Ivo Lopes (1931-1987) foi um mestre coquista considerado de grande expressão e, aliado a isso, também um articulador do Samba de Coco. Desde a zona rural de Arcoverde, do sítio Batalha, lugar de sua origem, Ivo já conhecia a brincadeira do Coco, que dançava com sua família, mas foi na cidade onde se tornou um reconhecido mestre de expressão cultural, como é destacado no depoimento de Severina Lopes7, irmã de Ivo Lopes:
“Ele começou em 1953 brincando coco, mas esse coco ele já vem do sítio Batalha, onde eu tinha de 18 a 20 anos, começou a brincar o coco”.
Discípulo de Alfredo Sueca, Ivo deu um novo destaque ao Coco, criando a Caravana de Ivo Lopes, um grupo que arrebatou as principais praças da cidade, animando festas juninas e sendo convidado para apresentações em municípios vizinhos. Com suas irmãs, as ‘pastoras’ Severina, Ourinho (Josefa Lopes de Lima) e Menininha (Leni Lopes de Lima), com Biu Neguinho (Severino Amaro dos Santos) e Ciço Gomes (Cícero Gomes da Silva), entre outros, Ivo Conseguiu, a partir dos anos 60, levar ao Coco grande parte da população arcoverdense, inclusive o ex-prefeito áureo Bradley, seus filhos e membros da alta sociedade do município. O ex-prefeito, aliás, foi um grande incentivador, através da Rádio Cardeal Arcoverde (AM).
Mas, foi ao lado da figura de Reginaldo Silva, popular locutor da referida rádio, que a Caravana, alcançou grande sucesso. Misto de empresário, produtor e animador, Reginaldo era presença constante ao lado de Ivo, de tal forma que os nomes de ambos era quase que sinônimo de Samba de Coco. Compositor de várias músicas não gravadas (uma das exceções foi “Esse é o amor de Mariá”, em parceria com Micenas Laranjeira), Reginaldo Silva foi figura importante na Caravana e muito do sucesso do grupo se deveu à parceria com este cidadão recifense, que conforme seu discurso se apaixonou pelas coisas do sertão. Devido a sua amizade com o cantor paraibano Genival Lacerda é que um dos mais famosos Cocos do repertório arcoverdense, “Cortar Capim (também conhecido por “Dilim) ganhou fama na década de 70, nas rádios AM
7 Depoimento concedido no dia 25/05/2017, na residência de Severina Lopes, situada na COHAB 1, Arcoverde-
de todo o Nordeste. Reginaldo faleceu durante o São João de 1998, de complicações causadas pela diabetes. Sobre Ivo, Reginaldo8 deu o seguinte depoimento:
“Ele (Ivo) era um sujeito muito alegre, muito, e é como se diz, gostava de esbanjar alegria. Ivo era um carnavalesco. Era tudo. E ele me chamou pra gente formar a Caravana de samba de coco que é essa que está até hoje com as irmãs dele e com os meninos. Houve outras que já não existem mais que hoje já não estão por aqui. E Ivo Lopes formava, a gente saía com um caminhão servindo de palanque, nos bairros da cidade fazendo apresentações. Aquelas irmãs dele, nesse tempo estavam todas elas juntas e mais outras pastoras, e Ivo era o improvisador principal. Ele cantava bem, inclusive cantava nos forrós de Jackson do Pandeiro, essas coisas, e a gente levava um sanfoneiro, fazia um show e a Caravana também se apresentava: show de forró e a Caravana de samba de coco. E assim ía durante os trinta dias no São João, no mês de junho. Todos bem trajados, camisas, as roupas”, os vestidos das mulheres todos bem florados, chapéus de palha com fitas enfeitados e os homens também de chapéu de palha. Então, a gente fazia o coco em cima do caminhão, do palanque.
