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termo, para determinar seu conteúdo.175 No que se refere a relações vassálicas com

camponeses, muitos documentos registram a entrega de prestimonia, casais, solares, terras, justificando o gesto pelo amor que o senhor tem pelo beneficiado e pelo serviço que este já lhe prestou e que se espera continuará prestando.

A organização da sociedade ibérica medieval foi, desde cedo, assentada nos princípios senhoriais, que ganhavam forma, inclusive, nos discursos religiosos. A profunda vinculação que se estabelece entre os níveis, social, político, econômico e cultural requer que o historiador entenda as manifestações religiosas como veículos que criam e que são reflexo, ao mesmo tempo, das relações sociais. Sobre o reino visigodo, por exemplo, Mário Jorge Bastos entende que, de fato,

insere-se a divindade no curso da história e, a partir desta inserção, desvela-se uma ordem social e sagrada, calcada em vínculos pessoais, dependências, fidelidades, poder e submissão. (...) Assim como moldou a esfera do divino – inserindo a divindade no curso da história ou, visto sob outro ângulo, introduzindo a sociedade na esfera do sagrado, hierarquizando as potências do bem e a sociedade dos justos por vínculos que uniam a Deus, desde os anjos e santos até o mais ínfimo dos (seus) servos em relações de dependência e subordinação -, o cristianismo também modelou uma espécie de contraface sua, o Reino do Demônio, Senhor da morte e do inferno que também atuava mediante subordinados

176.

Como já referido nos capítulos anteriores, as narrativas de milagres recorrem frequentemente à lógica e à linguagem senhorial-vassálica para apresentar e argumentar sobre os casos em que os demônios têm algum tipo de participação. Mais concretamente, utilizam-se expressões claras, como, “vassalo de Deus” e “vassalo do diabo”, bem como se recorre amplamente à palavra “senhor”, para estabelecer o lugar de cada um e as respectivas obrigações dentro da estrutura do texto.

3.1 Preito e vassalagem: os pactos diabólicos

175 Ver: COELHO, Maria Filomena. Serviço e benefício: relações e redes sociais na tradição ibérica.

In: MACEDO, José Rivair.. (Org.). A Idade Média portuguesa e o Brasil: reminiscências, transformações e ressignificações. Porto Alegre: Vidráguas, 2011, p. 145-156; COELHO, Maria Filomena. Territorialização de mosteiros nobres: o Cister feminino em Leão (séc. XII-XIII). Territórios e Fronteiras (UFMT. Impresso), v. 4, p. 34-56, 2011.

176 BASTOS, Mário Jorge da Motta. Assim na terra como no céu... Paganismo, cristianismo,

senhores e camponeses na alta Idade Média Ibérica (séculos IV-VIII). São Paulo: EDUSP, 2013, p. 178; 181.

83 O cristão pode escolher entre dois caminhos: a bondade, que o leva ao céu e à vida eterna, e a maldade, que o sentencia ao inferno e ao sofrimento eterno. Esses caminhos são representados por dois senhores: Deus e Satã. A morte do corpo é o momento em que a alma recebe a sentença que sela seu destino no além, em que será julgado pelo conjunto das escolhas que fez em vida, colocando-o sob a jurisdição celeste ou a infernal. Entretanto, também durante a vida terrena, os cristãos, por meio dos caminhos escolhidos, vinculam-se a essas jurisdições, ainda que de forma temporária, devido à tendência pecadora, que os joga nos braços do senhor-diabo, e à possibilidade de se penitenciarem, que os reconcilia com o senhor-Deus. De qualquer forma, trata-se de escolher um senhor, de livre vontade, como preconiza o modelo feudal.

As relações entre senhores e vassalos são sedimentadas por meio de pactos, que, a depender da importância dos envolvidos requerem rituais e registros que dão substância ao laço que se cria entre as partes. Na documentação os atos contratuais são referidos pela palavra preito/pleito, derivada do latim placitum, portanto, vontade, mas que os deslocamentos operados pelo léxico feudal acabarão por fixar como compromisso e acordo.177 Apesar dos deslocamentos, os estudiosos ressaltam que essencialmente mantém-

se a ideia de decisão e de consentimento entre as partes para que o laço se constitua.

O pacto com o diabo, realizado em vida, é um modo de firmar a relação entre agentes infernais e cristãos, no qual estes abandonam o seu senhor natural, Deus, e submetem-se ao senhorio de Lúcifer.

