3 Profissional, proletário ou semiprofissional: traços de uma caracterização contraditória na formação e nas relações de trabalho do professor.
4. O trabalho docente em instituição de formação universitária profissionalização, expectativas e condições concretas de atuação.
4.5 Precarização do trabalho do professor: marcas de um processo recente.
A precarização do trabalho do professor do ensino superior privado, como resultado de um processo recente, possibilita uma análise conjuntural de revisão dos papéis estabelecidos para os professores de todos os níveis, hoje.
A função desempenhada pelo Estado tem duplo caráter; o primeiro, é definidor de políticas que decidem, interferem e regulam o sistema educacional como um todo, utilizando- se de recomendações emanadas pelo plano de uma economia globalizada; em outro, é complementar ao primeiro e relaciona-se com a oferta direta da educação pública. São os interesses de demanda do mercado de trabalho, da transformação da educação em mercadoria e de uma orientação neoliberal de participação mínima na oferta de bens sociais que estabelecem a maneira como o Estado deve intervir e estruturar a educação nacional. Portanto, é uma gestão que se altera, prioritariamente, mediante o movimento intrínseco da economia e todos os seus derivados.
O avanço das relações econômicas na etapa da globalização reestruturou, por consequência, os compromissos do Estado e incorporou uma nova direção no tratamento da “coisa pública”. Nesse nível, é possível reconhecer que um plano centralizado de reformas educacionais está em curso e que esta nova política recruta o professor para a gestão e o planejamento da escola. Este, além de definir metas, deve se comprometer com projetos de ensino, propiciar a discussão sobre currículo e avaliação e ainda recepcionar a comunidade para a discussão sobre a proposta pedagógica da escola (independente do grau). Trata-se de um conjunto de novas atividades que extrapola a sala de aula e “desqualifica” a profissão definida até então para o exercício da docência. Mesmo no compromisso que estabelece junto aos seus alunos, o professor tem alterado suas práticas e incorporado novas funções.
O professor, diante das variadas funções que a escola pública assume, tem de responder a exigências que estão além de sua formação. Muitas vezes esses profissionais são obrigados a desempenhar funções de agente público, assistente social, enfermeiro, psicólogo, entre outras. Tais exigências contribuem para o sentimento de desprofissionalização, de perda de identidade profissional, da constatação de que ensinar às vezes não é o mais importante. (OLIVEIRA,
2003,p.33)
Este sentimento de desprofissionalização, detectado no cotidiano da atividade do professor, fortalece-se à medida que se leva em conta as novas relações de trabalho identificadas com a flexibilização. Trata-se de um movimento que propõe a adoção de uma outra metodologia para a estruturação do trabalho, ressaltando a falsa ou aparente autonomia, a cooperação e a avaliação de desempenho como pressupostos de um novo arranjo produtivo. Tal movimento apresenta-se como inédito e, portanto, deslocado de qualquer conformação profissional. Na escola, essa flexibilização tem sido amparada pela incorporação de projetos identificados com a “transversalidade” ou com propostas curriculares que se estruturam como verdadeiros manuais de ensino:
A constatação de que as mudanças mais recentes na organização escolar apontam para uma maior flexibilidade, tanto nas estruturas curriculares quanto nos processos de avaliação, corrobora a ideia de que estamos diante de novos padrões de organização também do trabalho escolar, exigentes de novo perfil de trabalhadores docentes. (OLIVEIRA, 2004, p. 1139)
Esse novo panorama imposto para a realidade escolar e, consequentemente, para o professor representa, concretamente, a desvalorização e desqualificação daquilo que ele acredita saber fazer, ou seja, ensinar. Agora suas habilidades devem extrapolar os limites da sala de aula e, portanto, novas competências devem ser incorporadas.