Ivo começou a promover o Coco em Arcoverde, ainda no bairro do cruzeiro, primeiro local onde morou com a família. Chegou a frequentar também a sala dos galegos, mas seu quartel-general definitivo foi mesmo o bairro de São Miguel, na avenida Pinto Campos. Sua sala (ou arraial de Ivo Lopes, um palhoção no final da avenida, ao lado do atual Clube de Subtenentes e Sargentos de Arcoverde) foi frequentada por uma quantidade de pessoas nunca vista em outras salas, mas só funcionava no período junino, sendo desativada durante todo o resto do ano. Quando não estava no período, ocasionalmente, Ivo abria sua casa para almoços e jantares embalados pelo Coco. A Caravana também era convidada para animar festas particulares ou promovidas pelos clubes da cidade.
O São João na praça da Bandeira era o coroamento de uma bem-sucedida campanha junina, como se percebe pelo colorido depoimento de Reginaldo Silva, em que a Caravana visitava bairro por bairro durante as semanas que precediam a festa oficial. Na praça da Bandeira, o brinquedo prosseguia animado, com os dançarinos e músicos realizando suas performances. Uma prática comum era a realização de ‘desafios’, concursos para definir quem era o melhor pisador de Coco. O desafio era realizado em cima de palcos improvisados nas carrocerias de caminhões e os dançarinos iam se apresentando aos pares. Ao final de cada performance, um desafiante era eliminado e assim prosseguia até que restassem apenas dois pisadores, dos quais sairia um campeão. Esses desafios (bem diferentes dos desafios feitos pelos
8 Depoimento concedido no dia 18/05/1996, na residência de Reginaldo Silva, situada na COHAB 1, Arcoverde-
emboladores, pois aqui eram entre dançarinos) consistiam num dos pontos altos da festa, onde o público tinha grande envolvimento e participação.
O cantar no interior dos transportes públicos, pode ser aqui descrito como um momento em que o atrito entre concepções contrárias de simpatia, antipatia e tolerância a esta arte se dá em maior grau quando de forma icônica, sem artifícios e adornos aos seus interesses, os emboladores sobem nos ônibus (autocarros) pedindo ao público uma colaboração a sua arte prosaica de cantar, como recurso complementar as suas finanças, em anseio de sua sobrevivência.
Hábeis oradores de versos metrificados dinamizam, também, as práticas sociais e comerciais em ambientes de livre comércio ao proporcionarem um fundo musical ao cotidiano das ruas e dinâmicas de vidas, ao modo do que hoje vem sendo exercido pelas rádios, discos e DJ’s. Os coquistas de vias públicas buscam uma arrecadação de dinheiro para sua alimentação e dos seus dependentes. Apesar do caráter de diversão imposto pela sua presença nos trajetos dos pedestres. A maioria destes homens não está para brincadeira e diversão, mas sim para cumprirem seu trabalho diário. Seu discurso é sempre divertido e por vezes debochado ao caricaturar outros coquistas ou as pessoas com quem se defronta. A esse respeito, Ayala faz uma descrição dura e sóbria de uma das nuances desta prática em via pública, desenvolvida pelos coquistas que, neste espaço, passa a ter a denominação de embolador – àquele que embola o texto numa fala rápida, demarcada por uma rítmica presente no pandeiro ou outro instrumento de percussão. Segundo Ayala (2000, p. 21-22):
“(...) os emboladores improvisam seus versos, sendo cada qual utilizado um instrumento de percussão (pandeiro e, hoje mais raramente, ganzá) para marcar o ritmo, que faz fluir a poesia. O confronto se dá de modo a cada coquista procurar ridicularizar mais o seu companheiro através de comparações grotescas, provocando o riso da plateia. A maneira como os cantadores de coco se dirigem ao público nem sempre é respeitosa e formal.
Tais ridicularizações e comparações grotescas, ora citadas, são formas estéticas que os coquistas emboladores exerciam ostensivamente para que essa icônica virtuosidade da rima seja contemplada e agraciada com as moedas das pessoas aficionadas e simpatizantes, que buscam diversão e entretenimento.