2.5 PRESSUPOSTOS DO DIREITO FRATERNO
2.5.3 Presente na forma dos direitos humanos
Alinhado ao esvanecimento dessa obsessão identitária, o direito constitucional tem de estar fundamentado na obrigatoriedade universal de respeito aos direitos humanos. A proteção não deve ser desta ou daquela cultura ou raça, ou religião, ou etnia; mas tão somente porque
155 RESTA, Elígio. O direito fraterno.(trad. Sandra Vial). Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004, p. 134-135. 156 TOSI, Op Cit, p. 47.
157 Ibidem, p. 48.
158 VIAL, Sandra Regina Martini.O pressuposto da fraternidade como condição para a efetivação do direito à
saúde. In: Direito Sanitário: Saúde e Direito, um Diálogo Possível. Fernando Aith, Luciana Tarbes Mattana Saturnino, Maria Gabriela Araújo Diniz, Tammy Claret Monteiro (organizadores). Belo Horizonte: ESP-MG, 2010.
159 HÄBERLE, Peter. Estado Constitucional Cooperativo. Trad. Marcos Augusto Maliska e Elisete Antoniuk.
Rio de Janeiro: Renovar, 2007, p. 71.
160 ROPELATO, Daniela. A fraternidade no ordenamento jurídico italiano. In: BAGGIO, Antônio Maria (Org.).
O princípio esquecido/1: Notas sobre participação e fraternidade. Vargem Grande Paulista, SP: Cidade Nova,
tem humanidade. “(...) uma humanidade repleta de diferenças compartilhadas e de uma comunhão de juramentos, de comprometimentos e de responsabilidades.”161
Estes se destinam a todo e qualquer ser humano, não porque ele pertença a um ou outro território, siga esta ou aquela cultura ou, ainda, tenha uma descendência determinada, mas tão somente porque tem humanidade. É um direito que tem como fundamento a humanidade, o “ter humanidade”, uma humanidade repleta de diferenças compartilhadas e de uma comunhão de juramentos, de comprometimentos, de responsabilidades.162
Os Direitos Humanos formam arcabouço de direitos indispensáveis à vida humana centrada na igualdade, na liberdade, na fraternidade e na dignidade. Não existe rol prefixado exaustivamente de Direitos Humanos, e nem haveria de ter, pois as necessidades humanas variam de acordo com o contexto histórico de cada época novas demandas são traduzidas para o mundo jurídico, sendo incorporadas ao rol numerus apertus dos Direitos Humanos.
Os Direitos Humanos têm estrutura variada e podem ser classificados como direito- pretensão, direito-liberdade, direito-poder e direito-imunidade; todos acarretam obrigações do Estado ou de particulares “revestidas, respectivamente, na forma de dever, ausência de direitos, sujeição e incompetência”.163A necessidade de proteção aos Direitos Humanos, após as atrocidades cometidas das duas guerras mundiais, que culminou na produção da Carta da ONU164 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
[...] após três lustros de massacres e atrocidades de toda sorte, iniciados com o fortalecimento do totalitarismo estatal nos anos 30, a humanidade compreendeu, mais do que em qualquer outra época da história, o valor supremo da dignidade humana. O sofrimento como matriz da compreensão do mundo e dos homens, segundo a lição luminosa da sabedoria grega, veio a aprofundar a afirmação histórica dos Direitos Humanos.165
Segundo Bobbio, com a declaração de 1948, a afirmação de direitos é, ao mesmo tempo, universal no sentido de que os destinatários dos seus princípios não são apenas cidadãos daquele ou deste Estado, senão todos os homens; e também é positiva , porque põe
161 MARTINI VIAL, Sandra Regina .O pressuposto da fraternidade como condição para a efetivação do direito à
saúde. In: Direito Sanitário: Saúde e Direito, um Diálogo Possível. Fernando Aith, Luciana Tarbes Mattana Saturnino, Maria Gabriela Araújo Diniz, Tammy Claret Monteiro (organizadores). Belo Horizonte : ESP-MG, 2010, p. 116.
162 MARTINI VIAL, Idem, 2006, p. 116
163 RAMOS,André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 2ª Ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2015, p.
27.
164 Destaca-se o art. 55, alínea “c” que diz que a ONU deve favorecer “o respeito universal e efetivo de Direitos
Humanos e das liberdade fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua, ou religião.”
165 COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. 4. ed., rev. e atual. São
em movimento um processo em que os direitos do homem não sejam apenas formalmente proclamados, senão protegidos até mesmo contra o próprio Estado.166
Para Flávia Piovesan é preciso considerar que todos os Direitos Humanos constituem complexo integral, único e indivisível, em que direitos de diferentes ordens estão necessariamente interrelacionados e interdependentes entre si167. Por tal razão, faz-se importante conferir a maior proteção possível para este todo indivisível.
A Defensoria Pública, no Brasil está constitucionalmente destinada à proteção dos Direitos Humanos. A EC 80/14 que deu nova redação ao artigo 134 da CF/88 consolidou, dentre outras coisas, que a instituição é expressão e instrumento do Regime Democrático, incumbindo-lhe a proteção dos Direitos Humanos.
O art. 5, parágrafo 3, da CRFB/88, incluído pela EC 45/04, determinou que os tratados e convenções internacionais sobre Direitos Humanos que forem aprovados, em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. Nesse passo, o Brasil, como signatário de diversos tratados internacionais, tem o dever de respeitá-los e fazer cumpri-los. Não por outra razão, as disposições normativas como resoluções também tem força cogente para sua aplicação.168
Neste sentido, levando-se em conta que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito que confere os fundamentos da soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político; o artigo 134 da Cf. deve ser lido e aplicado em cotejo com os fundamentos da República brasileira. Por fim, não se pode esquecer que o Brasil rege-se em suas relações internacionais dando prevalência aos direitos humanos, nos termos do art. 4 da CRFB/88.
Outro dispositivo que demonstra a preocupação com a característica de proteção dos direitos humanos fruto do Direito Fraterno é o art. 109, § 5º que afirma que nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça,
166 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 2004, p. 30.
167PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o direito constitucional internacional. 7. ed., rev., ampl. e atual.
São Paulo: Saraiva, 2006, p. 136.
168 A resolução 2656, da OEA, aprovada de 2011, referenda a importância do papel Defensores Públicos oficiais.
É possível dizer, portanto, que é mais do que mero indicativo, senão imperativo para os fins aos quais se propõe o Estado brasileiro. Inclusive, pelo que, o acesso à justiça também é considerado direito humano fundamental meio que possibilita restabelecer o exercício dos direitos que tenham sido ignorados ou violados.168
em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.