A artroplastia da anca é considerada actualmente uma cirurgia ortopédica com excelentes resultados clínicos e elevadas taxas de sucesso. Durante as últimas 4 décadas, a investigação e desenvolvimento nesta área ocupou-se essencialmente na obtenção de taxas de sucesso
elevadas a longo prazo, considerando que o alívio de dor era substancial quando comparado com os estados de sofrimento antes da artroplastia.
No entanto, outras questões se colocam na validação dos resultados clínicos, nomeadamente aquelas que se relacionam com a idade, sexo, peso, nível de actividade física do paciente, assim como a análise das taxas de incidência das doenças que estão na base da necessidade da realização da artroplastia, tendo como base as diferenças existentes entre os vários grupos étnicos e origens geográficas distintas.
Presentemente, na artroplastia da anca é mais frequente a utilização de hastes femorais cimentadas, nomeadamente nos Estados Unidos da América, apesar do aumento registado nas implantações de hastes não cimentadas (Mendenhall, 1999). A popularidade da haste cimentada deve-se essencialmente a factores como o seu mais baixo custo e às excelentes taxas de sucesso registadas por algumas das próteses mais antigas, como a Charnley e a Stanmore,
comparativamente com o surgimento dos problemas registados com a utilizada da primeira geração de hastes não cimentadas.
Com a segunda e terceira gerações de hastes não cimentadas, foi possível melhorar a sua fixação através dos desenvolvimentos verificados ao nível da geometria e superfície, que potenciaram a osteointegração. Presentemente são relativamente raros os casos de laxação de hastes não cimentadas antes de 10 anos (Tankersley et al., 1996).
Os materiais usados actualmente no fabrico de implantes têm apresentado um comportamento adequado para a produção da forma e acabamento superficial. Mas o desgaste e as partículas libertadas por este limitam a durabilidade dos implantes e afectam a fixação de longo prazo. A falha da interface biológica entre o implante e o osso é reconhecidamente um dos factores que mais contribuem para a laxação da prótese. As investigações actuais permitem-nos conhecer os indícios sobre o funcionamento dos mecanismos celulares associados à osteolise, as reacções imunológicas ou inflamatórias do organismo e as respostas de comportamento do osso face às
A aplicação de próteses em pacientes jovens, considerando as actuais taxas de sucesso, pode implicar a necessidade de realização de mais do que uma artroplastia de revisão. Estas, com a redução e degradação da massa óssea, tendem a apresentar prazos de sobrevida cada vez menores, acentuando-se também as dificuldades de realização das artroplastias seguintes. Os desafios do futuro da artroplastia da anca são enormes porque estes passarão, não só por encontrar soluções para os problemas actuais, como se confrontarão com os problemas que decorrem das próprias alterações dos hábitos comportamentais. São cada vez mais os pacientes que exigem a eliminação quase completa da dor assim como a rápida recuperação da sua ocupação profissional e até mesmo das suas actividades desportivas. Para determinado grupo de pacientes como desportistas e que exercem actividades consideradas de risco existe o objectivo de garantir uma grande amplitude movimentos e um baixo risco de luxação do implante.
O futuro da artroplastia da anca deverá continuar a passar pelo desenvolvimento de novos materiais, pelo projecto das próteses, melhoria das técnicas cirúrgicas e prevenção de complicações pré e pós operatórias (Siopack e Jergesen, 1995).
O projecto de desenvolvimento de próteses deverá contemplar a utilização de novos materiais que, para além da sua comprovada biocompatibilidade, deverão apresentar melhores propriedades físicas. Devem apresentar comportamentos idênticos ao osso e produzirem um menor desgaste, eliminando as partículas de desgaste indutoras da osteolise. Deverão ainda permitir uma melhor integração com o osso, através da optimização das geometrias e características desta, de modo a aumentar o crescimento ósseo, promovendo assim a osteointegração e a consequente melhoria da fixação primária e a longo prazo.
Os desenvolvimentos registados no fabrico de próteses por medida devem ser outro dos factores a considerar, cujo objectivo de produzir um ajustamento perfeito entre o implante e o osso deverá permitir melhorar o desconforto pós-operatório e a taxa de sucesso de médio e longo prazo. O preço final é talvez a maior limitação apontada nesta solução, sendo de crer que os continuados desenvolvimentos tecnológicos deverão permitir reduzir esses mesmos custos (Yates et al., 2006). A redução, ou pelo menos a limitação, do crescimento dos custos da artroplastia deverá ocorrer não só pela redução dos custos dos implantes mas também pela redução dos custos hospitalares através da diminuição dos tempos de internamento (Siopack e Jergesen, 1995; Fitzpatrick et al., 1998; Baxter e Bevan, 1999).
A cirurgia assistida por robot é uma área que actualmente tem registado alguns desenvolvimentos, nomeadamente no que se refere à preparação do canal femoral. Estudos revelam que a utilização de sistemas robotizados na abertura do canal femoral permite obter um maior rigor geométrico e maior precisão dimensional comparativamente com a realização dos mesmos manualmente, aspectos estes extremamente relevantes para garantir um melhor contacto entre a superfície do
osso e a da prótese e consequentemente proporcionar uma melhor fixação da mesma,
particularmente no caso de utilização de próteses não cimentadas (Paul et al., 1992; Thomsen et al., 2002; Nogler et al., 2004; Wu et al., 2004). Apesar dos escassos resultados disponíveis, é de crer que no futuro a utilização deste tipo de sistemas possa vir a aumentar face ao aumento das vantagens funcionais que venham a ser demonstradas e diminuição dos custos operacionais. Phillip Nelson em “The Future of Hip Joint Replacement” (1991) propõe que num cenário distante que a substituição de uma articulação como a da anca poderá não necessitar de cirúrgica. A cartilagem cujo processo de destruição não tenha sido evitado através da prevenção ou da
profilaxia, poderá ser reconstruída recorrendo à injecção de células vivas ou através da injecção in situ de um material artificial capaz de revestir as superfícies da articulação danificada. Sejamos nós capazes de transformar em realidade aquilo que um dia outros sonharam como solução.