4. DISCUSSÃO
4.2 PREDAÇÃO
4.2.1 Taxas de predação
Considerando-se o número total de ninhos implantados em cada uma das duas estações por ambientes (n = 40), a taxa de predação encontrada no ambiente de mata foi a menor de todas encontradas nos outros ambientes estudados, com 30% (n = 12) dos ninhos artificiais predados. A maior taxa de predação foi encontrada no entorno do lago, com 90% (n = 36) dos ninhos artificiais predados. Esses resultados se aproximam da taxas de predação encontradas por DUCA (2003) para ninhos naturais de Cacicus haemorrhous em três ambientes do Parque Estadual do Rio Doce, sudeste do Brasil, onde as colônias situadas em margens de lagos foram mais predadas (76,5% de seus ninhos predados) do que aquelas situadas em área de floresta (38,1% dos ninhos predados).
FEEKES (1981) para uma população de C. haemorrhous no Suriname e ROBINSON (1985) para uma população de C. cela no Peru também encontraram taxas de predação maiores em colônias situadas nas margens de lagos e rios, chegando perto de 100% em cinco anos de estudo. Esses autores atribuem este fato a uma vulnerabilidade maior deste ambiente a predadores terrestres e arborícolas.
TELLERÍA & DÍAZ (1995) analisaram através dos ninhos artificiais, os padrões de distribuição da predação de ninhos em um gradiente natural mata-área aberta na Amazônia colombiana e concluíram que a predação aumentou ao se diminuir a cobertura vegetal; porém não encontraram evidências sobre o aumento paralelo na abundância de predadores.
A predação dos ninhos localizados nos ambientes de mata e eucaliptal foi menor em relação aos outros dois ambientes. Acredita-se que este resultado possa ser atribuído ao fato de esses ambientes oferecerem maiores opções de substrato para nidificação mais protegidos em relação aos outros dois ambientes mais abertos, onde foi observada uma maior predação. BESSINGER & OSBORNE (1982), ANJOS & LAROCA (1989), MOTTA-JÚNIOR (1990), MATARAZZO-NEUBERGER (1995), BEGON et al. (1996) e VALADÃO et al. (2006) atribuem o aumento da diversidade de aves de um dado local a uma maior complexidade estrutural da vegetação; que pode estar relacionada com uma maior dificuldade para os predadores localizarem os ninhos.
Considerando-se a predação por substrato, as maiores taxas foram observadas nas árvores/arbustos, com 60% dos ninhos artificiais predados, enquanto as menores no chão, onde 52,5% dos ninhos artificiais foram predados. Entretanto, esta diferença não foi estatisticamente significante, conforme mostrou o teste de Chi-quadrado aplicado, o que corrobora com os resultados de MELO e MARINI (1997) e de DUCA et al. (2001) que não suportaram a hipótese de taxas diferenciais de predação de acordo com o substrato (chão e arbusto). MARINI et al. (1995) também não encontraram diferenças significativas nas taxas de predação entre chão e arbusto, mas levantaram evidências de que diferentes tipos de ninhos (de chão e de arbusto) podem ser afetados desigualmente por predadores nos locais de borda e interior de florestas.
Por outro lado, SANTOS e TELLERÍA (1991) encontraram uma influência significante da posição do ninho na incidência de predadores. Neste estudo, a predação foi mais baixa no chão do que em arbustos, possivelmente indicando uma mais baixa incidência de mamíferos do que em outros estudos onde a tendência oposta foi detectada (RATTI & REESE 1988, YAHNER et al. 1989). NOUR et al. (1993) também encontraram taxas de predação maiores em ninhos de árvores do que em ninhos de chão
e que ninhos de chão foram menos predados no interior que na borda de fragmentos de florestas.