O caso mais antigo e famoso de pacto com o diabo é a narrativa intitulada “Milagre de Teophilo”, que aparece tanto nas Cantigas de Santa María, como em Los

Milagros de Nuestra Señora.178 A narrativa das Cantigas é bem mais curta, como se pode

apreciar a seguir:

Mais nos faz Santa Maria a seu Fillo perdõar,/ que nos per nossa folia ll' imos falir e errar./ Por ela nos perdõou Deus o pecado d'Adam da maçãa que gostou,/ per que soffreu muit' affan e no inferno entrou;/ mais a do mui bon talan tant' a seu Fillo rogou, que o foi end' el sacar./ Mais nos faz Santa Maria.../ Pois ar fez perdon aver a Theophilo, un seu servo, que fora fazer/ per conssello dun judeu carta por gãar

177 MATTOSO, José. O léxico feudal. In: En torno al feudalismo hispánico. Avila: Fundación

Claudio Sánchez Albornoz, 1989, p. 297.

178 O milagre de Teófilo também está compilado na Legenda Aurea. Embora nessa fonte também se

recorra à simbologia da carta para selar o pacto, a extensão da narrativa é menor e, ao contrário das fontes castelhanas e portuguesas, não se detalham as negociações entre a Virgem Maria e Teófilo. VARAZZE, op. cit., p. 754.

84 poder cono demo, e lla deu;/ e fez-ll' en Deus descreer, des i a ela negar./ Mais nos faz Santa Maria.../ Pois Theophilo assi fez aquesta trayçon,/ per quant' end' eu aprendi, foy do demo gran sazon; mais depoys, segund' oý, repentiu-ss' e foy perdon pedir logo, ben aly/ u peccador sol achar./ Mais nos faz Santa Maria.../ Chorando dos ollos seus muito, foy perdon pedir, u vyu da Madre de Deus a omagen; sen falir/ lle diss': «Os peccados meus son tan muitos, sen mentir, que, se non per rogos teus, non poss' eu perdon gãar.»/ Mais nos faz Santa Maria.../ Theophilo dessa vez chorou tant' e non fez al, trões u a que de prez todas outras donas val, ao demo mais ca pez negro do fog' infernal/ a carta trager-lle fez, e deu- lla ant' o altar./ Mais nos faz Santa Maria...179

Esse mesmo milagre ganha uma narrativa extremamente desenvolvida e rica em detalhes, em Los Milagres de Nuestra Señora:

Del pleito de Teófilo vos querría fablar,/ tan precioso miraclo non es de oblidar,/ ca en esso podremos entender e asmar/ que vale la Gloriosa qui la sabe rogar./Non querré, si podiero, la razón alongar/ ca vos avriédes tedio, yo podría peccar;/ de la oración breve se suele Dios pagar,/ a nos éssa nos desse el Criador usar./ Era un omne bono de granada fazienda,/ avié nomne Teófilo como diz la leyenda,/ omne era pacífico, non amava contienda,/ bien sabié a sus carnes tenerlas so su rienda./ En el logar do era contenié grand bailía,/ de su sennor el bispo tenié la vicaría;/ de los de la eglesia avié la mejoría,/ fuera que el obispo avié la nomnadía./ Era en sí misme de buena contenencia,/ sabié aver con todos paz e grand abenencia;/ omne era temprado, de buena conocencia,/ era muy bien condido de sen e de cïencia./ Vistié a los desnudos, apacié los famnientos,/ acogié los romeos que vinién fridolientos;/ dava a los errados buenos castigamientos,/ que se penitenciassen de todos fallimientos./ Non avié el obispo embargo nin lazerio,/ fuera cantar su misa e rezar so salterio;/ elli lo escusava de todo ministerio,/ contar las sus bondades serié grand reguncerio./ Amávalo el bispo mucho de grand manera,/ porque lo escusava de toda facendera;/ los pueblos e las gentes aviénlo por lumnera,/ que él era de todos cabdiello e carrera./ Quando vino el término que ovo de finar,/ non podió el obispo el punto traspassar;/ enfermó e murió, fo con Dios a folgar:/ déli Dios paraíso, si se quiere rogar./ Los pueblos de la tierra, toda la clerecía,/ todos diçién: «Teófilo aya la bispalía,/ entendemos que yaze en él la mejoría,/ él conviene que aya la adelantadía.»/ Embïaron sos cartas al metropolitano/ por Dios que de Teófilo non mudasse la mano;/ ca esso tenién todos por consejo más sano,/ lo ál serié ivierno, esto serié verano./ Embïaron por elli los del arzobispado,/ dissiéronli: «Teófilo, prendi esti bispado,/ ca todo el cabillo en ti es otorgado,/ e de todos los pueblos eres tú postulado.»/ Recudiólis Teófilo con grand simplicidat:/ «Sennores, mudat mano por Dios e caridat,/ ca non só yo tan digno pora tal dignidat,/ en fer tal electïón serié gran ceguedat.»/ Disso el arzobispo: «Quiero que vos fabledes,/ esta electïón quiero que la tomedes.»/ Díssoli don Teófilo: «Tanto non contendredes/ que a todo mi grado a ello me levedes.»/ Los de la canongía, si lis plogo o non,/ ovieron a facer otra electïón;/ el bispo que pusieron enna ordinación/ metió otro vicario enna ministración/ Corrién los pleitos todos al vicario novel,/ serviénlo a Teófilo mas plus servién a él;/ cogió zelo Teófilo, cempelló el donzel,/ cambióse en Caín el que fuera Avel./ En casa del obispo non era tan privado,/ como solié seer con el otro passado;/ fo en so voluntat fierament conturbado,/ aviélo la envidia de su siesto sacado./ Teniése por maltrecho e por ocasionado,/ de grandes e de chicos vediése desdennado;/ cegó con grand despecho e fo mal trastornado,/ asmó fiera locura, yerro grand desguisado./Do morava Teófilo, en essa bispalía,/ avié y un

