PARTE I – ABORDAGEM TEÓRICA
CAPÍTULO 4 – Síntese orientadora de abordagens empíricas
4.2 Premissas para a definição de descontinuidade
O termo descontinuidade é usado para designar a distribuição desigual de um fenómeno num determinado território. Várias disciplinas se encarregam deste estudo, dado que qualquer
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fenómeno com expressão territorial (de ocupação, de uso do solo, etc.) tem quase sempre uma distribuição heterogénea e descontinuada. Nesta investigação a definição de descontinuidades passa por perceber os valores do planeamento recente, sendo nossa convicção que as mesmas se baseiam em simultâneo em três pilares fundamentais e nas suas negações. Daqui resulta uma boa parte das razões para ter as descontinuidades ao nível do desenho urbano como objecto de estudo.
O primeiro destes pilares está relacionado com a intervenção do Estado no desenho (enquanto autor) e execução de planos. Da incapacidade de controlar a cidade pela intervenção pública (a cidade que cresceu em torno da cidade de Brasília ou a expressão das ocupações legais e ilegais sem desenho público em Lisboa são eloquentes a esse nível) à assumida partilha de encargos e de tomada de decisões com o sector privado, assistimos a efeitos de sentidos opostos na ocupação do território. As experiências de controlo público da urbanização geraram um povoamento concentrado e faseado, acentuando o modelo de relação centro/periferia e influenciando o custo do solo; apesar disso, estes territórios tiveram um peso reduzido no total do desenho da cidade.
Esta incapacidade do Estado para responder aos ritmos de crescimento demográfico das últimas décadas do século passado fez com que começássemos a ouvir falar de planear e de urbanizar, com surgimento de parcerias público-privado e da necessidade de incluir iniciativa privada nos processos de elaboração dos planos e de os articular através da governação. E cresce a convicção de que a colaboração privada é mais do que um mal necessário para a conformação da forma urbana. A noção de urbanidade ganha expressão enquanto resultado da coesão de grupos sociais, dissociando-se de densidade construída. A dicotomia entre mais e menos próximo de um centro esbate-se, porque as próprias regras de desenho do espaço se alteram com a perda de controlo público sobre “o que se faz” e “onde”. Este conjunto de circunstâncias reflecte aquilo a que chamaremos a negação do Estado; ao resultado da afirmação e da negação do Estado chamaremos descontinuidades.
O segundo destes pilares resulta de um modelo de planeamento associado quase exclusivamente ao Plano-Documento, incólume ao tempo e insensível às transformações. Em períodos da história do planeamento urbano privilegiou-se o plano enquanto documento; noutros períodos, o documento enquanto elemento estático perdeu peso para o processo enquanto factor dinâmico, o que permite que se vá moldando às diferentes realidades com que a sociedade se depara.
David Harvey aborda a relação entre o plano e o tempo, distinguindo a Cidade do acto de urbanizar e centrando a atenção, do nosso ponto de vista, na produção do espaço desfasada do tempo e como resultado de processos sociais (HARVEY, 1989). Relativamente ao resultado final da sua aplicação, gerou-se a convicção de que para o que o plano deixava por resolver, o projecto encarregar-se-ia de encontrar soluções. O autor do plano, no passado mais do que no presente, estabelecia a ponte aparentemente perfeita entre o planeamento e a arquitectura, ao desenhar as soluções para o não resolvido e/ou ao firmemente acreditar na procura de soluções de qualidade. A grande mudança ocorreu ao nível dos instrumentos: encontramos
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evidências recorrentes da diversificação de meios e do desaparecimento da singularidade dos planos. Isto deve-se, a nosso ver, à importância dada à implementação dos planos quando esta começa a tornar-se num problema. A este conjunto de conceitos que reflectem mudanças chamaremos negação do Plano; à combinação de elementos resultantes da afirmação e de elementos resultantes da negação do Plano chamaremos descontinuidades.Por último, surge a apologia do modelo de zonamento monofuncional. A tentativa de resolver os conflitos de uso, quer novos, quer herdados. A coesão do todo ou a forma de resistir a esta fragmentação baseava-se na técnica como suporte de uma rede de infra-estruturas eficaz que garantisse o bom funcionamento da segregação funcional. E a partir daí desenhava-se todo o modelo de organização, mas também formal, da cidade. Christopher Alexander marca, e arriscaríamos dizer que inaugura, com “A Cidade não é uma Árvore”, a crítica à estrutura “artificial” das cidades modernistas. A primeira grande mudança ocorreu ao nível das regras para a ocupação do território: a monofuncionalidade já foi uma virtude e hoje defende-se a mistura de usos; a baixa densidade surgiu como resposta ao congestionamento das redes e hoje é vista como risco para a garantia dos limiares mínimos dessas mesmas redes, para a ecologia (ou economia do ambiente, como definida no século XIX) e para a urbanidade. Neste contexto, ao conjunto de conceitos que usamos para medir as mudanças chamaremos negação do desenho e ao resultado das mudanças na forma de aplicar estes conceitos chamaremos descontinuidades.
