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Ampliação e o aperfeiçoamento dos mecanismos e dos espaços participativos dependem, necessariamente, de vários atributos para que a efetiva participação não passe de uma pseudo-participação, sendo alguns deles examinados, agora, neste tópico.

O primeiro pressuposto é que a participação somente é consciente quando os envolvidos possuem a compreensão sobre o processo que está vivenciando. Isto implica em outras palavras que o processo de participação requer dos envolvidos consciência11 sobre os atos, ou seja, estes precisam ter a consciência das implicações

das suas ações. A partir do momento em que se observam indivíduos agirem sem o entendimento das razões e conseqüências de seus atos, temos uma participação restrita, estabelecida em função de alguma relação de dominação onde, a partir de algum tipo de poder persuasivo, determinado grupo impõe aos demais as decisões a serem seguidas.

Nestas circunstâncias, a falta de senso crítico das pessoas faz com que a participação pareça um simples adestramento. Somente a participação consciente possibilita o reconhecimento crítico das relações de interesse e poder que, ocultas ou manifestas, tentam se desenrolar associadas ao processo participativo. A compreensão das motivações que inspiram o comportamento de pessoas é de extrema importância para inibir o desvirtuamento do ímpeto participativo, evitando a sua transformação em mobilização manobrada e desviada na direção de interesses egoístas.

11 Para (Souza, 1987, p. 87), “a consciência é a visão de mundo do homem sobre as coisas. Já a conscientização é o processo de elaboração desta visão na qual se fazem presentes os homens, as coisas e o próprio mundo”.

Neste contexto, como muito bem lembra Dallari (1999, p. 51), “entre as mais eficientes formas de participação política estão os trabalhos de conscientização e organização”.

Uma outra característica está no valor da participação conquistada. Para Demo (1991), quando a participação é concedida, sem que qualquer empenho tenha sido feito nesta direção, dificilmente verifica-se um processo de internalização e de absorção deste direito por parte dos indivíduos. A tendência, a menos que uma ação educativa e conscientizadora tenham lugar, é o seu esvaziamento ou, o que é pior, a sua apropriação por parte de alguns poucos que passam a fazer política pessoal e a manipulação do poder. Nestas condições, da mesma forma como foi concedida, a participação pode ser retirada. Por outro lado, quando a participação é resultante da organização e da mobilização coletiva, sua prática tende a ser menos suscetível a ações que invistam a favor de seu enfraquecimento e cerceamento.

Para tanto, a participação não deve ser imposta e nem aceita como donativo, devendo ser resultado de uma conquista gradual assim como da consciência de que o ato de participar é importante. Com efeito, concordamos com o entendimento do autor ao definir a participação como processo de conquista e construção organizada da emancipação social. Nesta lógica entende-se que quanto maior o envolvimento de um cidadão num processo participativo, mais consistente tende a ser sua idéia acerca da participação. Ao mesmo tempo, essa idéia tenderá, digamos, a ser o retrato do exercício participativo que os indivíduos realizam em algum processo decisório, um bom exemplo desse fato é a participação popular no processo de construção da Agenda 21 Local, fonte de nosso estudo, uma experiência cada vez mais inovadora no Brasil e no mundo.

Outro pressuposto a ser considerado é o aspecto da voluntariedade (a não obrigatoriedade) que legitima a participação. Seria contraditório reivindicar a obrigatoriedade para um processo que se deseja consciente e gerador de indivíduos mais comprometido com mudanças. O envolvimento direto e sem a intermediação

por terceiros do indivíduo com os seus problemas e com a busca de soluções não pode se dar por imposição ou qualquer tipo de coação. A falta de uma cultura política de participação e a realidade marcada pela luta diária pela sobrevivência atua, muitas vezes, como agentes refreadores do engajamento pessoal das pessoas na coisa pública. Por outro lado, a mobilização depende de se acreditar que soluções possam nascer do envolvimento do próprio indivíduo, a partir da criatividade, do companheirismo e do inconformismo com certa realidade que se quer transformar.

Jacobi (1991) apresenta duas condições fundamentais para a viabilização da efetiva participação popular. A primeira é a existência de organizações populares com alguma presença em nível local e a segunda é a ocupação de cargos públicos do município por parte de partidos ou indivíduos favoráveis à mesma. O objetivo é viabilizar o contato entre os cidadãos e as instituições públicas, de modo que estas levem em consideração os interesses e as concepções político-sociais daqueles no processo decisório, rompendo dessa forma com as práticas clientelistas, autoritária ou populista que de certa forma ainda marcam a máquina administrativa.

Outro pressuposto fundamental para o bom desempenho do processo participativo é a informação, isto é, deve-se garantir o acesso do cidadão à informação, pois ele tem de estar bem informado para garantir sua participação real. Para que isso ocorra é necessário que os canais de participação estejam em uma permanente interação entre o Estado e a sociedade, gerando dessa forma, informações para todos os habitantes do município (DOWBOR, 1996; JACOBI, 1991). Ainda ressalta Jacobi (1991, p. 34) que “o papel da democratização das informações representa a possibilidade de gerar um processo de participação popular independente, não sujeito nem a manipulação, nem a interferência do Poder Público”.