85 judío en essa judería;/ sabié él cosa mala, toda alevosía,/ ca con la uestantigua avié su cofradría.Era el trufán falsso pleno de malos vicios,/ savié encantamientos e muchos maleficios;/ fazié el malo cercos e otros artificios,/ Belzebud lo guïava en todos sus oficios./ En dar consejos malos era muy sabidor,/ matava muchas almas el falsso traïdor;/ como era basallo de muy mal sennor/ si él mal lo mandava él faziélo peor./Cuidávanse los omnes que con seso quebrava,/ non entendién que todo Satanás lo guïava;/ quando por aventura en algo acertava,/ por poco la gent loca que no lo adorava./ Aviélo el dïablo puesto en grand logar,/ todos a él vinién consejo demandar;/ lo que lis él dizié, faziégelo provar,/ sabié de mala guisa los omnes engannar./ Teniénlo por profeta todos, chicos e grandes,/ todos corrién a elli como puercos a landes;/ los que enfermos eran levávanlos en andes,/ todos dizién: «Faremos quequier que tú nos mandes.»/ Teófilo mesquino, de Dios desamparado,/ venciólo so lucura e mueda del Peccado;/ fo demandar consejo al trufán dïablado,/ cómo podrié tornar al antigo estado./ Díssoli el judío: «Si creerme quisieres,/ rehez puedes tornar en esso que tú quieres;/ non ayas nulla dubda, si tú firme sovieres/ todo es recabdado, si non te repindieres.»/ Recudióli Teófilo como embellinnado:/ «Por esso vin a ti por seguir tu mandado.»/ Díssoli el judío: «Seï asegurado,/ cuenta que el tu pleito todo es recabdado./ Ve folgar a tu lecho, torna a tu posada,/ cras al suenno primero, la gente aquedada,/ fúrtate de tus omnes, de toda tu mesnada,/ ven tastar a la puerta e non fagas ál nada.»/ Fo con esto Teófilo alegre e pagado,/ tovo todo so pleito que era bien parado;/ tornó a su posada durament engannado,/ mucho más li valiera si se fuesse quedado./

