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4 DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS DADOS

4.1 ELEMENTOS PARATEXTUAIS DA ANÁLISE

4.1.3 Prefácio

Genette (2009, p. 145) declara que muitos são os nomes dados ao que escolhemos chamar de prefácio. Independentemente de sua terminologia, o autor define esse paratexto como “toda espécie de texto liminar (preliminar ou pós-liminar), autoral ou alógrafo, que consiste em um discurso produzido a propósito do texto que segue ou que antecede.” (GENETTE, 2009, p. 145) A definição nos parece um pouco vaga, focando mais na localização do paratexto no livro do que na sua função. Seguindo adiante na leitura de Genette

(2009), entretanto, observamos que isso não é verdadeiro, uma vez que o autor dedica grande parte da sua obra a vários aspectos do prefácio, inclusive suas funções.

O estudo minucioso e recheado de exemplos de Genette (2009) sobre prefácios rende considerações em relação ao surgimento do gênero, à sua forma e lugar, ao momento em que pode surgir comparado ao texto principal, aos seus destinadores e destinatários, e, mais detalhadamente, às suas funções. O autor explica que os prefácios como os que estamos acostumados a lidar remontam do século XVI. Antes da prensa de Guttenberg, “por razões materiais evidentes, a função prefacial é assumida pelas primeiras linhas ou pelas primeiras páginas do texto.” (GENETTE, 2009, p. 147) Os textos que introduziam outras obras separadamente a elas tornaram-se comuns, portanto, com o advento do livro encadernado.

Genette (2009, p. 153) observa que a maioria dos prefácios aparece em formato de prosa, embora possa haver exceções. Quanto ao lugar, o autor divide os prefácios entre os que aparecem antes (preliminares) ou depois do texto principal (pós-liminares), afirmando que essa escolha se dá em razão da função que esse paratexto exercerá. (GENETTE, 2009, p. 154) Em relação ao momento em que o prefácio surge, ele pode ser considerado original, quando é lançado junto com o texto principal; posterior, como é comum nas segundas edições; ou

tardio, quando a reedição de uma obra ou até mesmo a versão original são lançadas muito

tempo depois da escrita, gerando, inclusive um lugar de reflexão mais “maduro” para o autor do prefácio. E o prefácio tardio pode ser, ainda, póstumo, quando é publicado depois da morte do autor do texto original. (GENETTE, 2009, p. 156, 157)

Para tratar dos destinadores dos prefácios, Genette (2009, p. 159 - 172) propõe uma classificação mais ampla, que envolve tanto o papel desempenhado pelo destinador como o regime em que ele escreve esse paratexto. Assim, a partir da observação de inúmeros romances e outros livros, cria o quadro representado abaixo:

Quadro 2 - Destinadores do prefácio

REGIME/PAPEL Autoral alógrafo actoral

autêntico A1: assuntivo

Hugo para Cromwell /A2: denegativo La Vie de Marianne B Sartre para Portrait d’un inconnu C Valéry para Commentaire de Charmes fictício D “Laurence Templeton” para Ivanhoe E “Richard Sympson” para Gulliver F

“Gil Blas” para

Gil Blas apócrifo G * “Rimbaud” para La Chasse spirituelle H * “Verlaine” para La Chasse spirituelle I * “Valéry” para Commentaire de Charmes Fonte: GENETTE (2009, p. 165)

Para cada combinação de regime de escrita com papel desempenhado, Genette traz um exemplo de prefácio real ou potencial. De acordo com sua classificação, o prefácio autoral é aquele cujo autor é o mesmo do texto principal, o actoral é escrito por uma das personagens do texto, e o alógrafo é aquele assinado por uma terceira pessoa. Quando o prefácio é

autêntico, significa que a atribuição do seu autor foi confirmada por outra. Já quando essa

atribuição for invalidada, teremos um prefácio apócrifo, enquanto o prefácio fictício designa um paratexto cuja autoria é, obviamente, fictícia. Quando o prefácio é considerado autêntico e autoral, ele pode aparecer de forma assuntiva, quando seu autor toma o texto principal como de sua responsabilidade, ou denegativa, em casos que o autor do prefácio nega ser o autor do texto principal.

Finalmente, em relação aos destinatários, Genette (2009, p. 172) não vê grandes complicações em afirmar que “o destinatário do prefácio é o leitor do texto.”

Visto que a classificação de Genette (2009) para os prefácios é ampla e completa, não recorreremos a outros autores para analisar o prefácio do Pañcatantra.

O prefácio da nossa edição do Pañcatantra possui dez páginas e é dividido em seis partes: a primeira disserta sobre o projeto de tradução realizado pelas pesquisadoras; a

segunda explica o que é o Pañcatantra e como ele chegou no Ocidente; a terceira parte fala sobre as fábulas na literatura sânscrita; e a quarta parte fala sobre a importância do

Pañcatantra na Índia. A quinta parte fala especificamente sobre a tradução da obra e é

dividida em três partes: a) observações sobre a transliteração; b) diferenças de construção textual; c) as marcas de oralidade do texto. Finalmente, na última parte, há uma tabela de equivalência de sinais entre os alfabetos devanagari e latino, com o intuito de explicar como são pronunciadas as notações que as tradutoras usam no texto.

De acordo com a classificação de Genette (2009), podemos afirmar que o prefácio da nossa edição do Pañcatantra é preliminar, pois aparece no livro antes do texto original; tardio, porque é lançado séculos depois da criação das fábulas; alógrafo porque não é escrito nem pelo autor do texto nem por um dos personagens; e autêntico porque sua autoria é confirmada.

Segundo Genette (2009, p. 232 - 242), os prefácios alógrafos tardios possuem duas funções típicas: a de trazer recomendações sobre a leitura do texto e a de informar o leitor. Quanto às informações que o prefaciador tardio pode trazer, elas podem ser sobre: a gênese da obra, a vida do autor, a situação do texto em relação ao conjunto da obra do autor. Assim, podemos atribuir, aqui, a função de contar a história da gênese do texto do Pañcatantra ao prefácio das tradutoras do texto, principalmente na segunda e quarta partes do paratexto. Não se fala muito sobre a vida nem a obra de Vishnu Sharma, uma vez que pouco se sabe sobre o brâmane além da própria autoria do Pañcatantra. Sobre os prefaciadores que recomendam a leitura do texto original, Genette explica que isso pode ocorrer de forma explícita ou implícita, como acreditamos ser o caso do prefácio do Pañcatantra, já que “a presença desse tipo de prefácio já é, por si só, uma recomendação.” (GENETTE, 2009, p. 236)

No prefácio da nossa edição do Pañcatantra podemos verificar que há a preocupação em acionar tanto conhecimentos enciclopédicos quanto linguísticos, uma vez que há seções que falam tanto sobre o aspecto histórico das fábulas, quanto tópicos que se preocupam com notações próprias da língua sânscrita. A presença desses elementos promove espaço para que o contexto possa ser construído em todos os seus níveis.