T2 2020 T3 2020 T4 2020

Remuneração por empregado Remuneração por hora Horas trabalhadas por empregado

Fontes: Eurostat e cálculos do BCE.

Nota: As últimas observações referem‑se ao quarto trimestre de 2020.

Os indicadores das expetativas de inflação baseados no mercado continuaram a aumentar a par da tendência de reflação a nível mundial (gráfico 16).

O aumento dos indicadores das expetativas de inflação baseados no mercado da área do euro no período em análise refletiu principalmente três fatores à escala mundial: uma melhoria do sentimento de risco em virtude do início da vacinação contra a COVID‑19 e da diminuição das taxas de infeção, o novo estímulo orçamental nos Estados Unidos sob a Administração Biden e uma recuperação dinâmica dos preços das matérias‑primas. Durante a primeira parte do período em análise, os indicadores de curto e médio prazo das expetativas de inflação baseadas no mercado aumentaram, tendo, no entanto, em meados de fevereiro, recuado parcialmente, em linha com os seus pares internacionais. Contudo, perto do final do mês, as taxas de swaps indexadas à inflação (inflation-linked swaps – ILS) da área do euro voltaram a subir. No início de março, os indicadores das expetativas de inflação baseados no mercado, tanto de curto como de longo prazo, situavam‑se acima dos seus níveis anteriores à pandemia. No entanto, os níveis das taxas ILS de curto e de mais longo prazo continuaram recentemente a ser muito moderados e não sugerem um regresso da inflação ao objetivo do BCE num futuro próximo.

Os indicadores das expetativas de inflação baseados em inquéritos mostram alguns sinais de terem estabilizado próximo dos seus níveis historicamente baixos. De acordo com o Inquérito a Analistas Profissionais (Survey of Professional Forecasters – SPF) conduzido pelo BCE para o primeiro trimestre de 2021 (realizado no início de janeiro de 2021), as expetativas de inflação a mais longo prazo permaneceram inalteradas em 1,7%.

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 35

Preços e custos Gráfico 16

Indicadores das expetativas de inflação baseadas no mercado

(taxas de variação homóloga (%))

0,0 0,8 1,6 2,4 3,2

2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021

Taxa a 1 ano com uma antecedência de 1 ano

Taxa a 1 ano com uma antecedência de 2 anos Taxa a 1 ano com uma antecedência de 4 anos Taxa a 1 ano com uma antecedência de 9 anos

Taxa a 5 anos com uma antecedência de 5 anos

0,0 0,4 0,8 1,2 1,6

01/20 05/20 09/20 01/21 Fontes: Thomson Reuters e cálculos do BCE.

Nota: As últimas observações referem‑se a 10 de março de 2021.

As projeções macroeconómicas de março de 2021 elaboradas por

especialistas do BCE preveem que a inflação global esteja sujeita a alguma volatilidade nos próximos meses, mas aumentando gradualmente ao longo do horizonte de projeção. As projeções de referência apontam para que a inflação global medida pelo IHPC se situe, em média, em 1,5% em 2021, 1,2% em 2022 e 1,4% em 2023 (gráfico 17). Em comparação com as projeções macroeconómicas de dezembro de 2020 elaboradas por especialistas do Eurosistema, as projeções para a inflação medida pelo IHPC foram revistas em alta em 2021 e 2022, mas

mantiveram‑se inalteradas para 2023. A revisão em alta em 2021 reflete uma revisão em alta da inflação da componente dos produtos energéticos do IHPC, bem como o impacto dos fatores temporários que explicam a recente recuperação da inflação. A médio prazo, à medida que o impacto dos fatores temporários for excluído das taxas homólogas, a inflação deverá cair para 1,0% no início de 2022, antes de aumentar gradualmente para 1,4% em 2023. A inflação medida pelo IHPC excluindo produtos energéticos e produtos alimentares deverá ser de 1,0% em 2021 e 1,1% em 2022, antes de aumentar para 1,3% em 2023. Espera‑se que os efeitos do pacote orçamental dos Estados Unidos na inflação medida pelo IHPC na área do euro sejam moderados, com um impacto acumulado de cerca de 0,15 pontos percentuais ao longo do horizonte de projeção10.

10 Para mais pormenores, ver a caixa 4 do artigo intitulado Projeções macroeconómicas para a área do euro elaboradas por especialistas do BCE, março de 2021, publicado no sítio do BCE.

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 36

Preços e custos Gráfico 17

Inflação medida pelo IHPC na área do euro (incluindo projeções)

(taxas de variação homólogas (%))

-0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5

2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023

Fontes: Eurostat e o artigo intitulado Projeções macroeconómicas para a área do euro elaboradas por especialistas do BCE, março de 2021, publicadas no sítio do BCE, em 11 de março de 2021.

Notas: A linha vertical indica o início do horizonte de projeção. As últimas observações referem‑se ao quarto trimestre de 2020 (dados) e ao quarto trimestre de 2023 (projeções). A data de fecho dos dados incluídos nas projeções foi 16 de fevereiro de 2021.

Boletim Económico do BCE, Número 2 / 2021 – Evolução económica e monetária 37

Moeda e crédito

No documento Boletim Económico. Número 2 / ,5E 7,5E (páginas 31-38)