Luego la otra nochi, la gente aquedada,/ furtóse de sus omnes, issió de su posada;/ fo tastar a la puerta, ca sabié la entrada,/ el trufán sovo presto, abrióli sin soldada./ Prísolo por la mano, la nochi bien mediada,/ sacólo de la villa a una cruzejada;/ dísso'l: «Non te sanctigues nin te temas de nada,/ ca toda tu fazienda será cras mejorada.»/ Vío a poca de ora venir muy grandes yentes/ con ciriales

en manos e con cirios ardientes,/ con su reï en medio, feos, ca non luzientes:/ ¡Ya querrié don Teófilo seer con sus parientes!/ Prísolo por la mano el trufán traïdor,/ levólo a la tienda do sedié el sennor;/ recibiólo el rei asaz a grand onor,/ sí fizieron los prínçipes que'l sedién derredor./ Dísso'l luego el rei «Don fulán, ¿qué buscades?/ ¿Qué present me traedes? Quiero que lo digades, o ¿qué omne es ésti que vos me presentades?/ Saberlo quiero luego - esto bien lo creades.»/ Díssoli el judío: «Sennor, rey coronado,/ ésti solié seer vicario del bispado,/ queriénlo todos mucho, era omne onrrado,/ tolliéronlo agora, ond es menoscavado./ Por esso es venido a tos pies caer,/ que li fagas cobrar lo que solié aver;/ él fágate servicio a todo so poder,/ avrás en él bassallo bueno a mi creer.»/ Díssoli el dïablo: «Non serié buen derecho/ a bassallo ageno yo buscar tal provecho;/ mas deniegue a Christo que nos faz muy despecho,/ facerli é que torne en todo so bienfecho./ Deniegue al so Christo e a Sancta María,/ fágame carta firme a mi placentería;/ ponga ý su seyello a la postremería,/ tornará en su grado con muy grand mejoría.»/

Teófilo con gana de en precio sobir,/ al placer del dïablo ovo a consintir;/ fizo con él su carta e fízola guarnir/ de su seyello misme que no'l podié mentir./ Partióse d'él con esto, tornó a su posada, cerca era de gallos quando fizo tornada;/ no la entendió nadi esta so cavalgada/ fuera Dios a qual sólo non se encubre nada./ Pero perdió la sombra, siempre fo desombrado,/ perdió la color buena, fincó descolorado;/ pero Dios se lo quiso, non por poder del Peccado,/ tornó el malastrugo en todo su estado./ Tornó el fementido en todo so estado,/ connocióse el bispo que avié mal errado,/ que de la vicaría lo avié demudado,/ «Sennor -disso Teófilo- séavos perdonado»./ Si ante fo Teófilo bien quisto e amado/ fo depués más servido e mucho más preciado;/ Dios sennero lo sabe, que es bien decorado,/ si li vinié por Dios o si por el Peccado./ Visco algunos días en esta

bienandança,/ aviendo con el bispo amor e grand privança,/ recibiendo del pueblo mucha buena pitança,/ mas en cabo firiólo Christo con la su lança./ Estando est vicario en esta vicaría,/ cogió muy gran jactancia e grand

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vallitanía; /concibió vanagloria e grand eufanía/ entendiéngelo todos que trayé loçanía./ El Sennor que non quiere muerte de peccadores/ mas que salven

las almas, emienden los errores,/ tornó en est enfermo de mortales dolores,/ que era decebido de malos traïdores./ Los vienes que fiziera ennos tiempos trocidos,/ el buen Sennor non quiso que li fuessen perdidos;/ reviscló los sus sesos que yazién amortidos,/ abrió luego los ojos que tenié adormidos./ Respiró un poquiello, tornó en so sentido,/ comidió su fazienda, víose mal tannido;/ comidió más adentro qué avié prometido,/ allí cadió Teófilo en tierra amortido./ Disso entre sí misme: «Mesquino, malfadado, /del otero que sovi ¿quí me ha derribado?/ La alma é perdida, el cuerpo despreciado,/ el bien que é perdido no lo veré cobrado./ Mesquino peccador, non veo do ribar,/ non trovaré qui quiera por mí a Dios rogar;/ morré como qui yaze en medio de la mar,/ que non vede terrenno do pueda escapar./ Mesquino ¡aï mí! Nasqui en ora dura,/ matéme con mis manos, matóme mi locura;/ aviéme assentado Dios en buena mesura:/ agora é perdida toda buena ventura./ Mesquino, porque quiera tornar enna Gloriosa,/

que diz la escriptura que es tan pïadosa,/ non me querrá oír ca es de mi sannosa,/ porque la denegué, fiz tan esquiva cosa./ Non ovo mayor culpa Judás el traïdor/ que por poccos dineros vendió a su sennor;/ yo pequé sobre todos, mesquino peccador,/ que por mí non será ninguno rogador./ So perdido con Dios e con Sancta María,/ perdido con los sanctos por mi alebosía;/ corté todas las cimas do los piedes tenía,/ si nacido non fuesse mucho mejor avría./ El día del judizio, yo, falsso traïdor,/ ¿con quál cara verré