A pedagogia das competências42 é resultado de um movimento iniciado na década de 1960 e colocado em prática duas décadas depois com o intuito de vincular formação e emprego, buscando submeter à formação geral e profissionalizante aos níveis da prática. Essa nova configuração posta no plano educacional teve como prioridade estabelecer vínculo direto com os elementos da produção e assegurar aplicabilidade do ensino frente aos determinantes da flexibilização econômica. O pragmatismo imposto por este modelo educacional, de certa maneira, estabelece a ruptura da educação como instância de configuração organizada de um patrimônio científico e cultural historicamente acumulados e define o currículo como motivador de ações que reconhece, na aplicabilidade dos saberes, significância para a aprendizagem.
A pedagogia da competência passa a exigir, tanto no ensino geral, quanto no ensino profissionalizante, que as noções associadas (saber, saber-fazer, objetivos) sejam acompanhadas de uma explicitação das atividades (ou tarefas) em que elas podem se materializar e se fazer compreender. Essa explicitação revela a impossibilidade de
42 Segundo Machado (2002), a pedagogia da competência é aquela que possibilita o deslocamento da lógica do atendimento das necessidades e interesses de caráter coletivo para aquela que prioriza as demandas individuais de desenvolvimento de competências e de empregabilidade como recursos para o enfrentamento da competitividade no mercado de trabalho. Para tanto, o professor assume a condição de formador e isso define novos papéis no seu cotidiano de trabalho.
dar uma definição a tais noções separadamente das tarefas nas quais elas se materializam. (RAMOS, 2002, p. 222)
Os pressupostos da competência indicam que a dimensão escolar deve estar mobilizada para atender a esta nova situação de formação, compreendida como um processo amplo e vinculado a um perfil determinado de trabalhador, perfil este moldado em todo processo de escolarização. Para tanto, a escola, necessariamente, busca outros arranjos organizacionais e voltados para a lógica do atual estágio de estruturação empresarial e mesmo econômica. Como consequência, o professor mediador do ensino-aprendizagem também tem que apresentar novas competências, o que reforça a ideia da desprofissionalização, pois, então, assume novos papéis na idealização do seu trabalho.
De imediato, pode se considerar que o professor vinculado ao ensino superior, em sua essência, deve organizar seu trabalho no plano da aplicabilidade, pois sua situação de trabalho depende muito mais de um conjunto técnico do que de uma estrutura propedêutica e esta dimensão técnica é lastreada pelo plano prático do saber-fazer e que, portanto, a pedagogia das competências não interfere ou altera a sua rotina de docência.
Ledo engano; esse processo de flexibilização perpassa todas as instâncias da sociedade civil organizada, porque é condição da ideologia do neoliberalismo e o ensino superior está submetido, de maneira mais intensa, às diretrizes sugeridas para todos os graus de ensino. Isso porque o conceito de qualificação, requisito fundamental da formação profissional taylorista- fordista, passa por sensíveis alterações, à medida que reconhece como necessário ao processo produtivo um trabalhador vulnerável quanto à ocupação que executa, mutante quanto ao trabalho que desenvolve, afável no que se refere à disciplina no ambiente produtivo e tolerante no que tange às relações de contrato e salário. Nesta conjuntura é que se consolidam as noções de competência, alterando a estrutura da formação profissional, no plano conceitual, nos objetivos e nas propostas de encaminhamento metodológico ou didático pedagógicas.
Essa situação está posta para a universidade e demais modalidades do ensino superior, sejam públicas ou particulares. Evidente que se as IES privadas são efetivas representantes deste novo contexto produtivo que incorpora o setor de serviços, é nela que podemos perceber uma maior movimentação para pôr em prática a nova concepção de formação. Considerando que o que se objetiva é a constituição da classe trabalhadora e que a escola é o lugar da produção desta mercadoria, o professor está cada vez mais envolvido nesses processos de mudança, como contingência profissional, proletária, instável, de relações de trabalho autônomas, temporárias ou informais.
