2.2 Sobre a Teoria da Otimidade (OT)
2.2.1 Pressupostos da OT
Proposta por Prince e Smolensky (1993), pode-se dizer que, semelhantemente aos modelos propostos pela Teoria Gerativa Clássica, a Teoria da Otimidade sugere a existência de uma gramática universal (GU) – conjunto de conhecimentos inatos da linguagem em todo o ser humano, que caracteriza as propriedades universais compartilhadas pelas línguas e as possíveis variações entre elas. Diferencia-se de tais modelos, contudo, no que diz respeito à relação entre o input e o output.
Assim, enquanto que na teoria gerativa clássica a forma de superfície (output) é vista como o resultado da aplicação ordenada de regras à forma subjacente (input), caracterizando processamento serial, na OT as manifestações de output passam a ser vistas como o resultado do ranqueamento de restrições. Além disso, o processamento da linguagem passa a ser interpretado como operação em paralelo, uma vez que, a partir de um determinado input, a melhor forma de output é escolhida analisando-se todos os candidatos simultaneamente. Desse modo, conforme salienta Bonilha (2003), ao passo que no modelo gerativo, baseado em regras, o foco de análise é colocado no processo de mudança, ou seja, em como uma estrutura X se transforma em uma estrutura Y, na OT o foco encontra-se nas restrições que compõem a GU e na interação existente entre elas, já que é esta interação que possibilitará a forma de superfície. Collischonn e Schwindt (2003) sugerem, neste sentido, três vantagens no trabalho com restrições em lugar de regras: economia descritiva, universalidade e
uniformidade de análise.
A economia descritiva é devida, segundo os autores, ao fato de que as abordagens baseadas em regras também necessitam de restrições, o que faz com que uma abordagem baseada apenas em restrições seja, sem dúvida, mais econômica, por não necessitar das regras e restrições. Ainda de acordo com os autores, o caráter de universalidade pode ser evidenciado, uma vez que regras são específicas de cada língua, ao passo que restrições são universais. Finalmente, uma análise em OT será mais uniforme, visto que todas as restrições são violáveis.
Outro aspecto que merece destaque nos estudos em OT são as propriedades fundamentais da teoria propostas por McCarthy e Prince (1993a), a saber: violabilidade,
ranqueamento, inclusividade e paralelismo. No que diz respeito à violabilidade, sabe-se que
violações são permitidas, apesar de sempre mínimas. Isso significa que a OT substitui a hierarquia de princípios universais invioláveis por um único dispositivo: restrições universais violáveis. Conforme mencionado anteriormente, essa opção faz com que a teoria seja mais econômica, além de mais explicativa, uma vez que cresce em universalidade.
O ranqueamento prevê que as restrições sejam ordenadas de acordo com cada língua particular. Além disso, a noção de violação mínima é definida a partir dessa hierarquia de restrições, já que, num par de restrições em conflito, a restrição ranqueada mais acima tem precedência sobre a restrição ranqueada mais abaixo.
Já a inclusividade atua de modo que a hierarquia de restrições avalie o conjunto de candidatos que são admitidos pelas considerações mais gerais de boa-formação de estrutura.
Finalmente, entende-se por paralelismo o fato de que em OT a melhor satisfação da hierarquia de restrições é computada considerando tanto a própria hierarquia quanto o conjunto de candidatos por inteiro, ou seja, não há derivação serial.
Assim, de acordo com esses princípios, a arquitetura da OT tem a função de promover um pareamento entre as formas de input e as formas de output, o que é feito através de dois mecanismos: GEN (generator) e EVAL (evaluator). Nesse sentido, a relação que se estabelece é a seguinte: a partir de um input, GEN gera um conjunto de candidatos a outputs a serem analisados por EVAL com base na hierarquia das restrições que compõem CON (constraint). Esses mecanismos/componentes são comuns a todas as línguas. Entretanto, o conjunto de candidatos gerados por GEN e a hierarquia utilizada por EVAL serão definidos por cada língua particular.
As relações entre esses componentes são representadas através de um tableau, como é mostrado em (44), que formaliza uma operação em OT.
(44)
/input/ restrição 1 restrição 2 restrição 3
candidato 1 *
candidato 2 *!
candidato 3 *!
Dentre os candidatos gerados por GEN, EVAL selecionou o candidato 1 como ótimo, indicado por , já que os demais candidatos violaram restrições dominantes em relação àquela violada pelo candidato 1.
Pode-se observar, ainda, pelo tableau em (44), a relação hierárquica entre as restrições, demonstrada através de sua ordenação na primeira linha. Além disso, vê-se que as violações são representadas por asteriscos, acrescidos de uma exclamação (!) no caso de violação fatal, capaz de eliminar o candidato.
Caso as restrições 2 e 3 estivessem separadas por linhas pontilhadas, haveria a escolha de dois candidatos ótimos, uma vez que essas restrições não apresentariam, nesse caso, nenhuma relação de dominância entre si por estarem no mesmo estrato. O tableau em (45) ilustra esse fato.
(45)
/input/ restrição 1 restrição 2 restrição 3
candidato 1 *
candidato 2 *
candidato 3 *!
Cabe ressaltar, também, que o modelo classifica as restrições universais em dois grandes grupos: as de fidelidade e as de marcação. São restrições de fidelidade aquelas que buscam assegurar a relação entre o output e o input com o máximo de similaridade, enquanto que as restrições de marcação advogam por outputs não-marcados, ou seja, exigem que as formas de output sigam critérios de boa-formação.
Um terceiro tipo de restrições, considerado por alguns autores, além das de fidelidade e marcação, são as restrições de alinhamento (ALIGN). Essas restrições permitem que se alinhem categorias prosódicas (palavra fonológica, sílaba, pé, etc.) com categorias gramaticais (palavra morfológica, raízes, afixos, etc.). Contribuem, portanto, para dar conta da interface prosódia/morfologia.
Assim, estabelecida a base do modelo da OT, passa-se a considerar alguns aspectos importantes para o entendimento da análise da atribuição do acento à luz desses pressupostos.