ant el nuestro Sennor?/ De mí fablarán todos, mesquino peccador,/ non verrá a la junta de mí otro peor./ Vidi en ora mala aquella vicaría,/ escuché al dïablo, busqué mi negro día;/ matóme el trufán, él de la judería,/ que mató otros muchos con mala maestría./ Yo non avía mengua nin andava mendigo,/ todos me fazién onrra e plaziélis comigo;/ mas fui demandar mejor de pan de trigo,/ yo busqué mi cuchiello: fui mi enemigo./ Avía qué vistir, avía qué calzar,/ avía pora mí, avía pora dar;/ fui pora mercado día negro buscar,/ devríame yo misme con mis manos matar./ Bien sé que d'esta fiebre non podré terminar,/ non á menge nin físico que me pueda prestar/ si non Sancta María, estrella de la mar,/ mas ¿quí será osado que la vaya rogar?/ Yo mesquino fediondo que fiedo más que can,/ can que yace podrido, non él que come pan,/ non me querrá oír, esto sélo de plan,/ ca fui contra ella torpe e muy villán./ Que a los sanctos quiera meter por rogadores,/ como

del mi mal pleito todos son sabidores,/ sannosos me son mártires, todos los confesores,/ mucho más los apóstolos que son mucho mayores./ Non quiero

por los piedes la cabeza desar,/ a la Madre gloriosa me quiero acostar;/ cadré a los sos piedes delante so altar,/ atendiendo su gracia, allí quiero finar./ Allí terré ieiunios, faré aflictïones,/ ploraré de los ojos, rezaré oraciones,/ martiriaré las carnes, cevo de vervenzones,/ ca metrá en mí mientes en algunas sazones./ Maguer la denegué como loco sendío,/ que fui engannado por un falso judío,/ firmemientre lo creo, enna su mercet fío,/ que d'Ella nació Christus que fue Salvador mío./ Que vaya al su tiemplo cras de buena mannana,/ venir'm á lo que veno a la egiptïana,/ que priso grand porfazo como mala villana,/ fasta que la Gloriosa li fo entremediana. Aunque me lo sufra Dios por su pïadat,/ que pueda entrar entro veer la magestat,/ verrá rayo o fuego o otra tempestat,/ fará danno a muchos por la mi malveztat./ Aunque todo esto me quiera Dios sofrir,/ que me dexe en paz mi rencura dezir,/ en quál razón empieze non puedo comedir,/ nin asmo cómo pueda la mi boca abrir.»/ Desemparó su casa e quanto que avié,/ non disso a ninguno lo que facer querié;/ fue pora la eglesia del logar do seyé,/ plorando de los ojos quanto más se podié./ Echóseli a piedes a la Sancta Reína,/

que es de peccadores consejo e madrina:/ «Sennora -disso- valas a la alma mesquina,/ a la tu merced vengo buscarli medicina./ Sennora, só perdudo e só desemparado,/ fiz mal encartamiento e só mal engannado,/ dí non sé por quál guisa la alma al Peccado,/ agora lo entiendo que fizi mal mercado./ Sennora benedicta, reína coronada,/ que siempre fazes preces por la gent

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desbïada,/ non vaya repoyado yo de la tu posada,/ si non dizrán algunos que ya non puedes nada./ Sennora, tú que eres puerta de paraísso,/ en qui el Rey de Gloria tantas bondades miso,/ torna en mí, Sennora, el to precioso viso,/ ca so sobeja guisa del mercado repiso./ Torna contra mí, Madre, la tu cara preciosa,/ fáceslo con derecho si me eres sannosa;/ non vaya más a mal que es ida la cosa,/ torna sobre Teófilo, Reína glorïosa.»/ Quarenta días sobo en

esta contención,/ sufrié días e noches fiera tribulación;/ de ál no li membrava si d'esto sólo non:/ clamar a la Gloriosa de firme corazón./ Plógo'l al Rey del Cielo al quarenteno día,/ contendiendo Teófilo en su tesurería,/ apareció'l de noche

Sancta Virgo María,/ díssoli fuertes bierbos com qui con fellonía./ Díssoli: «¿En qué andas, omne de auze dura?/ Sobre yelo escribes, contiendes en