Não se trata, portanto, de destacar qual processo está em curso no ensino superior e, especificamente, no setor privado; se a situação de um professor proletário ou profissional. Estas questões têm sido atropeladas pelas determinações mais gerais que alteram as relações de emprego e definem o novo panorama das contratações, indicando outros acordos no recrutamento da força de trabalho. Essas condições estão associadas ao circuito a que está submetida à economia mundial, cuja dinâmica requer mudança de perfil da força de trabalho, agora mais atrelada às leis do mercado e estruturada em sistemas complexos de temporalidades descompassadas.
Nesse nível, o tempo da produção é outro e as etapas correspondentes não indicam sincronia mecânica - condição de uma etapa anterior, o “fordismo”. Na base deste novo contexto está a necessidade de uma visão integrada dos fenômenos que são, ao mesmo tempo, objetos técnicos e ideologias.
Nessa situação, não é possível distinguir os “profissionais” dos “proletários”, visto que todos, de alguma maneira, estão submetidos aos liames da nova ordem do neoliberalismo.
As mudanças ocorridas nas relações de trabalho e emprego têm sido caracterizadas, na atualidade, pela ameaça de um fenômeno considerado por alguns autores uma precarização das relações de trabalho. Tal movimento, contudo, não se circunscreve às relações de trabalho caracterizadas como aquelas intrínsecas ao processo de trabalho, mas compreende principalmente as relações de emprego, apresentando uma tentativa de flexibilização e até mesmo desregulamentação da legislação trabalhista. (OLIVEIRA, 2004, p.1138)
Esse projeto fundamenta-se na precariedade porque não possibilita a estabilidade empregatícia, ao mesmo tempo em que estrutura o cálculo das remunerações segundo um novo critério, mais injusto, destituído dos direitos trabalhistas e sem constância ou rotina. Considerando que os recursos monetários estão fincados no trabalho temporário e a sobrevivência em necessidades permanentes, os atuais estágios da pobreza e da exclusão estão relacionados a essa nova estrutura.
Como se trata da regra, a educação não pode ser a exceção e o professor – e especificamente aquele do ensino superior privado - tem se submetido a esse contexto a partir da incorporação de novos arranjos de organização curricular, associados às novas diretrizes gerenciais da escola e inclusão de algumas tecnologias até então ausentes no processo educativo. A transversalidade de temas e a explicitação de projetos de ensino, associados aos “softwares” educacionais e demais acessórios da informática, colocam (também) a necessidade de outros profissionais no interior da escola, o que justiça a revisão de todos os contratos de trabalho, até porque a rotina fica comprometida e o professor deve se adequar a outra estruturação escolar. Isso sem considerar o papel que a educação a distância vem
assumindo no ensino superior, o que modifica, em muito, esse arranjo de pessoal e mesmo sócio-espacial.
A precarização, produto desse contexto de flexibilização, invade o cotidiano do trabalhador de várias maneiras. Nesse sentido, os “profissionais”, aqueles com atividades regulamentadas e asseguradas por entidades de representação, também têm se submetido à situação de desemprego; entretanto, este desemprego não se explicita no contexto da profissão e sim em uma situação difusa, cuja atividade não tem correspondência direta com a formação profissional e se incorpora ao mercado informal de trabalho.
Essa situação não está integralmente presente na realidade do professor do ensino superior privado, visto que ele, muitas vezes, continua sendo professor, mas submetido a outros arranjos de contrato de trabalho como, por exemplo, aos ditames das “cooperativas de professores”, que oficializam e, ao mesmo tempo, precarizam sua condição autônoma de trabalho.
Portanto, esse conjunto de ideias sobre a dinâmica do trabalho na era da flexibilização apresenta-se como referencial para entender a realidade do professor das IES privadas. Apesar de identificar-se com a categoria dos professores, ele está submetido a uma situação mais aviltante e, portanto, deformada nos princípios que constituem a profissão docente.