5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.4 Aspectos da relação entre psicólogo perito e assistente técnico
5.4.3 Presença do assistente técnico na perícia
A subcategoria “presença do assistente técnico na perícia" refere-se a como as psicólogas peritas e as assistentes técnicas avaliam a presença física do assistente técnico durante a avaliação do perito. Essa subcategoria apresenta duas sub-subcategorias: prejudicial e proveitoso. No que diz respeito à sub-subcategoria “prejudicial”, todas as psicólogas peritas e duas assistentes técnicas acreditam que a presença do assistente técnico na mesma sala em que o psicólogo perito realiza o seu trabalho interfere de alguma forma no processo avaliativo,
sobretudo no atendimento com crianças e na aplicação de testes, mesmo que este profissional se mantenha calado.
Eu acho um absurdo. Acho que já... já tem muita muita coisa pra você dar conta e ainda mais uma outra pessoa [...] E ela não pode interferir em nada, mas só a presença dela já tá interferindo. Principalmente, imagina, você com a criança aqui nessa sala [...] Aí a criança ela não vai pegar e dizer assim: eu só vou me dirigir a você. Ela vai se dirigir a outra pessoa né. E aí? Como é que você vai lidar? O que é que a pessoa vai fazer? Vai ficar muda? Né? A pessoa não vai falar nada? Não tem como. E com o adulto dá um pouquinho mais de controle nesse sentido, mas ainda sim interfere, né. Não acho adequado não. Não tem formas de trabalhar depois, né? Não tem um material que é produzido? Então trabalhe em cima daquele material produzido. (PP1)
Eu acho que isso influencia muito, tanto no que pode ser dito, quanto no contexto natural de uma entrevista, né? Da gente tá aqui lidando, sabendo que o outro já tá avaliando, que o outro já tá questionando, vendo, tentando achar alguma brecha no que você tá fazendo. (PP2)
[...] porque eu acredito que já é complicado você manter um rapport com a criança, com uma pessoa que você nunca viu e o nosso trabalho é super pontual, então assim né, é complicado você colocar mais uma pessoa, seriam dois adultos ali, uma pessoa só observando. Eu acho que interferiria muito, né, principalmente dependendo da idade da criança. (PP3)
Isso, no nosso entendimento, no nosso conhecimento lá era completamente inadequado, nunca tinha visto isso. [...] Na sala do atendimento, ela tentou não interferir em nada, não vou dizer que ela não interferiu, porque ela era uma pessoa que tava ali presente. Aparentemente não prejudicou, ela ficou sentadinha no sofá que tem lá na sala né, ela ficou sentada lá no sofá, não falou absolutamente nada, terminou o atendimento, ela foi embora. (PP4)
Eu fico imaginando, por exemplo, se fosse eu, num atendimento que eu fosse fazer um teste projetivo e chegasse uma determinação dessa aqui, eu ia ter que pensar numa outra coisa, porque eu acho que ia interferir ali naquele teste mais uma pessoa presente observando, enfim [...] porque a gente já lida com tantos conflitos, então imagina o que é pra o entrevistado saber que o assistente técnico da outra parte tá assistindo a entrevista dele né. Com certeza, isso vai prejudicar a espontaneidade dessa entrevista, já é um contexto que é difícil a gente desenvolver esse rapport e tudo, imagina com o assistente técnico da outra parte? (PP5)
Acho que atrapalha. Eu acho que... eu penso assim: o perito precisa é... que aquela relação dela ora com a mãe, ora com o pai, ora com as crianças sejam o mais fidedigna possível e um terceiro ali eu acho que atrapalha essa dinâmica da dupla. Eu acho que o assistente técnico tem que funcionar antes e depois disso. (AT1) Não, não concordo com essa postura. Jamais eu teria essa postura. A não ser que o perito me chamasse, eu iria avaliar com ele por que ele tá me chamando e se eu visse que realmente faria sentido, eu estaria. [...] Eu acho isso uma falta ética, tanto é que o conselho, na resolução do conselho, o assistente técnico ele não faz esse trabalho de acompanhamento do perito não. (AT3)
Já a sub-subcategoria “proveitoso” envolve o entendimento de três assistentes técnicas de que seria benéfica a sua presença durante a avaliação pericial para o trabalho das mesmas. A participante AT2 expôs que seria uma forma de ter um contato com a parte adversária. A
entrevistada AT5 chegou a expressar que a presença de um terceiro elemento influencia numa avaliação, porém ainda assim ela seria válida, pois existem processos com questões muito delicadas e o trabalho destes dois profissionais poderia ser colaborativo.