Nesta perspectiva, a democratização da informação implica, portanto, educar para cidadania. A informação é crucial à formação de indivíduos críticos, íntegros, conscientes de sua responsabilidade enquanto sujeitos de sua própria história. Daí

faz-se importante a educação12 para cidadania como “meio de transformar a

capacidade de engajamento sócio político dos atores relevantes e como possibilidade de motivar e incentivar as diversas formas de participação em potenciais fatores de dinamização da sociedade e da ampliação do controle social da coisa pública” (JACOBI, 1997, p. 02). Quer dizer, “a educação política significa a educação para a participação”, afirma Benevides (1994, p.19).

Há de se ressaltar que uma das questões mais importante, e um dos desafios do processo de participação na coisa pública, é a garantia de acesso pleno dos cidadãos à informação. A informação, por sua vez, é a base para se viabilizar a participação efetiva e é indispensável desde o inicio do processo administrativo, já que torna transparente a interação pretendida entre governos federal, estadual e municipal e sociedade civil.

O acesso à informação pode potencializar, ainda, a interação pretendida nos processos participativos. É apenas por meio dos fluxos de informações que se possibilita o diálogo, a interpretação dos problemas, limitações e demandas das partes envolvidas no processo. Além disso, um sistema permanente de informações, que faça uso de todos os meios disponíveis, tem o objetivo de sensibilizar e motivar os indivíduos, que passam a cooperar, desenvolvendo práticas inovadoras e soluções objetivas de atuação conjunta potencializando via comunicação e diálogo o processo decisório.

É igualmente importante nos diferentes estudiosos a percepção de que a informação torna-se, evidentemente, um pressuposto crucial do processo participativo e democrático. Um processo dito participativo e democrático sem informação não passa de mera demagogia, já que é possivelmente fácil enganar um povo, se este não tem discernimento suficiente para decidir e deliberar sobre o que é melhor para a coletividade. O fato de todos participarem das tomadas de decisões públicas não

12 Cabe, aqui, lembrarmos que a educação não constitui a cidadania. Ela, por sua vez, dissemina os instrumentos básicos para o exercício da cidadania. Para que os cidadãos possam atuar ativamente nos processos participativos.

significa que estas sejam automaticamente as melhores. É preciso refletir sobre os parâmetros segundo os quais os cidadãos poderão tomar decisões acertadas.

Para além desses pressupostos, há que se compreender que em muitas situações o desejo de tomar e fazer parte do processo participativo deve está, predominantemente, ligado à necessidade de motivação. Pois do contrário, e, mesmo em ambientes sem constrangimentos legais e democráticos, o sentimento é o da apatia e do afastamento.

Nesta direção, é igualmente importante ressaltar os problemas relacionados à participação popular em três níveis de dificuldades, conforme reflexão de Moreira Neto (apud, MODESTO, 2005, p, 04):

• Apatia política – a falta de estímulo para ação cidadã. Trata-se diretamente

da falta de informação sobre os direitos e deveres de cidadania; a falta de vias de comunicação direta do cidadão frente ao aparato do Estado [...]

• Abulia política – não querer participar da ação cidadã. Está relacionado com o ceticismo quanto à manifestação do cidadão efetivamente ser levada em consideração pela administração pública, bem como pela falta de reconhecimento e estima coletiva para atividades de participação cidadã;

• Acracia política – não poder participar da ação política. Diz respeito diretamente ao baixo grau de escolarização dos requerentes; ao formalismo administrativo e a ausência da prática de conversão de solicitações orais em solicitações formalizadas, a falta de esclarecimento dos direitos e deveres das partes nos processos administrativos [...].

A propósito, recorrendo a Teoria da Motivação preconizada por Maslow (apud BERGAMINI, 1987, p. 117), uma pessoa estará motivada à proporção que algum estímulo ou motivo, seja ele interno ou externo a si próprio, lhe desperte o interesse à busca de satisfação de determinadas necessidades intrínsecas a ela. Para tal, certa força interior precisa ser capaz de energizá-la e levá-la a uma ação ou atitude relacionada àquele motivo, em busca de sua satisfação, ou seja, mobilizada para um dado objeto ou objetivo, mensurável ou não. Segundo ele, o ser humano é movido

pela busca de satisfação das necessidades: 1) fisiológicas; 2) de segurança; 3) de participação; 4) de amor; 5) de consideração e 6) de auto-realização.

Logo, podemos apreender que motivação é sinônimo de interesse ou estímulo por algo, denota sentimento e graus relativos de consciência por alguma coisa. Ao mesmo tempo, uma pessoa ou grupo social estará motivado à medida que estiver motivado para determinado objetivo. Assim, em processo participativo há que se ter motivação para que haja uma participação efetiva do indivíduo, o que inegavelmente torna-se uma condição básica para tal processo. Em outras palavras, participação sem motivação pode constituir-se em envolvimento “frio”, sem tônus suficiente para conferir-lhe um comprometimento efetivo e ativo com o processo.