2. LÍNGUA E CULTURA
2.2. Relativismo linguístico e cultural
2.2.1. Precursores do relativismo linguístico (RL)
A hipótese do RL é resultado de teorias que tiveram suas origens no fim do século XVIII e início do século XIX, momento em que os interesses em torno da diversidade linguística/cultural avançaram e constituíram a obra de vários pensadores, dos quais destaco Wilhelm von Humboldt e Franz Uri Boas. O primeiro se destacou fortemente na área da Linguística no século XIX por propor uma nova maneira de relacionar homem, linguagem e universo, na qual esses três elementos agem em mútuas influências. O segundo, um dos maiores antropólogos ligados aos estudos da linguagem, sobressaiu por propor uma teoria despida de visões etnocêntricas e que valorizasse o papel cultural da língua, ou seja, o papel das línguas na sociedade.
Para compreender, em termos genéricos, como Humboldt se relaciona com a posição relativista, partirei de sua conceituação de língua, definida como “a soma de todas as palavras (...), um mundo situado no espaço intermediário entre o mundo externo, aparente, e o mundo interno que age em nós” (HUMBOLDT, 2006, p. 6). Percebe-se que, para este autor, a língua é mais do que um veículo e instrumento do pensamento: é também um recurso para a compreensão do caráter da nação e a conexão da intersubjetividade individual e interna ao mundo exterior. Desse modo, as realidades existentes são acessadas e interpretadas conforme as diferentes línguas são capazes de expressá-las. Humboldt (2006) explica:
Por intermédio da dependência recíproca do pensamento e da palavra, fica evidente que as línguas, efetivamente, não são meios para a representação da verdade conhecida, mas sim muito mais para a descoberta do anteriormente desconhecido. A sua diferença não reside nos sons e signos, mas nas diferenças das conexões de mundo em si.
(HUMBOLDT, 2006, p. 77).
Para Humboldt, então, cada língua mediará de forma distinta a relação entre o intelecto e o mundo exterior, o que é subjetivo e o que é objetivo. Tal proposição implica uma noção singular de língua no sentido em que a maneira como
ela evoca, segmenta e classifica os significados é única; quer dizer, considerando uma dada língua, o modo como as palavras representam ou se associam aos conceitos se diferencia em comparação a outras.
Para as teorias humboldtianas, portanto, linguagem e pensamento interagem e retroagem: ao mesmo tempo em que o homem tem sua visão de mundo determinada pela língua que fala e na qual age, consequentemente suas ações provocam mudanças na língua. Ao passo em que vive num determinado momento histórico, a língua utilizada por determinada comunidade carrega em si todas as transformações históricas anteriores daqueles que uma vez já dela se utilizaram, e, por isso, está em constante processo evolutivo.
Boas amplia o relativismo de Humboldt ao destacar o papel da cultura na formação das sociedades, e abre caminho para o reconhecimento de que cada ser humano concebe sua realidade sob a perspectiva da cultura em que cresceu (BOAS, 2004). Boas (1964) argumenta – de forma extremista – que só é possível compreender uma cultura quando se tem acesso à sua língua, pois considera que as formas gramaticais expressam as necessidades dos falantes de uma dada comunidade. Ressalto que tal afirmação, embora represente um avanço para sua época e tenha influência direta na formulação da clássica hipótese do RL, é claramente contestável, como veremos no capítulo seguinte.
Um de seus alunos, Kroeber (1923) observa que:
Em suma, cultura pode provavelmente funcionar apenas na base das abstrações, e estas, por sua vez, só são possíveis mediante a fala, ou mediante um substituto secundário da língua falada, tais como a escrita, a numeração, notações matemáticas e químicas, ou similares. A cultura, então, surgiu quando a fala já estava presente; e dali em diante, o enriquecimento de uma significava o desenvolvimento da outra.
(apud DURANTI, 2008, p. 53). Esta citação de Kroeber transparece claramente a posição de Boas sobre a necessidade da existência de uma língua para que emerja a cultura. Há uma relação recursiva e interdependente entre cultura e língua. Esses dois elementos imanentes evocam-se, referem-se e interpretam-se um ao outro. A língua, manifestação e expressão de uma cultura, precisa de uma cultura que lhe dê sustento, sendo também sustento para uma cultura; ambos se modelam.
Outro ponto interessante a ser destacado na obra de Boas diz respeito aos seus estudos comparativos de línguas. Boas (apud JAKOBSON, 1944) verificou que categorias gramaticais tradicionais não se aplicam a todas as línguas no mundo, diferentemente do que previa o universalismo linguístico. Essas diferenças deram força para a consolidação da hipótese do RL de Sapir e Whorf, posteriormente.
Jakobson (1944), em seu texto intitulado Franz Boas’ Approach to Language, sintetiza o percurso linguístico de Boas de forma a demonstrar a sua influência determinante na formulação clássica da Hipótese de Sapir-Whorf. Jakobson (1944) destaca o que me parece ser um dos aspectos mais relevantes e influentes do relativismo linguístico boasiano:
Cada língua tem uma tendência peculiar de selecionar este ou aquele aspecto da imagem mental que é representada pela expressão do pensamento. Diferentes línguas selecionam diferentes aspectos da experiência que precisam ser expressos. Tais aspectos obrigatórios são expressos por meio de artifícios gramaticais, enquanto outros aspectos são tidos como não obrigatórios e são expressos por meios lexicais. E cada língua à sua própria maneira escolhe os conceitos a serem expressos por meios únicos e simples ou por combinações de termos distintos, completamente heterogêneos ou relacionados.
(JAKOBSON, 1944, p. 191). Partindo do exposto por Boas (apud JAKOBSON, 1944, p. 191), compreende-se seu princípio relativista a partir do reconhecimento das diferenças entre os aspectos e adequações gramaticais e lexicais das línguas que geram alternativas distintas no modo como seus falantes devem expressar-se.
As contribuições de Humboldt e Boas, dentre outros estudiosos, avançaram para o que posteriormente chamou-se de Hipótese do RL, que, grosso modo, afirma que as línguas influenciam as formas de pensar e agir de seus respectivos usuários. Os estudos a respeito do RL continuam até os dias de hoje, visto que ainda não é consenso no meio científico a extensão da influência da língua sobre o pensamento e suas consequências.
A seguir, discutirei brevemente a respeito da Hipótese do RL e dos trabalhos modernos de Stephen C. Levinson e John A. Lucy.