Comparando-se as taxas de predação de ninhos artificiais por substratos em cada ambiente, observa-se que na mata o substrato arbusto sofreu predação menor (20%) do que o substrato chão (40%). No eucaliptal, as taxas de predação entre os substratos foram iguais (40%), enquanto que no lago (100% para arbusto e 80% para chão) e gramado (80% para arbusto e 50% para chão) a predação foi maior no substrato árvores/arbustos. Embora tenham ocorrido diferenças numéricas nas taxas de predação entre substratos nos ambientes, os resultados da ANOVA fatorial mostraram que a influência do substrato sobre as taxas de predação não foi significativa.
PICMAN (1988) afirma que diferenças de predação podem refletir variáveis nos hábitats que permitem mais fácil acesso e descoberta de ovos por predadores. SEITZ & ZEGERS (1993) verificaram uma menor predação de ninhos de chão dentro do ambiente de sucessão do que no ambiente de coníferas. A facilidade com que predadores podem se mover e localizar visualmente ninhos no chão relativamente estéril de floresta de coníferas quando comparado à densa cobertura de chão do ambiente de sucessão pode explicar a maior predação na floresta de coníferas. Igualmente, a predação era menor nos ninhos de chão na vegetação densa de um pântano do que na vegetação do planalto adjacente. Porém a correlação entre a predação e o grau de cobertura vegetal ou densidade de arbustos não foi significativa, sendo a posição do ninho (chão e arbusto) mais importante do que o tipo de ambiente neste estudo.
DEGRAAF et al. (1999) administraram um estudo de campo em Massachusetts central para comparar a predação em ninhos artificiais utilizando ovos de pardais dispostos perto da borda e no interior da floresta e entre chão e arbusto. As taxas de predação em ninhos de chão com ovos de pardal eram significativamente mais altas que em ninhos de arbusto na borda e no interior. As diferenças na freqüência de captura das seis espécies mais comuns de pequenos de mamíferos entre borda de floresta e interior não foram significativas. Análises de regressão indicaram um efeito de posição do ninho altamente significativo.
Houve diferença significativa comparando-se as taxas de predação entre as estações seca (42,5%) e chuvosa (70%). Essa diferença pode ser atribuída a alterações na oferta de alimentos e na comunidade de predadores ocasionadas pela variação na quantidade de chuvas nas duas estações. DUCA et al. (2001) também consideram que a diferença nas taxas de predação encontradas em seu trabalho, comparando-se os dois períodos de estudo (1999 e 2000), pode ser explicada por alguma variação anual do clima, sendo o segundo período de amostragem mais seco.
Quando comparadas às taxas de predação por estação em cada ambiente, foi registrada uma taxa maior no gramado em relação aos outros ambientes no período de chuva (95%; n = 19), o que não foi observado no período de seca (35%; n = 7). Neste caso a predação sofreu efeito da estação. No lago, a maior taxa de predação foi observada no período de seca, ao contrário de, todos os outros ambientes, onde as maiores taxas de predação deram-se na estação chuvosa. Os resultados da ANOVA fatorial mostraram que as diferenças nas taxas de predação foram influenciadas pelo ambiente e pela estação. DUCA et al (2001) atribuem as diferenças de predação entre a estação seca e chuvosa ao fato de que as alterações na precipitação podem influenciar a comunidade de predadores e a abundância das fontes alimentares.
SICK (1997) cita impactos atmosféricos como fator de perda de ninhada, por exemplo, acidentes que ocorrem por fortes ventanias, chuvas de granizo e inundações e afirma que não se pode saber o vulto do perecimento de pequenas aves durante temporais.
Comparando-se as taxas de predação por ambiente com o número de tipos de potenciais predadores registrados em cada ambiente constata-se que a maior taxa de predação se deu no ambiente de lago (90% no geral e 100% na estação seca), onde foi também verificada a maior variedade de tipos de potenciais predadores, artrópode (n = 1), répteis (n = 2), mamíferos (n = 3) e aves (n = 3).
A análise de regressão mostrou que existe correlação significativa (rS=0,682) entre as taxas de predação e a presença de predadores potenciais, sugerindo que a maior variedade de tipos de potenciais predadores reflete no aumento das taxas de predação pelo aumento das oportunidades e formas de predação.
