1.3 A DEMOCRACIA COMO PROCESSO
1.3.1 Pressupostos do processo democrático
Fundamentalmente, é necessária a presença de uma associação humana. Dahl utiliza com frequência o termo “associação” porque o processo democrático não precisa estar adstrito a um Estado nacional, ele pode estar no seio de qualquer conjunto de pessoas que necessitem se organizar politicamente. O processo pode, por exemplo, ser aplicado a instituições, a conselhos administrativos, etc.
A associação terá, certamente, regras, cujo intuito é fazer com que se organize da melhor maneira possível quanto aos seus recursos e os seus encargos, bem como torna previsível o comportamento dos seus membros para permitir a coexistência e lidar com os conflitos que porventura surjam. Os membros da associação são, desse modo, todos aqueles a quem as regras forem aplicáveis – logo, a principal regra para o pertencimento à associação consiste em estar sujeito às suas decisões63.
No seio dessa associação, é preciso estabelecer antes quais pessoas, entre os seus membros, são qualificadas para participar da tomada de decisões coletivas, e sob quais condições elas o farão. Ainda, apenas membros da associação podem participar da tomada de decisões, isso porque, como visto, é sobre eles que os efeitos dessas decisões recairão. É um respeito ao autogoverno: não se pode permitir que alguém imponha a outros regras que não esteja disposto a cumprir por si mesmo. Para que esse processo de tomada de decisões possa ser democrático, os membros da associação devem concordar que
todos os membros são suficientemente bem qualificados, de modo geral, para participar da tomada de decisões coletivas, de caráter vinculativo para a associação, que afetem significativamente seu bem ou seus interesses. Em todo caso, ninguém é definitivamente mais bem qualificado que ninguém para receber a incumbência de tomar as decisões coletivas e vinculativas64.
63 DAHL, Robert Alan. Procedural Democracy. In: DAHL, Robert Alan. Toward democracy: a journey. Reflections: 1940-1997. vol. 1. University of California: Berkeley, 1997, (57-93), p. 58. Este artigo apareceu originalmente em LASSETT, P.; FISHKIN, J. (eds.) Philosophy, Politics, and Society. Oxford: Basil Blackwell, 1984, p. 225-241.
Esse pressuposto compreende duas etapas, ou dois limites, acerca da competência de seus membros. Primeiro, estabelece que todos os membros são suficientemente bem
qualificados, ou que todos alcançam um patamar razoável de competência suficiente para
participar da tomada de decisões. O segundo, ninguém é definitivamente mais bem qualificado
que ninguém, nega a possibilidade de que alguém possua qualificações tão superiores aos
demais que possa governar só. Desse modo, tem-se um nível mínimo de competência alcançável por todos os membros, e um nível máximo de competência que nenhum membro alcança.
O conjunto de membros a que recaem esses pressupostos é que chamaremos de demos,
populus ou corpo de cidadãos. Por ora, seguiremos argumentando que todos os membros da
associação são cidadãos, ou seja, fazem parte do demos. Esse é, para Dahl, o Princípio Forte de Igualdade (igualdade política), para diferenciá-lo do que ele chamou de Princípio da Igualdade Intrínseca. Entretanto, é possível que alguns dos membros submetidos às decisões vinculativas sejam excluídos do demos – que não possam ser considerados cidadãos a ponto de participar na tomada de decisões. A exclusão das crianças é o caso mais óbvio.
Justificar a exclusão das crianças, por exemplo, ou de quaisquer outras pessoas, diante do pressuposto de que todos os membros da associação são cidadãos qualificados para participar da tomada de decisões, é uma tarefa complexa. “Uma crença racional na democracia pressupõe, portanto, que a Igualdade Forte existe entre os cidadãos (plenos). Mas quem deve ser cidadão, isto é, quais pessoas compartilham da Igualdade Forte?”65. É uma questão de determinar qual é o alcance da Igualdade Forte, a quem ela se estende, mantendo ainda sua razoabilidade.
Dahl demonstra o alcance da Igualdade Forte através de duas proposições que se somam a ela. 1 – O princípio da Igual Consideração de Interesses, ou seja, os bens ou interesses de cada membro da associação devem receber a mesma consideração; dito de outra forma, o bem ou interesse de ninguém pode ser intrinsecamente superior ao bem ou interesse de outrem; e 2 – ninguém é melhor que você mesmo para julgar os próprios bens ou interesses e para agir em prol da sua concretização. Esses princípios podem ser considerados “os grandes alicerces das crenças democráticas (e também do pensamento liberal)”66.
A partir dessa soma, o autor desenvolve aquilo que chama de Presunção de Autonomia Pessoal: “na falta de uma prova definitiva em contrário, todos são, em princípio, os melhores
65 DAHL, 2012, p. 152. 66 DAHL, 2012, p. 154.
juízes de seu próprio bem e de seus próprios interesses”67. O efeito dessa presunção, para o autor, é impedir que uma autoridade paternalista possa conquistar legitimidade entre os membros adultos da associação, exceto nos raros casos em que se puder obter uma “demonstração muito gritante de incompetência”68.