Encontraremos adiante contributos importantes ao nível dos elementos componentes do espaço urbano e da forma do edifício em Kevin Lynch e Aldo Rossi. Os contextos de trabalho destes dois autores variam, mas partilham a importância que dão à legibilidade. Vários autores relevam a análise tipo-morfológica como instrumento de trabalho (Leon Krier, Nuno Portas e Oriol Bohigas) ao ponto de quase se confundir com a forma urbana. Confusão que Bernardo Secchi procura esclarecer e que aqui também abordaremos. Quase sempre são arquitectos (Koolhaas, Tschumi) quem usa o desenho (aqui traço) como instrumento de investigação para encontrar vias alternativas às diferentes declinações da cidade tradicional e da cidade modernista.
A visão resultante destes três pilares articula-se com planos que orientaram os crescimentos urbanos nas últimas décadas e que seguiram e negaram os três princípios enunciados, ainda que a realidade teime em não os seguir totalmente e apesar de algumas concretizações terem sido mais bem sucedidas que outras. Porventura pela coexistência da afirmação e negação de modelos não ser estanque no tempo e no espaço, resultam as descontinuidades urbanas. Pela via teórica, os planos mudam lentamente, em resultado da contestação ao modelo em vigência. A crítica ao planeamento faz-se pela apresentação de alternativas à situação atrás descrita: apela-se à mistura de usos por oposição à segregação; defende-se a participação dos agentes, o partenariado público-privado e uma atitude de colaboração no planeamento em complemento ao papel isolado do Estado; destaca-se o papel do processo para lá do plano.
Com efeito, a simultaneidade da defesa e contestação da acção do Estado, da defesa e contestação do Plano-Documento e da defesa e contestação da segregação funcional têm uma
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tradução territorial que identificamos com as descontinuidades que propomos aprofundar. Temos assim uma primeira definição, ainda lata, das descontinuidades como conceito analítico: podemos encontrar as descontinuidades urbanas analisando as diferenças de paradigmas que estiveram na origem dos desenhos das cidades; analisando os diferentes modelos de infra- estruturação e desenho do território como actividade pública ou aberta à sociedade, como actividade estanque no tempo ou atenta à necessidade de adaptações tão constantes que, em última análise, podem levar a pôr em causa a própria figura de plano.
O planeamento urbano, para além de dever responder às questões específicas de cada local, tem necessariamente que garantir o cumprimento de metas a atingir, sendo que ao longo desta investigação nos temos preocupado com aquilo a que chamámos paradigmas de planeamento: o policentrismo; a estrutura territorial ecológica e a continuidade do espaço público. Temo-nos deparado nos casos analisados com diferentes tipos de espaço público, que se apoiam em grande medida em diferentes tipos de estrutura viária.
QUADRO 4.1 – RELAÇÃO INTER-TERRITORIAL DE POLICENTRISMO, ESTRUTURA ECOLÓGICA E CONTINUIDADE DO ESPAÇO PÚBLICO
METAS / ESCALAS VIA RÁPIDA RUA / AVENIDA CAMINHO ACEIRO
POLICENTRISMO X X / O O O
ESTRUTURA TERRITORIAL
ECOLÓGICA O X X X
CONTINUIDADE DO ESPAÇO
PÚBLICO O X X / O X / O
(X – RELAÇÃO FORTE; O – RELAÇÃO POUCO IMPORTANTE)
Reflectindo o papel que cada um dos elementos que compõem o sistema viário pode ter no cumprimento destas metas, verificamos ser o espaço tradicional da via rápida, e por vezes da rua/avenida, aquele que surge mais frequentemente associado ao policentrismo, dado que este se apoia na garantia de boas acessibilidades. Mas um policentrismo apoiado exclusivamente em vias rápidas torna-se num elemento contraproducente para atingir os outros dois paradigmas. Estes, por dependerem da permeabilidade do espaço encontram na rua/avenida o seu território preferencial. O caminho e o aceiro, que se afastam gradualmente das tipologias urbanas tradicionais, mas que nos territórios para-urbanos estão presentes em quantidade significativa, apresentam escala e tipologia de uso compatível com a estrutura ecológica e continuidade do espaço público, mas relativamente a esta última observa-se uma falta de densidade de ocupação que lhe pode ser prejudicial.
É impossível dissociar a discussão da forma urbana da escala dos elementos que a compõem. Primeiro porque os elementos que consideramos de escala local e de escala metropolitana são de facto e em grande medida elementos que combinam estas duas características. Em segundo lugar porque uns dos elementos associados à escala metropolitana, normalmente designados não-lugares, raramente são encontrados em “estado puro”, combinando características comuns ao lugar antropológico (AUGÉ, 2002).
O planeamento urbano tem procurado lidar com a questão de estrutura através de várias abordagens, procurando definir a dimensão “certa” da cidade. A relevância deste tema acentuou-se com os crescimentos urbanos em “mancha de óleo”. Já aqui abordámos alguns