4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.2 PRESENÇA E DIVERSIDADE DAS FRUTÍFERAS NATIVAS
A partir da presença de espécies nativas nas propriedades visitadas, bem como do registro das coordenadas geográficas, foi possível gerar um mapa com a distribuição espacial das propriedades que possuíam ao menos uma espécie de fruteira nativa (Figura 6). No mapa, são observados 92 pontos de localização, isso porque em duas das propriedades visitadas, nenhuma espécie de fruteira nativa foi identificada.
Figura 6: Distribuição espacial das 92 propriedades visitadas com pelo menos uma espécie de fruteira nativa. Foz do Iguaçu, 2020.
Fonte: Autor, 2020.
Ao todo, foram identificadas 81 espécies de fruteiras nativas, distribuídas entre 24 famílas botânicas (APÊNDICE IV).
A fim de se ter uma ideia da diversidade de fruteiras nativas nas propriedades de agricultura familiar visitadas, foi gerado um gráico de distribuição de frequência das propriedades de acordo com o número de espécies identificadas (Figura 7). Observou- se que cinco propriedades (5,3% das 94 visitadas) apresentaram as maiores diversidades (de 21 a 24 espécies). As menores diversidades, foram observadas em 16 propriedades (17%), nas quais foram identificadas de 0 a 4 espécies. As propriedades em que foram registradas de 5 a 8 espécies foram as mais frequentes (30,9%), seguida daquelas que tinham entre 9 a 12 espécies fruteiras nativas (27,7%).
Dentre os fatores que podem explicar o grande número de espécies em alguns locais, destacam-se a presença de Sistemas Agroflorestais (SAF’s), reservas legais e próximidades à Área de Preservação Permanente (APP’s). Conforme relatos de alguns produtores, a diversidade pode estar ligada a elementos históricos dos lugares. Lima (2018) ressalta que a presença das matas é imprecindível para a atuação da
fauna (pássaros, macacos, insetos), uma das responsáveis pela propagação das frutíferas nativas e preservação da diversidade. As baixas frequências de espécies nativas podem estar relacionadas ao desinteresse e desinformação por parte dos agricultores acerca dos benefícios do cultivo dessas frutas.
Figura 7 Frequência relativa (%) do número de propriedades rurais em função das diversidades de espécies de fruteiras nativas, encontradas em 92 propriedades de agricultura familiar, localizadas ao longo de 26 municípios da Bacia Hidrográfica Paraná 3. Foz do Iguaçu, 2020.
Fonte: Autor, 2020.
Após o levantamento de fruteiras nativas presentes nas propriedades, as espécies foram agrupadas de acordo com a família botânica a que pertencem (Figura 8). A família botânica mais representada nos locais visitados foi a Myrtaceae, que totalizou 31 espécies identificadas (38%), seguida das famílias Arecaceae (Palmae), Annonaceae e Fabaceae-Mimosoideae, com 11%, 8% e 6% das espécies, respectivamente; Anacardiaceae, Bromeliaceae e Solanaceae, com 4% das espécies cada uma, além de outras 17 famílias botânicas, representadas por 1 ou 2 espécies cada, e que juntas somam a importância de 25% do total de espécies identificadas.
A significância das Mirtáceas é bastante comum, principalmente no bioma mata atlântica e seu valor não se dá somente pela diversidade mas também pela importância econômica (Giaretta et al., 2016). Em alguns fragmentos de mata atlântica do nordeste oriental estudados por Machado et al. (2012) foi possível verificar, que a família mais númerosa tratou-se justamente da Myrtaceae. Em outro estudo abrangendo frgamentos de floresta estacional semidecidual em Minas Gerais, as
0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 0 - 4 5 - 8 9 - 12 13 - 16 17 - 20 21 - 24 F re q u ê n ci a R e la ti v a (%)
famílias com maiores representatividades foram a Fabaceae, Rubiaceae e Myrtaceae (ABREU, 2017). A maioria das pesquisas já realizadas no bioma mata atlântica demonstraram a presença dessas mesmas famílias, mesmo que, em diferentes ordens de relevância (OLIVEIRA FILHO E FONTES, 2000). A família Myrtaceae representa de 10-15% do total de espécies arbóreas nas florestas úmidas e no Cerrado do Leste brasileiro (LUCAS et al., 2007).
O elevado número de espécies pertencentes à família Myrtaceae já era um resultado esperado no início do trabalho, uma vez que são vários os trabalhos que comprovam a magnitude da presença dessas espécies.