FEEKES (1981) e ROBINSON (1985) também encontraram taxas de predação maiores nas margens de lagos e rios chegando perto de 100%. Esses autores atribuem este fato a uma vulnerabilidade maior deste ambiente a predadores terrestres e arborícolas o que também foi verificado no presente trabalho.
HAEMIG (1999) observou que algumas aves nidificam usualmente em árvores sem formigas, aparentemente para evitar a predação pelas formigas. Contudo, a nidificação em árvores com formigas ocorreu principalmente em regiões onde o risco de predação é mais alto, ao longo da borda da floresta, com taxas de predação maiores para ninhos em árvores sem formigas.
PIPER & CATTERALL (2006), ao analisarem o efeito do impacto de áreas de piquenique sobre comunidade de aves e a atividade de predação de ninhos numa floresta de eucalipto australiana, concluíram que a presença de uma área de piquenique pode influenciar fortemente a comunidade de aves dentro da floresta adjacente, e aumentar as taxas de predação de ninhos. Aves, répteis e mamíferos foram identificados como predadores através de marcas deixadas nos ovos dos ninhos predados.
BARBINI & PASSAMANI (2003) promoveram um experimento com ninhos artificiais utilizando ovos de codorna para verificar se existiam diferenças entre as taxas de predação no interior e na borda de um fragmento de mata e se existia correlação entre as taxas de predação e a abundância de Didelphis aurita. Não foi verificada uma correlação significativa entre a abundância mensal de D. aurita e a taxa de predação de ninhos e as taxas de predação de ninhos não mostraram diferença quando comparados o interior e a borda da mata.
4.2.2 Predadores
A maior variedade de tipos de potenciais predadores (artrópodes, répteis, mamíferos e aves) foi observada no entorno do lago, seguido do gramado, juntamente com o ambiente de mata e, por último, o eucaliptal com somente um tipo de predador (Formicidae). Não foram encontrados ninhos naturais neste ambiente, porém as taxas de predação no experimento com ninhos artificiais neste local se mostraram bem próximas às encontradas no ambiente de mata, onde eles foram menos predados.
No ambiente de lago foram observados nove tipos de potenciais predadores (Formicidae, Colubridae, Teiidae, Rattus sp., Felis catus, Canis familiaris, Crotophaga ani, Milvago chimachima, Troglodytes aedon); seis na mata (Formicidae, Teiidae, Rattus sp., Didelphis sp., Callithrix sp. e Troglodytes aedon ); seis no gramado (Formicidae, Felis catus, Canis familiaris, Crotophaga ani, Milvago chimachima, Troglodytes aedon ); e um no eucaliptal (Formicidae).
MELO & MARINI (1997) citam como potenciais predadores de ninhos o coati (Nasua nasua), gambás (Didelphis sp.), raposas (Dusicyon sp.), cão doméstico (Canis familiaris), várias espécies de pequenos roedores, além de aves (ex. Rhampastos toco, Cyanocorax cristatellus).
HANNON & COTTERILL (1998) mencionam aves e mamíferos como predadores de ninhos, sendo as aves principais responsáveis pela predação de ninhos em arbustos e os mamíferos como predadores secundários, provavelmente pelo fato de as aves encontrarem os ninhos primeiro. PICMAN & SCHRIML (1994) classificaram aves como predadores de ninhos exclusivamente diurnos e mamíferos como predadores exclusivamente noturnos.
MAJOR (1991) em seu trabalho de identificação de predadores de ninhos por fotografia utilizando um mecanismo que é ativado pelo predador no ato da predação, realizado no Parque Nacional da Ilha de Norfolk, mostrou o mamífero Rattus rattus predando ovos e ninhegos. O rato é de fato um dos mamíferos potenciais predadores presentes no Campus, foi visto no ambiente de mata e no entorno do lago.
