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PRESSUPOSTOS

No documento Cora Coralina (páginas 28-33)

• As relações interpessoais como encontro intersubjetivo que se processam na efetivação do cuidado em ambiente tecnológico hospitalar colocam em cena peculiaridades do universo afetivo, cultural e social dos sujeitos envolvidos;

• As relações interpessoais estabelecidas no encontro dos profissionais com a criança e família auxiliam no equilíbrio do cuidado, aliando a técnica e a dimensão humana em ambiente tecnológico hospitalar;

• A atitude dialógica, as relações interpessoais, a proximidade e o convívio entre os membros que compõem a equipe de saúde no cuidado à criança, fortalecem as ações de cuidado afetivas, solidárias e humanas;

• As relações interpessoais no cuidar em um ambiente tecnológico hospitalar requerem envolvimento das pessoas em uma relação dialógica de trocar e compartilhar, em um movimento de mão dupla de dar e receber, para tornar possível a prática de cuidar humanística.

3. EXPLICITANDO MINHA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Minha história de cuidado à criança iniciou-se muito cedo. Como filha mais velha, foi na adolescência que desenvolvi os primeiros atos de cuidado a um irmão e uma irmã, que na época tinham sete e dois anos. Minha mãe trabalhava e tínhamos sempre alguma pessoa que “cuidava” de todos nós, mas ainda assim sempre me senti responsável pelos meus irmãos e os cuidados básicos como trocar fralda, encaminhar para o banho, alimentação era eu quem os realizava. Alguns anos mais tarde, com a mudança de toda família para os Estados Unidos, passamos a viver uma nova realidade cultural e social. Ficava na escola até as três horas da tarde e logo após, como qualquer outro estudante da minha idade, trabalhava. Era baby-sitter de três irmãos. Fui babá então durante os quatro anos do high school e, com essa nova realidade, senti a necessidade de estudar um pouco sobre as necessidades das crianças. Acredito que este tenha sido o momento mais importante para a minha vida profissional, pois desde então minhas leituras e estudos têm aprofundado meu conhecimento e tornado o meu cuidado à criança especializado.

A escolha pela enfermagem foi decidida em 1993, ano que desenvolvi atividades como membro do serviço de voluntariado do Hospital de Clínicas da UFPR. Nesse período, pude observar muitas vezes enfermeiras cuidando de seus pacientes e já, naquela época, percebia que existia algo diferente naquelas relações de cuidado. Fazer enfermagem então, significou entender melhor o processo de

cuidar e assim, continuo trilhando o caminho de aprofundamento no tema. Durante minha trajetória enquanto acadêmica (1994 a 1997) despertei-me para uma outra inclinação: a pediatria. Foi então, que ainda como acadêmica do segundo ano do curso de Enfermagem tive a oportunidade de ser contratada como estagiária no Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) de um hospital pediátrico de grande porte de Curitiba, permanecendo até o final do curso. Neste serviço, eu acompanhava as enfermeiras e realizava tarefas que eram delegadas a mim.

Durante este período pude perceber como a presença das enfermeiras neste serviço e a forma como desempenhavam suas tarefas fazia diferença no cuidado à criança. Após a graduação, permaneci ainda um ano como enfermeira do SCIH desenvolvendo atividades de controle de infecção, principalmente na UTIP Cardíaca. Neste momento, fui despertando para uma nova paixão: a cardiologia pediátrica. As crianças em situações de risco de vida requerem muitos cuidados diretos da própria enfermeira e, ao observar muitas destas situações, senti que, apesar de gostar muito da área de controle de infecção hospitalar, as atividades mais burocráticas já não me preenchiam enquanto profissional, eu queria estar ali ao lado do paciente, cuidando diretamente dele. Alguns meses se passaram, enquanto me certificava desta decisão, quando surgiu uma vaga na UTIP Cardíaca. Fui transferida para esta unidade como enfermeira assistencial do turno da noite.

Neste ano, enquanto enfermeira assistencial tive a oportunidade de cursar duas especializações: Enfermagem Pediátrica, com ênfase em UTI e Controle de Infecção. Estes estudos trouxeram o aperfeiçoamento exigido pelo ambiente tecnológico hospitalar complexo, mas, ainda assim sentia que queria aprender mais.