Mas, em alguma ocasião, eu posso dizer pra ele [o advogado]: eu queria tá presente, porque eu queria ver como é que era a reação. É importante pro meu trabalho também, né? Eu sei que aquela parte não vai vir pra mim, então eu tô observando algumas coisas que vão ser interessantes pro meu trabalho também, mas sou impedida, porque não pode [...] Você tá no seu consultório, atendendo uma pessoa, não pode outra pessoa tá presente, mas eu penso que a situação judicial é diferente, é diferente. Eu acho que você pode não se pronunciar, ficar só de... Como eu lhe falei, eu sei de casos que houve em que tava presente o assistente técnico da outra parte e eu não estava. Então não tem muita coisa pra ser arrumada? Tem sim. (AT2) Não, eu acho até que assim, é claro que eu, como assistente técnica, gostaria de participar, não é? Até porque tem questões minhas que foram formuladas por mim e gostaria de tá podendo participar naquele momento pra poder ter também né o meu olhar sobre. Então, eu acho que, eu acharia ótimo né, mas não é assim que funciona. Eu acho que isso é uma norma deles talvez. Já tem até algum tempo que eu não participo de nenhum processo, não sei se já houve alguma mudança em relação a isso. (AT4)
Porque eu entendo, né, porque a gente sabe que dentro de um processo terapêutico, que não é isso, não é um tratamento, mas é um movimento que muitas vezes envolvem coisas delicadas e um terceiro vai sim influenciar, eu acredito nisso, mas tem casos que seria importante né a gente participar desse movimento. Eu acho que seria fundamental talvez. Talvez até um processo de parceria mesmo, pra que ambos pudessem questionar, pudessem estar juntos, principalmente quando envolve crianças e aí a gente poder fazer parte do movimento lúdico, talvez, pra que a gente pudesse chegar ao mesmo entendimento, pensar junto né. (AT5)
Fica clara a divisão entre as participantes: todas as peritas rejeitam essa presença, já a maior parte das assistentes deseja essa participação. De acordo com Araújo (2014) e Rovinski (2020), este também é um importante ponto de discordância entre os profissionais do direito e da psicologia, tendo em vista que as determinações do CPC e as do CFP são diferentes. A resolução do CFP nº 08 de 2010 proíbe esta presença no art. 2º, visando evitar uma interferência nos procedimentos avaliativos (CFP, 2010). Por sua vez, § 1º do art. 471 do CPC, na busca de garantir a ampla defesa e o contraditório, permite que ele acompanhe o trabalho do perito e sugere que a data e o local da perícia devam ser previamente informados (BRASIL, 2015). Silva (2016) também acrescenta que esta polêmica envolve o questionamento se o assistente técnico só estaria presente nas sessões de seus clientes ou em todos os encontros, incluindo aqueles da parte contrária. A referida autora indaga se a parte adversária vai concordar com a presença do assistente técnico, sobretudo se ela não tiver o seu próprio profissional, e se será possível conciliar os horários disponíveis de dois ou mais
profissionais com o do periciando sem atrapalhar o cumprimento do prazo de elaboração do laudo.
Pelo que foi relatado pelas peritas, houve dois casos em que foi solicitada a presença do assistente técnico nos seus atendimentos. Como já foi exposto, na ocasião ocorrida com a participante PP4, existiu um conflito entre a advogada e a psicóloga perita, pois a primeira não aceitou as justificativas da perita para essa negativa e ela possuía uma determinação judicial para isto. Com a psicóloga PP3, a situação se deu de forma bem tranquila e o advogado compreendeu os motivos da sua recusa. Convém destacar o fato de que em ambas as situações foi o advogado que tomou a iniciativa para haver essa participação, o que não é surpreendente, tendo em vista que ele segue o que está previsto em lei. Na verdade, o que chamou a atenção foi ou o desconhecimento por parte dessas assistentes técnicas sobre a proibição estabelecida pela resolução CFP nº 08/2010, ou pior, uma possível subordinação aos advogados com a interferência no seu trabalho. Vale salientar também que algumas assistentes técnicas entrevistadas demonstraram desconhecer esse impedimento imposto pela resolução.