GOTTFRIED & THOMPSON (1978) mencionam mamíferos, aves e cobras como principais predadores de ovos e filhotes. JOERN & JACKSON (1983) citam aves e cobras como principais predadores de ninhos. MARTIN (1987) aponta também mamíferos como predadores potenciais.
BATÁRY et al. (2004), em seu experimento com ninhos artificiais utilizando ovos de Coturnix coturnix na Áustria, durante os meses de abril, maio e junho de 2001, reconheceram três categorias de espécies de potenciais predadores baseando-se nas marcas deixadas nos ovos predados: (1) grandes aves predadoras, (2) pequenas aves predadoras e (3) mamíferos predadores. Mais de dois terços dos predadores identificados eram grandes aves, os outros foram principalmente aves pequenas e os mamíferos foram predadores muito incidentalmente.
4.2.3 Parasitismo
Sick (1997) cita aves, algumas das quais observadas no Campus, como potenciais hospedeiras de Molothrus bonariensis, que é uma ave parasita de ninhos e potencial predadora de ninhos; sendo uma ave parasita de ninhos pode ejetar os ovos da ave hospedeira para por os dela em seu lugar (SICK 1997, PORTO & PIRATELLI 2005). Apesar de não terem sido observados ninhos parasitados por M. bonariensis, sua população no Campus é relativamente grande (PORTO & PIRATELLI 2005) sugerindo a ocorrência do parasitismo e sua atuação, como potencial predador de ninhos, contudo os ninhos artificiais utilizados no experimento não foram parasitados pela maria-preta.
WILSON et al. (1998) em seu estudo, nos anos de 1993 e 1994 em Berks County, Pennsylvania, e nas proximidades do Hawk Mountain Sanctuary, observaram a presença de Molothrus ater, outra ave parasita de ninhos, no local de seus experimentos com ninhos artificiais e ninhos naturais de Hylocichla mustelina. No entanto, encontraram taxas de parasitismo por Molothrus ater diferentes entre os dois grupos, 26% de ninhos naturais ativos foram parasitados enquanto nenhum dos ninhos artificiais foi parasitado assim como no presente estudo.
4.2.4 Caça e comércio ilegal de aves no Campus
Um fator que certamente desfavorece o sucesso reprodutivo das aves na UFRRJ é a predação humana, embora não tenha sido quantificada no presente estudo. É comum pessoas retirarem filhotes dos ninhos, arrancarem os ninhos inteiros com os filhotes, bem como circularem pela região com gaiolas com espécies nativas, várias das quais provavelmente capturadas dentro do próprio Campus. Durante as observações, foram encontradas várias armadilhas para a coleta de mamíferos e de aves, além de pessoas procurando e coletando ninhos de beija-flores para fazer chás. Na página <
http://anastaciabenvinda.portalcen.org/rituais/r02.htm > encontra-se uma receita: “PARA GANHAR CARINHO” onde o ninho beija-flor faz parte dos ingredientes. Também foi constatado o comércio de Estrilda astrild vendidos a R$ 1,00 cada.
FERREIRA et al. (2006) ressaltam a importância ecológica do Campus para as aves que nele habitam ou utilizam-no como local de passagem e destacam o fato de que mesmo sendo área federal e protegida, o Campus vem sofrendo forte pressão antrópica nos últimos anos e tornam-se necessárias medidas urgentes para que o mesmo não venha a se descaracterizar ainda mais no futuro.
Este trabalho vem também reforçar a importância ecológica do Campus, dada a variedade de ambientes que este abriga, considerável variedade de espécies e a urgência por medidas necessárias à conservação do mesmo. Sugere-se como medidas para a conservação do Campus: a adoção de práticas de conscientização da comunidade universitária quanto à importância da conservação do Campus, palestras ministradas por professores e estagiários do Laboratório de Ornitologia da UFRRJ; e a criação de um folheto educativo mostrando de forma didática a importância do Campus para as aves como local de alimentação, abrigo e reprodução.