Tecnologias para cenários de aprendizagem
3.2 IMS Learning Design
3.2.1 Predecessores: Educational Modeling Language (EML)
A especificação IMS LD tem por base um sistema de notação formal, a Educational Modelling Language, desenvolvida pela Open University of the Netherlands (OUNL) na década de 90. Na base do trabalho desenvolvido pela OUNL, encontra-se uma investigação aprofundada que abarcou mais de 100 modelos pedagógicos distintos, na procura de elementos comuns, que pudessem ser abstraídos das diferentes abordagens educativas e articulados de forma abstracta.
O sistema de notação EML tem, assim, como objectivo primário a descrição global de uma vasta gama de processos e modelos de aprendizagem através da descrição das suas componentes: os conteúdos, as actividades, as regras e as interacções entre os diversos agentes implicados. A descrição destes processos e modelos em EML é posteriormente interpretada por uma ferramenta de execução, como é o caso da EduBox, desenvolvida pela OUNL propositadamente para o efeito.
A EML prevê que as unidades de ensino sejam, necessariamente, descritas com recursos aos elementos “metadata” (metadados), “role” (papel) e “method” (método). Opcionalmente podem ainda ser incluídos os elementos “learning-objectives” (objectivos de aprendizagem), “prerequisites” (pré-requisitos) e “content” (conteúdo).
Cada um dos elementos da notação tem como objectivo descrever uma das componentes da unidade de ensino, por exemplo: as definições do “role” determinam os agentes que desempenham o papel de estudante e de professor; o “method” especifica o comportamento e sequenciação desses papéis em relação às actividades a desenvolver; as definições do “environment” determinam o local onde as actividades ocorrem e quais os conteúdos (“learning objects”) e serviços (“services”) que serão utilizados; e a definição das “activities” identifica a tipologia de actividades a ser utilizada – actividades de aprendizagem (“learning activities”) ou de apoio (“support activities”) – e as suas implicações nos papéis de cada interveniente.
A estrutura básica do sistema EML pode ser percepcionada pela figura abaixo:
Figura 15: Estrutura do sistema de notação EML
A fragmentação e representação dos cenários de aprendizagem, através de elementos co- relacionados que integram uma metalinguagem, permite o desenho de estruturas abstractas capazes de abarcar uma grande diversidade de modelos pedagógicos com potencial de reutilização entre ambientes de aprendizagem.
Em 2002, o Grupo Valkenburg, composto por um conjunto de 33 peritos da área do e-learning, determinou o potencial da linguagem EML que serviria de base para o desenvolvimento da especificação IMS LD, a ser consolidada em 2003 (Dias, 2007b).
O processo de normalização da especificação IMS LD e a concentração de esforços nesta conduziram ao abandono da EML. De facto, apesar de ser possível encontrar diversos pontos em comum, Tattersall (2003) aponta algumas diferenças entre ambas, sumariadas na Tabela 7.
Tabela 7: Diferenças fundamentais entre EML e IMS LD (Tattersall & Koper, 2003)
EML IMS LD Produzida pela OUNL e disponibilizada à comunidade da tecnologia educativa; Especificação desenvolvida e promovida pelo IMS Global Learning Consortium. Possui um modelo de conteúdos que indica como os Objectos de Aprendizagem devem ser estruturados (baseado no DOCBook DTD) Não possui modelo de conteúdos. Utiliza o XHTM recomendado, mas suporta outros conteúdos. Possui uma abordagem única e abrangente no que concerne ao desenvolvimento de experiências de aprendizagem. Possui uma estrutura integrada com o IMS Content Packaging que inclui, entre outras, as normas: IMS Meta Data, IMS Question & Test Interoperability, IMS Simple Sequencing.
3.2.2 Objectivos e estrutura
A Especificação IMS LD foi concebida com o objectivo de transformar a descrição de problemas e estratégias educacionais em cenários pedagógicos que são armazenados em Unidades de Aprendizagem e que podem, por sua vez, ser partilhadas e reutilizadas entre plataformas de aprendizagem. De forma muito breve, a especificação descreve como Indivíduos participam numa Unidade de Aprendizagem, desempenhando um determinado papel (docente ou estudante) e onde um Método despoleta um conjunto de Actividades numa determinada ordem. Tudo isto sucede num Ambiente que contém Objectos (texto, áudio, imagens, etc.) e que disponibiliza Serviços (chat, conferência, etc. (Glynn & Acker, 2003).
Genericamente, o objectivo da especificação IMS LD é fornecer uma estrutura de elementos capazes de descrever formalmente qualquer processo de ensino-aprendizagem. De forma mais específica, o IMS LD visa cumprir os seguintes requisitos:
− Integralidade: a especificação deve ser capaz de descrever o processo de ensino- aprendizagem através de uma Unidade de Aprendizagem, que inclua referências aos Objectos de Aprendizagem, digitais e não digitais, e aos serviços utilizados no decorrer do processo.
− Flexibilidade pedagógica: deverá ser capaz de expressar o significado pedagógico e as funcionalidades dos diversos elementos intrínsecos ao contexto de uma Unidade de Aprendizagem. Deve consistir numa descrição flexível de todos os tipos de pedagogias, não prescrevendo qualquer abordagem pedagógica em particular.
− Personalização: deve ser capaz de descrever aspectos pessoais que permitam a adaptação dos conteúdos e actividades que compõem a Unidades de Aprendizagem às preferências, portefólio, conhecimento prévio, necessidades educacionais e circunstâncias situacionais de cada aprendente. O controlo deste processo de adaptação pode ser fornecido ao aprendente, ao docente ou ao designer.
− Formalização: deve descrever formalmente um desenho pedagógico no contexto de uma Unidade de Aprendizagem, para que o seu processamento automático seja possível. − Reprodutibilidade: deve descrever um desenho pedagógico suficientemente abstracto,
para possibilitar a sua execução repetida em diferentes contextos e por diversos agentes.
− Interoperabilidade: os desenhos pedagógicos produzidos devem ser interoperáveis entre sistemas de ensino-aprendizagem.
− Compatibilidade: a especificação utiliza as normas e especificações disponíveis onde seja possível enquadrá-las, nomeadamente: IMS Content Packaging, IMS Question and Test Interoperability, IMS/LOM Meta-Data and IMS Simple Sequencing.
− Reutilização: a especificação deve possibilitar a identificação, isolamento, descontextualização e a circulação de artefactos de aprendizagem úteis e que possam ser reutilizados noutros contextos.
A especificação é composta por três documentos técnicos com objectivos distintos, mas co- relacionados:
- IMS Learning Design XML Binding Document, que detalha a representação dos elementos do IMS LD em XML;
- IMS Learning Design Information Model Document, que apresenta o vocabulário, as relações funcionais entre conceitos, os diversos elementos IMS LD e um conjunto de comportamentos de execução que os sistemas LD devem implementar. Este documento é composto por um Modelo Conceptual, abordado mais em detalhe no ponto 3.2.3, um Modelo de Informação e um Modelo Comportamental;
- IMS Learning Design Best Practice Guide, que consiste fundamentalmente num guia de boas práticas e de implementação para designers e docentes, descrevendo alguns casos práticos que representam diversos tipos de cenários de aprendizagem.