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CAPÍTULO 3. CRÍTICAS DE TRADUÇÃO

3.1 Ensaio histórico: Parte 1 (1800-1812)

3.1.8 Prefácios e notas

A primeira resenha do Débats, como falamos acima (seção 3.1.1), trazia um elogio às notas da tradução, que eram “suficientemente sábias para satisfazer os helenistas”, além do prefácio tido como “bem pensado e bem escrito”. Esse espírito de valorização das notas e prefácios é algo comum nas suas críticas, mesmo quando a tradução em si não agradava ao resenhista. Em linhas gerais, esses paratextos (GENETTE, 2009) – notas e prefácios – demarcavam um certo cuidado, um aprofundamento do tradutor na obra e no autor traduzido.

Por trazerem a opinião do tradutor, os paratextos davam a oportunidade de um debate mais direto com ele, além de proporcionar uma espécie de “munição” ao crítico. Em fevereiro de 1804, por exemplo, Féletz apresentou uma questão moral em relação ao trabalho do tradutor. A obra Werther fazia, segundo o crítico, uma apologia ao suicídio. O tradutor teria defendido o autor em seu prefácio, assegurando que os sentimentos eram do herói do poema e não de seu criador. Foi uma defesa em vão, afirmou Féletz, pois o poeta é sempre responsável por tudo que cria. O tradutor, ao “tomar partido”, equivocou-se, na sua visão (FÉLETZ, 13 fev. 1804, p. 2).

Em 1809, Dussault estranha o fato de o tradutor de Plínio, Gueroult, dizer “poucas coisas em seu prefácio”; ele teria sido, aponta o crítico, “exageradamente lacônico”. O leitor gostaria de:

um pouco mais de ideias, um pouco mais de fecundidade, de calor, de desenvolvimento. Isso não é absolutamente necessário, é verdade. Mas um bom prefácio de Gueroult seria uma bela peça a mais em sua coleção. Além disso, há uma disposição em crer que um tradutor não pode senão traduzir. Um prefácio um pouco seco fortalece esse preconceito maldoso; e quem seria mais capaz que Gueroult de desmentir isso?133 (DUSSAULT, 31 jul. 1809, p. 3).

132 Em 1810, o crítico escreve uma nota dizendo que Delille havia entendido que em um de seus artigos o estaria acusando de “bétise et friponnerie”. Ao que Dussault rebate: J’ai dit [...] qu’il y a dans la traduction de l’Enéide, par Delille, des morceaux qui ne sont pas de lui; j’ai la dit, avec d’autant plus de confiance, qu’il y a dans cette traduction un très grande nombre de morceaux très-indignes de la réputation du traducteur titulaire (DUSSAULT, 19 dez. 1810, p. 4). Em 1811, ao resenhar uma coletânea da obra de Le Brun, Dussault continua suas referências a Delille: “cette traduction de l’épisode d’Aristée, qui étoit déjà connue depuis long-temps, et que quelques critiques ont même préférée à celle de M. Delille…” (DUSSAULT, 14 dez. 1811, p. 2)

133 [...] peu de choses dans ses préfaces [...] trop laconique [...] un peu plus d’idées, un peu plus de fécondité, de chaleur, de développement : cela n’est pas absolument nécessaire, il est vrai; mais une bonne préface de M. Gueroult seroit un beau morceau de plus dans son recueil. D’ailleurs, on est si disposé à croire qu’un traducteur ne peut que traduire ! Une préface un peu sèche fortifie ce préjugé malin; et qui est-ce qui seroit capable de le démentir que M. Gueroult?

Ao resenhar uma tradução da obra Les Fastes d’Ovide, Dussault não consegue identificar o número da edição, pois essa não aparecia registrada no livro. Sabia que a primeira edição datava de quatro ou cinco anos antes da que tinha em mãos. Como também sabia o que não constava naquela edição, mas que estava presente na primeira. Ele escreveu:

o texto em latim não acompanha a tradução nessa edição francesa. As notas foram suprimidas, embora tenha sido mantido, não sei o porquê, o prefácio no qual o autor remete seguidamente às notas. [...] eu não gosto dessas edições truncadas: eu as olho como uma espécie de triunfo do comércio sobre a literatura134 (DUSSAULT, 14 jul. 1809, p. 1)

Apesar de Dussault afirmar que entre as traduções até então publicadas dos

Comentários de César a de Boutidoux ser “a obra menos defeituosa”, seu mérito estava em

suas “pesquisas exatas” e nas “notas sábias que acompanharam a sua tradução”135

(DUSSAULT, 21 nov. 1809, p. 3).

Em 1812, já desenvolvendo suas ideias sobre a intraduzibilidade dos Antigos, Dussault, ao analisar a tradução feita por Gerlache da Catilina de Salústio, considera-a “excessivamente fraca”. O tradutor teria acertado ao traduzir a obra, mas errado ao publicá-la. Dedicando-se ao autor antigo, teria “aprofundado bem o escritor que ele traduziu mal”, produzindo, graças a isso, “interessantes e instrutivas [...] notas que ele fez após sua tradução e que preenchem uma grande parte do volume que publicou”136. Ao término da resenha,

Dussault afirma que só poderia recomendar essa parte do livro aos estudantes, não a sua tradução (DUSSAULT, 13 dez. 1812, p. 4).

Para a crítica do Débats, a importância dos prefácios é inegável, no entanto, obviamente, seu conteúdo pode ser questionado. Féletz chegou a escrever em uma resenha que não estava “disposto a crer cegamente em tudo o que [...] diz um tradutor em seu prefácio em relação à sua tradução”137 (FÉLETZ, 25 ago. 1813, p. 2). E, em 1817, escreve: “creio que,

em geral, os leitores gostam dos prefácios”138. Não somente os leitores, pois, conforme o

abade, também “os críticos gostam deles”, pois é uma maneira “muito cômoda” de conhecer

134 [...] le texte latin n’accompagne point, dans cette édition, la traduction française; les notes même ont été supprimées, quoiqu’on ait conservé, je ne sais pourquoi, la préface dans laquelle l’auteur renvoi souvent aux notes. [...] je n’aime point ces éditions tronquées: je les regarde comme uns espèce de triomphe que le commerce remporte sur la littérature

135 [...] l’ouvrage moins défectueux [...] recherches exactes, les notes savantes dont il a environné sa traduction. 136 [...] excessivement foible [...] intéressantes et instructives [...] notes qu’il a mises à la suite de sa traduction, et qui remplissent une grande partie du volume qu’il a publié.

137 [...] disposé à croire aveuglément tout ce qui me dit un traducteur dans sa préface et au titre de sa traduction [...].

ou resumir a obra, de tomar “um tema de instrução ou um tema de crítica”139 (FÉLETZ, 1 abr.

1817, p. 2).