Na verdade, sentia falta de um aprofundamento no estudo dos conceitos da

enfermagem. Dominava o aparato tecnológico, sabia realizar as técnicas, coordenava a equipe de enfermagem e a unidade, mas, sentia necessidade de ampliar e me instrumentalizar de forma mais complexa, para desenvolver o processo de cuidar.

Em 1998 fui indicada para a Chefia da UTIP Cardíaca. Com o aumento das funções e da responsabilidade constatei ao longo destes oito anos que muito do cotidiano do trabalho precisava ser mudado para que pudesse por em prática a sensibilidade que percebia dentro de mim e nas minhas ações relacionais. A minha experiência de cuidar em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica Cardíaca (UTIP Cardíaca) sempre foi conduzida pelo valor que atribuo às relações humanas. No entanto, no meu pequeno mundo de conhecimento, não entendia como poderia desenvolver um modelo de cuidar que conquistasse outros profissionais que atuam na mesma unidade, a ter a mesma valorização na intersubjetividade do cuidar.

Apenas reflexões a respeito já não causavam as mudanças necessárias e esta realidade, aos poucos foi tornando-se uma inquietação constante no meu cotidiano da prática de cuidado. Estas inquietações conduziram-me ao curso de Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná, o qual abriu inúmeros e novos horizontes ao conhecimento da enfermagem.

Neste momento vivido no curso de Mestrado, interessei-me pelos conceitos da Teoria Humanística de Paterson e Zderad, nos quais encontrei explicação para o meu próprio processo de cuidar no ambiente tecnológico hospitalar, pois sempre tive preocupação com as relações subjetivas do cuidar.

Juntamente com o estudo da teoria, aliou-se o entendimento da fenomenologia e

ficava fascinada, pois esta situação me inquietava e motivava a continuar me preparando para desvelar o fenômeno desse estudo.

Exatamente neste momento, recebi um convite para deixar a UTI e assumir a docência em uma instituição que pertence ao complexo hospitalar.

Primeiramente foram dias e noites pensando se aceitaria ou não. Depois, tomada a decisão de assumir a docência, foram mais inúmeros dias e noites preparando-me para deixar o local, no qual durante oito anos cuidei das crianças, das famílias, das equipes, das pessoas, do ambiente. Entendi que aliar a docência à minha experiência na prática de cuidado em UTI Pediátrica Cardíaca viria a contribuir de forma semelhante ou em uma dimensão maior, pois agora cuidava também de acadêmicos. Percebi que continuaria atuando nessa realidade, porém com um novo papel, de troca de saberes e fazeres, de compartilha para auxiliar no processo de ensino-aprendizagem de futuros profissionais de enfermagem.

Hoje, como docente na disciplina de Processo de Cuidar IV, especificamente com a Criança em Situações de Complexidade, posso reafirmar que meu caminhar direcionou-me a uma experiência profissional para a qual, mesmo sem ter tido entendimento consciente, (o qual somente adquiri agora) me preparei durante toda a minha trajetória no cuidado à criança e percebo ainda mais claramente como foi importante este estudo.

4. DESVELANDO O REFERENCIAL TEÓRICO

Neste momento, aproprio o leitor aos temas que norteiam este estudo.

Inicialmente, discorro sobre o ambiente tecnológico hospitalar, para este estudo a UTIP Cardíaca, e como nele acontece a prática do cuidado. Discorro sobre os conceitos da teoria humanística de Paterson e Zderad e como estes sustentam este trabalho. Em seguida, apresento os conceitos que permeiam o cuidado de enfermagem em UTIP Cardíaca. Assim, faço o entrelaçamento entre o ambiente, as pessoas que atuam nesse ambiente e os conceitos que considero pertinentes e indispensáveis para as ações de cuidado se efetivarem com base científica, criativa e envolvimento emocional.

4.1. O AMBIENTE TECNOLÓGICO HOSPITALAR E O CUIDADO NA UTIP

No documento Cora Coralina (páginas 28-33)

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