O CFP (2019a),Caires (2003) e Rovinski (2020) argumentam que o CPC regulamenta o procedimento pericial de forma ampla, ou seja, não há uma diferenciação dos campos específicos do conhecimento, como é o caso da psicologia em que a presença do assistente técnico pode interferir nos resultados da perícia. Essa perturbação seria mais prejudicial na aplicação de testes psicológicos (ROVINSKI, 2020). Cabe então às autoras desta dissertação exemplificar as diversas formas de interferência mencionada pela literatura e pelo conselho. Algumas destas situações já foram até mesmo ilustradas pelas peritas entrevistadas: possível comprometimento do rapport; possível comunicação verbal e não-verbal com o cliente; intimidação da parte adversária perante o assistente; aumento do constrangimento em expor assuntos privados a mais uma pessoa; e limitação da aplicação de alguns instrumentos (testes e observação comportamental) diante desta situação. Vale salientar que essa interferência não se limita ao comportamento e discurso da parte ou da criança e adolescente, mas também ao trabalho do perito: o estresse de ter o seu trabalho sendo avaliado durante a execução; a vigilância da figura do assistente; a preocupação em administrar os efeitos da presença deste profissional; e a possibilidade de uma interferência direta na atividade pericial. Defendemos que tudo isso reduz o nível de atenção do profissional em relação ao sujeito e à condução da avaliação.
De acordo com Pérez (2002), quando há conflitos entre determinações legais e procedimentos éticos, o profissional deve informar as autoridades legais sobre este impasse e
tomar as medidas razoáveis para resolvê-lo (consulta a outros colegas, a conselhos professionais, à assessoria jurídica e o contato com os responsáveis legais envolvidos). Visando contornar este impasse, Rabelo e Silva (2017), psicólogas peritas da Justiça do Trabalho da 3ª região, a princípio, realizam uma entrevista exclusiva com as partes, a fim de garantir uma escuta adequada e sem constrangimentos. Posteriormente, elas fazem uma “audiência pericial”, termo criado pelas profissionais para nomear o segundo momento da perícia, o qual contará com a participação dos assistentes técnicos a fim de realizar seus questionamentos. Para as referidas autoras, esta é uma forma de garantir a ampla defesa e o contraditório, promover uma comunicação respeitosa entre as partes e verificar a presença de contradições nas afirmações em relação à entrevista anterior. Rovinski (2013) argumenta que é preciso pensar em alternativas para atender ambos os lados, tais como o perito fornecer ao assistente técnico uma gravação em áudio ou vídeo da entrevista realizada com a criança ou os protocolos e dados obtidos nos testes psicológicos. Uma das peritas entrevistadas, inclusive, relatou um procedimento semelhante que ela achou bastante interessante e era adotado por um psicólogo perito que ministrou um curso do qual ela participou:
Tipo, ele é o perito do tribunal de justiça, aí recebe um processo, tem assistente técnico, o assistente técnico liga pra ele, eles fazem uma reunião sobre o caso e discutem o caso, aí depois eles iniciam as avaliações. Nossa, eu achei isso fantástico, porque eu acho que é isso que deve acontecer. (PP1)
Esta questão foi alvo de deliberações no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). A Corregedoria Geral de Justiça do estado do Rio de Janeiro determinou no Aviso CGJ nº 1247/2016, o qual dispõe sobre a vedação de determinadas atuações do Analista Judiciário na especialidade de Psicólogo junto ao TJRJ, a proibição do assistente técnico nos atendimentos realizados pelo psicólogo do Poder Judiciário deste estado. Neste mesmo caminho, a Corregedoria Geral de Justiça do estado de São Paulo decidiu alterar as normas de serviço do TJSP, proibindo a presença do assistente técnico no provimento CG nº 12/2017.
AVISA aos Senhores Juízes de Direito, Chefes de Serventia, Responsáveis pelas Equipes Técnicas Interdisciplinares e seus demais integrantes:
[...]
4. É vedada a participação do assistente técnico da parte nos atendimentos realizados pelo Psicólogo do PJERJ, conforme previsto na Resolução CFP nº 08/2010 e suas atualizações (PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 2016, p. 26).
O acompanhamento das diligências mencionado no §2º do art. 466 do Código de Processo Civil não inclui a efetiva presença do assistente técnico durante as entrevistas dos psicólogos e assistentes sociais com as partes, crianças e adolescentes. Contudo, havendo interesse do assistente técnico, a ser informado nos autos, os psicólogos e assistentes sociais do Poder Judiciário deverão agendar reunião prévia e/ou posterior às avaliações, expondo a metodologia utilizada e oportunizando a discussão do caso (PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2017, p. 26).
Esta discussão tem sido levada aos tribunais superiores e formando uma jurisprudência favorável à presença dos assistentes técnicos nos procedimentos periciais. A justificativa tem sido o elevado nível de subjetividade e a complexidade e gravidade do processo, tais como acusações de abuso sexual (SILVA, 2016). Ainda assim, como salienta Araújo (2019), o assistente técnico só pode estar presente quando existir uma ordem judicial. Por ocupar uma posição de poder legitimada pelo sistema jurídico, é fundamental que o perito reflita sobre a função do assistente técnico e pense em formas de acolher o seu trabalho quando estiver presente no processo (GROENINGA, 2010).