Figura 8:Distribuição de frequências relativas (%) das famílias botânicas em função da abrangência de espécies nativas, encontradas em 92 propriedades de agricultura familiar, localizadas ao longo de 26 municípios da Bacia Hidrográfica Paraná 3. Foz do Iguaçu, 2020.3. Foz do Iguaçu, 2020.
Fonte: Autor, 2020.
Devido ao elevado número de espécies identificadas, e buscando relacionar conhecimentos básicos dos agricultores sobre essas espécies, utilizou-se como critério, enumerar as espécies mais frequentes, afim de proceder uma descrição mais detalhada. Para tanto, utilizou-se como critério, as espécies que foram encontradas em pelo menos 25% das propriedades que tinham pelo menos uma fruteira nativa (total de 92 das 94 propriedades). As mais frequentes (14 das 81 espécies) foram: o Maracuja-doce, o Sete-capotes, a Jabuticaba (Plinia Jaboticaba), o Abacaxi, o Araçá- amarelo, o Ingá-branco, o Butiá, o Jerivá, a Cereja-do-mato, a Uvaia, o Ariticum, a Jabuticaba (Plinia Cauliflora), a Guabiroba e a Pitanga (Figuras 9 e 10).
Dessas principais espécies (Figura 9), foi possível verificar que as frutas presentes na maioria das propriedades são da família das Mirtáceas, como a Pitanga (Figura 10-A) em 79%, seguido da Guabiroba (Figura 10-B) em 69%, e da Jabuticabeira (Plinia cauliflora) (Figura 10-C) em 63%.
A elevada frequência da pintagueira é explicada por sua adaptação às diversas
condições edafoclimáticas, sendo uma fruteira bastante popular no Brasil (Silva et al., 2019). Em um estudo realizado em estabelecimentos rurais do município de Campo Bonito-PR, foram observados resultados semelhantes, mostrando que as frutas guabiroba, pitanga, araça, butiá, ariticum, sete capotes, uvaia, cereja-do-mato e jabuticaba são as mais frequentemente encontradas (Pereira, 2017).
Vale salientar que, no início deste estudo, esperava-se que a fruteira mais frequente seria a jaboticabeira, e de fato, se considerarmos apenas o nome comum e o conhecimento popular, a jaboticabeira foi encontrada em 100% das propriedades que tinham pelo menos uma fruteira nativa. No entanto, este trabalho se restringiu à descrição da frequência das espécies de acordo com a classificação botânica, o que levou à identificação de duas espécies de jaboticabeira entre as mais frequentes:
Plinia cauliflora (Figura 10-C) e Plinia jaboticaba (Figura 10-F).
Figura 9: Frequência relativa (%) das fruteiras nativas mais encontradas em propriedades de agricultura familiar, localizadas na Bacia Hidrográfica Paraná 3. As barras verticais indicam a porcentagem de propriedades, de um total de 92 visitadas, em que foram identificadas pelo menos uma planta por espécie. Foz do Iguaçu, 2020.
* Plinia cauliflora ** Plinia jaboticaba Fonte: Autor, 2020. 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 F re q u ê n ci a R e la ti v a (% )
As espécies menos frequentes, foram o Maracujazeiro-doce (Figuras 9 e 10-N) e o Sete-capotes (Figuras 9 e 10-M) presentes em 25% das propriedades que tinham pelo menos uma fruteira. Essas plantas eram visíveis apenas em locais próximos às matas.
Fonte: Autor, 2020.
Figura 10: Espécies de frutas nativas mais frequentes em 92 propriedades de agricultura familiar, localizadas ao longo de 26 municípios da Bacia Hidrográfica Paraná 3. A - Pitanga (Eugenia uniflora); B - Guabiroba
(Campomanesia xanthocarpa); C - Jaboticaba (Plinia cauliflora); D - Ariticum (Annona sylvatica); E - Uvaia (Eugenia pyriformis); F - Jaboticaba (Plinia jaboticaba); G - Jerivá (Syagrus romanzoffiana); H – Butiá (Butia eriospatha); I – Ingá-branco (Inga laurina); J – Araçá-amarelo (Psidium cattleianum); K – Abacaxi (Anannas comosus); L – Cereja-do-mato (Eugenia involucrata); M – Sete-capotes (Campomanesia); N – Maracujá-doce (Passiflora alata). Foz do Iguaçu, 2020