CAPÍTULO IV – AS POSSIBILIDADES AVENTADAS PELA DOUTRINA DE DECISÕES
4.1 Pressupostos desta abordagem numerus apertus
ato normativo – 4.1.2 A compreensão terminológica das três espécies de invalidade perpétua – 4.2 Coisa julgada aparente ou inexistente – 4.2.1 Quando não há relação processual - 4.2.2 Aquilo que não pode ser tido como sentença – 4.2.3 ‘Falsus procurator’ – 4.3 Coisa julgada inconstitucional – 4.3.1 Abrangência e direito legislado – 4.3.2 Algumas das possibilidades de coisa julgada inconstitucional – 4.4 Coisa julgada absolutamente nula – 4.4.1 ‘Segunda sentença no mesmo processo’ e ‘segunda sentença noutro processo’ – 4.4.2 Relação processual post mortem.
4.1 PRESSUPOSTOS DESTA ABORDAGEM NUMERUS APERTUS
4.1.1 Adendo quanto às possibilidades infindáveis de coisa julgada inválida que são inconciliáveis com a idéia de ato normativo
É de todo impensável pretender esgotar as possibilidades daquilo que, em tese, deve ser tido como pseudo-sentença. A própria experiência jurídica tem sido pródiga em expor um sem número de situações que nunca poderão ser previamente contempladas pelo legislador em enumeração exaustiva. São situações onde a última das decisões judiciais padece da falta de algum aspecto lógico ou racional para alcançar a autoridade da coisa julgada.
As hipóteses aqui referidas resultam de pesquisa aleatória e representam amostra tímida da literatura específica, mas cumprem bem o papel de lançar luzes sobre uma área pouco explorada de nosso Direito. Área onde a exacerbação do ideal da segurança jurídica põe constantemente em xeque uma série de valores tidos pelo constituinte originário como de igual ou superior relevância para a ordem jurídica.
O conhecimento dos resultados dessa acanhada coleta doutrinária parece autorizar a assertiva de que o absolutismo da coisa julgada equivale à negativa das “leis da lógica e da razão”. Expressão esta cunhada no seguinte contexto:
el principio germánico de la validez formal de la sentencia, ni tampoco las modernamente inspiradas en la aceleración del término de las litis y en alcanzar con la mayor rapidez la certeza sobre el fallo, pueden sustraerse a las leyes de la razón y de la lógica, y en obediencia a éstas, debe la ciencia admitir, aunque sea en la medida más restringida, que aun después de la preclusión de los medios de impugnación, subsistan sentencias afectadas por la nulidad insanable.131
A coisa julgada inválida atenta contra as compreensões básicas do que é o Direito e a Justiça. O fato de, na prática, sua incidência ser numericamente inexpressiva não afasta a preocupação com as incontáveis possibilidades de sua ocorrência. Constatada, ela deve perder a condição de ato normativo porque o que é aparente, inconstitucional ou nulo ipso iure não pode ser juridicamente admitido como apto à produção de efeitos.
A retirada de um tal ato da esfera jurídica, no entanto, reclama a introdução no direito legislado brasileiro de instrumento específico para a impugnação perpétua da invalidade. O meio processual mais indicado para tanto seria a querela nullitatis
insanabilis, que surgiu no direito medieval para canalizar o questionamento de vícios
processuais graves e que se presta como luva para corrigir inconstitucionalidades e iniqüidades extraordinariamente manifestas.
4.1.2 A compreensão terminológica das três espécies de invalidade perpétua
A coisa julgada será tida aqui como inválida quando sua existência for (a) ‘aparente’, (b) ‘inconstitucional’ ou (c) ‘nula de pleno direito’.
A aparente, ou inexistente, pode ser descrita como aquela que nasce da crença de que teria efetivamente havido uma relação jurídica processual. Imaginemos, por ora, a hipótese de documento fraudado com todos os requisitos extrínsecos de
131
CALAMANDREI, Piero. Estudios sobre el proceso civil; vicios de la sentencia y medios de gravamen. Buenos Aires: EJEA, 1961. p. 463.
acórdão ou sentença.
A inconstitucional vem a ser a coisa julgada que resulta de ato processual contrário à Constituição. A única exigência seria que este ato guardasse relevância na relação processual,132
como ocorre com a decisão cerceadora da defesa ou violadora de direitos e garantias. No dizer de um jurista português:
Os actos jurisdicionais, isto é, que sejam praticados por um juiz no exercício das suas funções, obedecendo aos requisitos formais e processuais mínimos, que violem direitos absolutos ou os demais direitos fundamentais e a essência dos princípios integrantes da Constituição material não são actos inexistentes, meras aparências, antes assumem como verdadeiras decisões jurídicas inconstitucionais.133
A inconstitucionalidade da coisa julgada não está apenas na afronta direta ou literal a preceito da Constituição. Ela ocorre também quando a decisão judicial é fundamentada em norma inconstitucional, “tenha sido ou não objeto de declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória e geral”, e ainda quando deixa de “aplicar norma constitucional por entendê-la, equivocadamente, inconstitucional”. 134
Já a nula de pleno direito, última das três espécies de coisa julgada inválida, precisa ser melhor compreendida. A regra, no direito infraconstitucional, é a de que mesmo os vícios mais graves podem ser sanados pelo fenômeno da preclusão, o que é observado tanto no direito processual, onde a nulidade depende de reconhecimento judicial, como no direito privado, onde ainda hoje prevalece o brocardo latino de que
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Seria relevante o ato processual que tenha contribuído para a “constituição, conservação, desenvolvimento, modificação ou extinção” da relação processual (COLUCCI, Maria da Glória; ALMEIDA, José Maurício Pinto de. Lições de Teoria Geral do Processo. 4. ed. Curitiba: Juruá, 2001. p.137).
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OTERO, Paulo Manuel Cunha da Costa. Ensaio sobre o Caso Julgado Inconstitucional. Lisboa: Lex, 1993. p. 64.
134
THEODORO JÚNIOR, Humberto; FARIA, Juliana Cordeiro. A coisa julgada inconstitucional e os instrumentos processuais para seu controle. In: Coisa Julgada Inconstitucional. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2002. p. 147, n. 61.
quod nullum est, nullum producit effectum. 135
As raras exceções à cura operada pelo passar do tempo ficariam reservadas apenas às derrogações expressas do direito legislado. Ressalvas legais essas que afastam para todo o sempre a exigibilidade dos efeitos previstos em coisa julgada constituída a partir de nulidade pleno iure.
É de bom tom reconhecer, no entanto, que esses tipos de invalidade da coisa julgada nem sempre permitem classificar de modo convincente a diversidade de hipóteses imaginadas.136
Dois dos motivos dificultadores seriam (1) a possibilidade de a hipótese enquadrar-se em mais de uma das três espécies de invalidade e (2) a eventual discordância com as opções conceituais e teóricas aqui adotadas.
Outra advertência refere-se à atribuição de créditos: nem sempre a menção a determinado autor corresponde à efetiva primazia na formulação da hipótese em sede doutrinária.