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3. CONCEITOS BÁSICOS SOBRE A ESCOLA DA CRIMINOLOGIA CRÍTICA: AS

3.5. PREMISSAS BÁSICAS ACERCA DA CRIMINOLOGIA CRÍTICA

Como anteriormente dito, a criminologia crítica é oriunda das teorias conflitais marxistas e rompe com a sociologia criminal liberal. Há uma mudança de paradigma.

Partindo da ideia de rotulação, do labelling approach, a criminologia radical vem mostrar o conflito social, que busca explicar os processos de criminalização das

89 CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A Criminologia Radical.2ª Edição. ICPC. Lumen Juris.p.3.2006.

90 SCHECARIA, Salomão Sérgio. Criminologia. 4ª Ed. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo.

p.279. 2002.

91 FUDOLI, Rodrigo de Abreu. “Punição e estrutura social”: as ideias criminológicas de Rusche e Kirschheimer. p. 425. In: Revista do CAAP. Centro Acadêmico Afonso Pena. Belo Horizonte. 2002.

92 CALHAU, Lélio Braga. Resumo de Criminologia. 4ª Ed. Impetus. Rio de Janeiro. 2009. p.78.

classes subalternas93, historicamente constituintes da clientela do sistema penal.

Resta verificado que tal conflito é dependente do plano econômico da coletividade. Sendo inspirado em Marx – não necessariamente de forma ortodoxa –, tal modelo criminológico opta por um método histórico-analítico de verificação do fenômeno criminal, com perspectivas macrossociológicas (acumulação de riqueza e sua relação com a criminalidade), ou mesmo microssociológicas (incidência da rotulação nos indivíduos).

Para essa teoria criminológica, as desigualdades criam condições que levam ao delito de rua e à criminalidade organizada. O capitalismo e suas formas selvagens são fundamentalmente criminogênicas, porque geram pobreza, injustiça, menos valia, e exploração dos mais fracos e a prisão é relacionada ao surgimento do capitalismo mercantil. O delito surge como fenômeno dependente do modo de produção capitalista.

Um dos autores que se destacaram no estudo a teoria crítica no Brasil, foi o professor Juarez Cirino dos Santos, que conceituou, de forma brilhante, a criminologia crítica:

“a criminologia crítica é construída pela mudança do objeto de estudo e do método de estudo do objeto: o objeto é deslocado da criminalidade, como dado ontológico, para a criminalização, como realidade construída, mostrando o crime como qualidade atribuída a comportamentos ou pessoas pelo sistema de justiça criminal, que constitui a criminalidade por processos seletivos fundados em estereótipos, preconceitos e outras idiossincrasias pessoais, desencadeados por indicadores sociais negativos de marginalização, desemprego, pobreza, moradia em favelas etc94”.

Dito isso, podemos afirmar que as ideias centrais da criminologia crítica95 – radical ou nova criminologia – partem da premissa basilar de que o fundamento da conduta desviante e do fato delituoso deve ser observado de forma conjunta com as

93 HASSEMER, Winfried. Introdução aos fundamentos do Direito Penal. Tradução de Pablo Rodrigo Aflen da Silva. p.101. 2005.

94 HASSEMER apud CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A Criminologia Crítica e a reforma da legislação

penal. Disponível em: <

http://www.cirino.com.br/artigos/jcs/criminologia_critica_reforma_legis_penal.pdf> p.1. Acesso em:

27/10/2014.

95 Juarez Cirino dos Santos, tradutor da obra Critical Criminology (1975), foi um dos responsáveis pela adoção da expressão “Criminologia Radical” no Brasil. Foi ele que adotou a expressão pela primeira vez na obra “A Criminologia Radical”. CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A Criminologia Radical. 2ª Edição. ICPC. Lumen Juris.2006.

estruturas econômico sociais da sociedade, na qual o autor do delito se encontra envolvido.