Essa argumentação é dirigida especificamente à exclusão das crianças, único exemplo de um grande grupo de pessoas excluídas do processo de tomada de decisões e sujeitas a uma autoridade paternalista. Até recentemente, também se consideravam as mulheres e os negros como evidentemente não competentes para tomar decisões por si mesmos – a presunção de autonomia pessoal, contudo, é capaz de rechaçar esse equívoco sem cair em contradição, pois todas as pessoas adultas devem ser consideradas igualmente autônomas e capazes, exceto prova evidente em contrário.
Para as crianças, seus responsáveis são autoridades paternalistas amplamente aceitas, isso porque se considera que a criança ainda é jovem demais para compreender a complexidade das relações sociais e ainda não possui autonomia. Já em relação aos adultos essa possibilidade só pode existir diante de casos excepcionais, como pessoas afetadas por defeitos congênitos, dano cerebral e quaisquer condições – geralmente patológicas – que prejudiquem de maneira séria ou irremediável sua cognição, tornando-as incapazes de tomar as decisões para o próprio cuidado. Exatamente por isso a presunção da autonomia. Todos os adultos presumem-se capazes e autônomos, completamente qualificados para tomar decisões individuais e participar do processo de tomada de decisões coletivas; as exceções à regra necessitam de prova.
Esse é o pressuposto que concerne especificamente ao corpo que fará parte do processo democrático, estabelecendo a regra necessária que ajudará a delimitar a que pessoas ele se aplica. De maneira geral, esse pressuposto procura responder à pergunta: quem decide? Mas é preciso lembrar que o processo democrático necessita não somente dos indivíduos que tomem decisões de caráter coletivo e vinculativo, mas da matéria ou do conteúdo a se decidir. Nesse caso, é necessário responder: sobre o que se decide?
O processo democrático de tomada de decisões deve ser composto de ao menos dois estágios que Dahl considera como analiticamente distintos, o estabelecimento da agenda e a decisão quanto ao resultado:
O estabelecimento da agenda é a parte do processo durante a qual são escolhidos os temas sobre os quais as decisões serão tomadas (incluindo uma decisão de não decidir
67 DAHL, 2012, p. 155, grifo do autor. 68 DAHL, 2012, p. 155.
o assunto). A decisão quanto ao resultado, ou o estágio decisivo, é o período durante o qual o processo culmina num resultado, o que significa que um curso de ação política foi definitivamente adotado ou rejeitado. Enquanto o estabelecimento da agenda é a primeira palavra, a decisão quanto ao resultado é a palavra final, o momento de soberania no que diz respeito à questão em pauta69.
Estabelecer a agenda é trazer à baila quais assuntos são relevantes decidir coletivamente. É a etapa em que os membros da associação podem discutir entre si, expor pontos de vista, estabelecer acordos e mesmo fazer comprometimentos, mas nenhuma dessas ações tem o condão de obrigá-los; apenas no estágio decisivo é que as decisões se tornam vinculativas e ganham caráter e força normativos. Uma distinção de importância vital para o processo é perceber o caráter da decisão a ser tomada: “antes do estágio decisivo, pode-se pensar nas decisões como tendo sido delegadas, mas não alienadas por aqueles que participam do estágio decisivo”70. A distinção entre delegação e alienação fica mais clara durante a análise dos
critérios do processo.
De modo esquemático, os pressupostos (P) podem ser resumidos da seguinte forma71.
P1 – Os membros de uma associação política se veem na necessidade de tomar decisões vinculativas sobre certos assuntos, e para isso necessitam de um modo para atingir essas decisões;
P2 – O processo através do qual se pretende gerar decisões coletivas e vinculativas precisa ser composto ao menos de dois estágios distintos: estabelecimento da agenda e decisão quanto ao resultado;
P3 – Decisões vinculativas somente podem ser tomadas por membros da associação, ou seja, pelas pessoas que estão sujeitas às decisões. “Esse pressuposto repousa sobre o princípio elementar de justiça segundo o qual as leis não podem ser legitimamente impostas aos outros por pessoas que não são, elas próprias, obrigadas a obedecer a essas leis”;
P4 – O bem ou interesse de cada membro da associação deve ser igualmente considerado, “e se cada pessoa adulta é, em geral, o melhor juiz de seu bem ou de seus interesses, isso significa que todos os membros adultos de uma associação são suficientemente bem qualificados [...] para ser cidadãos plenos do demos”72.
P5 – Quando as decisões vinculativas são tomadas, as pretensões de cada cidadão quanto às vantagens das políticas a serem adotadas devem ser contadas como válidas e igualmente
69 DAHL, 2012, p. 168. 70 DAHL, 2012, p. 168-169.
71 DAHL, 1997, p. 57-60; 2012, p. 163-170; 72 DAHL, 2012, p. 164.
válidas.
Todos esses pressupostos resultam do que Dahl chama de Princípio da Igual Consideração de Interesses e da Presunção de Autonomia Pessoal. Juntos ajudam a tornar mais robusta a Ideia de Igualdade Intrínseca, que o autor classifica como uma igualdade moral, ao patamar de Princípio Forte de Igualdade, ou igualdade política com força normativa. É a igualdade política, estabelecida através desses pressupostos, que sustenta o processo democrático em todos os seus critérios.