Neste sentido, Bergalli afirma que o surgimento do ato desviado se dá a partir da ocasião, sendo que “a experiência ou desenvolvimento estrutural que fazem precipitar esse ato96”. Bergalli afirma, portanto, que as atitudes desviantes do indivíduo se dão em consequência de uma “sociedade de contradições”97. É o que o autor viria a chamar de “psicologia social do delito98”.

A intenção da teoria crítica, portanto, era exatamente a de lançar novas inflexões tendo em vista uma mudança na forma de pensar as criminalizações, partindo do pressuposto e de um objetivo, que é a necessidade de redução das desigualdades sociais, sobretudo de classes (o que nos remete de certa forma aos ideais basilares marxistas). Assim, Schecaria afirma que:

“(...) esta visão faz repensar toda a politica criminalizadora do Estado, que deve assumir uma criminalização e penalização da criminalidade das classes sociais dominantes: criminalidade econômica e politica (abuso de poder), praticas antissociais na área de segurança do trabalho, da saúde publica, do meio ambiente, da economia popular, do patrimônio coletivo estatal e – não menos importante – contra o crime organizado99”.

Com essa definição, transparece de forma vistosa o caráter marxista que a escola adota, pois aqui se verifica a tentativa de proteger o homem dos exploradores e a de não aceitar a defesa da sociedade contra o crime. Por definição, a criminologia radical assim é chamada porque quebra o paradigma da criminologia tradicional100, que anteriormente era considerado como absoluto.

Pode se concluir, portanto, que nessa teoria, há uma mudança do objeto, tirando do centro das atenções a figura do criminoso para se focar nas análises dos conjuntos das relações sociais, mostrando que “são criminosos os sistemas sociais que reproduzem através de suas estruturas econômicas, jurídicas e políticas do

100 CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A Criminologia Radical. 2ª Edição. ICPC. Lumen Juris.2006. p.51.

Estado, as condições necessárias e suficientes para a existência do comportamento criminoso101”.

Cabe ressaltar, ainda, o fenômeno teoria da subcultura, que se caracteriza pela opção de um indivíduo pela propagação da estigmatização de criminoso que ele sofre102. Para Baratta, na sociedade existem vários grupos, sendo que dentro desses grupos menores, existiria o próprio código de conduta morais e éticas, na qual os que pertencem a determinado grupo passam a valorar de forma igual o que se é pregado, inclusive no que toca à desvios de conduta. Sendo assim, haveria uma espécie de conflito de códigos de valores entre os subgrupos, ou seja, o comportamento considerado delitivo pode não ser assim valorado por indivíduos de um grupo, ao passo que, para outro, pode ser.

Essa opção do indivíduo desviante se explicaria pelo fato de, a partir do momento dessa rotulação, o sujeito estigmatizado passar a ser respeitado na esfera social na qual ele vive. Nesses subgrupos haveria uma espécie de negação da culpabilidade.

Na mesma linha, surgem as teorias do conflito, na qual a ideia da existência de uma sociedade universal e monolítica é confrontada. Nessa teoria se leva em consideração uma sociedade plural, com diversos grupos quem assim como na teoria dos subgrupos, podem possuir código de valores contrastantes.

Por fim, podemos afirmar que as chamadas teorias do conflito se alicerçam, sobretudo, numa abordagem macrossociológica, pois versam as estruturas do poder entre os grupos que formam a sociedade e os conflitos que decorrem dessa dinâmica como contexto explicativo da criminalização103.

101 CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A Criminologia Radical. 2ª Edição. ICPC. Lumen Juris.2006. p.51.

102 BACILA, Carlos Roberto. Estigmas: um estudo sobre os preconceitos. 2ª edição ampliada. Editora Lumen Juris. Rio de Janeiro. 2008. p. xxii.

103 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do Direito Penal. 3ª edição. Revan. Rio de Janeiro. 2002. pp. 118-119.

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